sábado, 30 de junho de 2007

Bom, eu estou começando a escrever um livro meio autobiográfico.. Esse é um trecho do primeiro capitulo...

Quero ouvir críticas, opiniões e sugestões, ok?




Capitulo № 1

“Eu sei, mas quero ouvir”...

“E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela. Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais. E ouviram a voz do SENHOR Deus, que passeava no jardim pela viração do dia; e esconderam-se Adão e sua mulher da presença do SENHOR Deus, entre as árvores do jardim.
E chamou o SENHOR Deus a Adão, e disse-lhe:
Onde estás? E ele disse: Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me.
E Deus disse: Quem te mostrou que estavas nu? Comeste tu da árvore de que te ordenei que não comesses?
Então disse Adão: A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi.
E disse o SENHOR Deus à mulher: Por que fizeste isto?
E disse a mulher: A serpente me enganou, e eu comi” Gênesis 3 - 6-13

Lembro que o que era mais doloroso de se começar esse livro era a primeira parte. Há sete anos atrás eu nunca conseguia terminar sequer o primeiro capitulo, mas com esforço, eu consegui. Demorei um ano só para terminar o primeiro capitulo (se para entender o que aconteceu, eu demorei um ano e meio, imagina para falar sobre o que aconteceu). Já tínhamos terminado, mas na minha cabeça, era apenas um tempo que eu estava dando a Viviane para pensar. Até hoje sinto essa noite. Mas ainda bem não é tão mais forte como antes. O primeiro capitulo, até para eu lê-lo hoje em dia é meio pesado, imagina há sete anos atrás, quando eu a amava loucamente.
O desenrolar do nosso término foi meio que sem pé nem cabeça mesmo, pra ser mais sincero o dia do “acabou” foi bem louco e o ponto culminante é narrado abaixo.

No inicio eu só lembrava do estampido surdo em meus ouvidos. Era como se uma gigantesca pedra se chocasse contra um prato de aço estridente. Um prato de bateria. Não ouvia mais carros, ruas ou sirenes que tentavam distrair a resposta que eu queria, enquanto havia chuva:

- Não.
- Por quê?
- Acabou. Não existe isso que você está fazendo agora...
- Isso o quê?
- Se ajoelhar no chão, no meio da rua... Todo mundo passando... Aqui não é São Gonçalo.
- Me ajoelharia até mesmo no inferno que dirá em botafogo...
- Levanta vai
- Não volta

(Segurando agora os meus braços)

- Levanta... Ta todo mundo olhando...
- Foda-se todo mundo! Foda-se! Fui um babaca egoísta até agora, mas percebi que o que me fazia assim era todo o conforto que se segurança que eu tinha e que você me dava... Meu amor, Viviane, eu não sei viver sem você...
- Sabe sim, claro que sabe – me puxava abruptamente os braços - Viveu até agora, como é que agora você não sabe? Anda – ainda me puxava... Como doeu no peito a puxada que ela me dava no braço – Levanta!

(De repente ela larga o meu braço e sai andando normalmente com o guarda chuva na mão)
- Não... Volta... Fica.
- Volta?
Ta chovendo, você não ta vendo.
- Volta amor
- Merda... Ou fode ou sai de cima caralho... Eu tenho que ir embora merda...
- Volta me perdoa...

(E ela foi a passos rápidos sem sequer olhar para trás. Lembro disso até hoje. Nunca me senti tão sozinho como naqueles segundos)

Cai a pedra. Soa o estampido de prato e cada gota era lenta e morosa caindo do céu. Via lentamente atravessando a rua, sem se importar com nada... Indiferente a mim na tempestade, era apenas agora eu na rua. Pra mim, não havia mais carros, pessoas, sinais, buzinas ou qualquer tipo de trânsito que me tirasse a atenção de um lugar em comum que eu nunca tinha entrado. O desespero, a impotência de não poder alterar ou mudar uma coisa que acabou de se destituir. Perdi o meu castelo e minha princesa naquele dia chuvoso que não me deu nenhuma espécie de trégua – “no final de noite eu era lama, embriagues e pânico” – Viviane era a minha motivação a fazer tudo naquele momento da minha vida. Ingressáramos juntos na faculdade, éramos quase da mesma sala “sabe aquele casal de faculdade, era a gente” e a gente sempre estava junto no intervalo. Mas eu não estava mas no intervalo da faculdade e sabia que não queria mais estar lá “coisa que me arrependeria muito mais pra frente”. Mas acho que brevemente naquela noite, eu não saberia nem mesmo como voltar para casa, mas ainda bem voltei.
Via a impassividade dela quando esperava fechar o sinal fechar como se quisesse se livrar de algum ‘desconforto sócio-econômico’, como um mendigo comendo merda ou como uma criança com fome na rua. Infelizmente era apenas eu, ajoelhado no chão feito um babaca, chorando copiosamente em uma movimentada Rua de Botafogo. Esperou o tempo de o sinal abrir, e quando abriu, ela nem sequer me olhou e voltou os olhos. Abriu o sinal, gritei volta, mas ela não olhou. Bati com muita força a estrutura metálica de uma banca de jornal com tanta força, que me abriu o pulso e cortou os meus dedos. Acho que por uma atitude de auto-precaução ela apenas olhou pra trás “afinal de contas, ela tinha e até tem certo vínculo de amizade com a minha mãe, mesmo que afastadas” , mas não refez o seu caminho e nem se preocupou, continuou com um passo ligeiro e uma atitude completamente fria e altiva.
Me passaram vários pensamentos naquele instante...Será que era essa a mulher que eu convivi durante esse tempo? Será que de alguma forma alguém está influenciando ela? Deve ser aquela amiga dela que me detesta... Tinha acabado de acordar do estampido da pedra “literalmente, o choque foi como se algo tivesse me ensurdecido”. Pensei em suicídio, sumir, ir pra algum lugar, mas alguma coisa “ainda bem” me falava para seguir em frente, descontinuado pela incessante chuva que agora caminhava se arrastando por entre os bueiros sujos de Botafogo.
Era como um movimento em preto e branco de cores que eu tive a noção que só via quando eu estava com ela. Tinha perdido minhas ligações de sempre a noite, a minha companheira de vida... Perdi uma grande parte de mim e achava que tinha me perdido também.
Tudo era estranho, sombrio e apático. Era o resumo da noite e do que estava acontecendo e eu não pensava em nada, era desespero, choro, culpa, solidão, convulsão nervosa e remorso naquela noite “Ninguém está deserto a ponto de não ser alvo desta sensação e nem sequer isento de sentir tudo isso. Me lembrei apenas desse fato quando fui Pai. O que senti quando vi a minha filha pela primeira vez foi exatamente isso, uma gama de sentimentos acontecendo ao mesmo tempo, mas graças a Deus foram apenas coisas boas, acho que o que me fez esquecer essa sensação foi o que eu senti quando vi a minha filha pela primeira vez”
Naquela noite eu queria apenas algo para esquecer. Um remédio para não lembrar, ou alguém pra realmente convence-la a voltar de qualquer forma, e me pedir perdão ou pelo menos fazer com que ela realmente ouvisse o meu pedido de perdão, me humilhar e tentar fazê-la a mulher mais feliz do mundo “O que hoje em dia vejo que é impossível. Quando se está determinado (a) a mudar e somos o efeito direto de várias mudanças que vão nos transformando durante a nossa caminhada, esse tipo de “conselho” se torna ineficaz. Não conseguiremos, vejo hoje, fazer ninguém feliz se não estivermos felizes, e se não estamos felizes justamente com as pessoas que nós deveríamos fazê-las felizes, que são aquelas que elegemos para andar junto, é porque há algo de novo mudando dentro de nós. E cabe a cada um, julgar se essa mudança terá um autobenefício, mas no início de nossas principais mudanças, qual não é dolorosa? Mudar machuca, fere e cauteriza várias coisas em nossas vidas, mas são os calos e as cicatrizes que nos fazem mais fortes e sempre é preciso mudar. Um relacionamento sempre deve passar por mudanças pra se adaptar em várias situações”
Mas não havia nada naquela noite a ser feita. Nenhuma saída lógica. O telefone de Viviane estava dando ocupado “provavelmente tirou do gancho” e a chuva apertava cada vez mais. Não havia nenhuma saída lógica exceto para em uma birosca e tentar respirar e ir pra casa, o que talvez fosse o maior obstáculo possível.
Sempre fui muito matuto com relação ao resto de todo o Rio. Nunca tinha pegado até então uma rota interestadual! Meus sonhos nunca conseguiam, às vezes, atravessar uma esquina, ir além de uma boca de fumo ou de uma farmácia. Eram incertos, acho, assim como as minhas pretensões sociais; Nunca quis ser alguém a ser lembrados pelo que conquistou, por grandes méritos ou feitos fabricados em alguma causa fatalista proposital. Queria criar uma comunidade de pessoas que se relacionam em comum pelo que sentem. Pessoas que em comum, percebem que o mundo é esse e que algum sádico de colocou no lugar errado e na hora errada. “Percepção de realidade na maioria é mera intuição e quase sempre é instinto”. Diria-me mais tarde. “Às vezes não somos o que realmente somos e nos trancamos em cadeias de sentimentos e é ai que Deus, vida, mãe, pai e tudo entram em um mesmo saco que tem nas bordas escrito o nome dos seus vícios”. Nunca quis ter todos os amigos do mundo, apenas o que eu realmente pudesse ter. Sempre procurei uma extensão segura do que seria o meu mundo. O meu velho e restrito mundo “freak”. Mundo de cara gordo, negativamente estereotipado pelo resto da escola, desde sempre entregue às zombarias e mazelas que eram feitas a caras que não eram iguais.
E assim, um dia me confessou Viviane que assim sempre era com ela. Talvez fosse porque o Pai era um autônomo e dependia do tempo de da disposição dos outros a comprarem os seus perfumes. Ele era vendedor de perfumes. Batia de porta em porta na procura de alguém que lhe comprassem as suas essências. Era um espanhol que veio ao Brasil a procura de liberdade e sucesso financeiro, mas sempre encontrou luta, peleja, suor e trabalho, mas muito trabalho. Mas nunca desistiu da nada. Nunca turvou sua cabeça e sempre lutou pagando a escola dos filhos com o suor de sua labuta diária de porta em porta vendendo odores e fragrâncias. O trabalho mascate era labutoso, mas sempre acreditava que um dia conseguiria todo o seu intento. Era um europeu de coração grande cheio de esperanças com o nosso pais.
Não era sempre, então, que seu pai conseguia “acompanhar a moda as bonecas e brinquedos” daquela gente. E ela às vezes se via em um mercado de consumo na qual ela não fazia parte. Que várias vezes ela não fazia realmente parte. E ela era muito zombada por isso. Afinal de contas ela era filha don “Espanhol que vendia perfumes de porta em porta”. Ela não era uma linda garotinha confusa, como sempre foi. Ela era assim como eu subjugada e oprimida por um bando de idiotas escrotos que queriam sempre esfola-la com humilhação e vergonha, assim como eu; Então eu pensava: “Ela veio de um mesmo mundo que eu, ela não faz parte dessa esfera estética de pessoas que procuravam um padrão e queriam ser iguais as outras. Ela não é como as outras” Me iludia – Ninguém é eternamente do mesmo jeito que conhecemos. Todos nós passamos por enormes mudanças ao longo de anos, dias, semanas e até mesmo segundos. Podemos mudar uma conjectura com um olhar, com um gesto e até mesmo com uma força interior que pede mudança.
Tinha certeza que assim Deus a tinha colocado em minha vida. Finalmente o pé feio tinha encontrado seu chinelo velho, pensava. Havia então encontrado a minha metade? Mas como ela corria na chuva agora?
Levanto então a minha cabeça repentinamente e me atento a estar dentro de uma birosca. A birosca era suja e decorada com um azulejo português azulado, bastante típico em vários bares do rio. Ovo rosa, Carne Assada de Ontem, Jaleco sujo de gordura, balcão de vidro e um travesti do outro lado que me olhava atentamente. Sentia um cheiro forte de gordura impregnando minha roupa e cabelos. O local era inóspito de pessoas comuns, ou seja a qualquer um que não suportasse aquele cheiro, gosto e sabor de subversão. Via na noite que estava dentro daquele bar as pessoas doentes, homens procurando por violência, trabalhadores alcoólatras, mendigos enganando o sono tentando se distrair para passar a noite e até perdidos como eu, perdidos em um circo sem picadeiro, preso a armadilhas da vida se tornando peças de um quebra cabeças de loucura que são encontradas nesse submundo, mas duvido que algum prêmio seja dado a alguém que realmente monte esse quebra cabeças, talvez seja dado loucura, morte ou esquecimento, se tornando eternamente preso a esse universo, tal como o mendigo, o alcoólatra e o travesti que agora saia do seu lugar de frente ao meu e sentava agora do meu lado. – Mas acho que depois eu aprendi que eu era todas aquelas pessoas naquela noite...

- Oi – Saudava a voz enlatada.
- Quié?
- Calma... Tá nervoso nem? Ta com soninho? Vamo pra minha casa tirar um soninho gostoso, vamo?

Vai toma no cu, seu viado filha da puta. Levantei berrando e trocando as pernas. Um sotaque português me pergunta se eu não ia pagar a cachaça. Jogo uma nota de dez reais, o que suficientemente pagaria duas contas daquela ou até mais.
“Cachaça”. Pensava depois nessa palavra maldição que endemonizava meu pai todas as minhas noites durantes os meus primeiros dez anos. Meu pai a sorvia com interesse e como poucos no bar do Jair, bar que ficava exatamente embaixo do nosso apartamento. Meu pai ficava por horas lá embaixo se deliciando e falando coisas a qual sabia que não havia pessoas instruídas o suficiente que poderiam até então entender. Falava de política e um pouco de filosofia barata e depois alguns bebuns se cutucavam e comentavam “nossa, como o Rogério é inteligente”. Mas meu pai sempre de orelha em pé percebia que eles idiotamente, avaliavam uma cultura inútil que era sempre vomitada por ele, entre uma cachacinha e outra. Depois de tanto alimentar o seu ego com os “matutos”, subia as escadas como se fosse um sacrifício. Cada degrau era um desafio incomensurável para ele. Ele lambia os corrimões com a cara em quase uma queda. Usava um palito marrom claro quadriculado comprado em brechó, seguindo uma tendência que ninguém usava, mas como não tinha dinheiro, assim perdurava em usá-lo. Lembro-me depois que eu tinha medo desse palito marro claro. Tinha até mesmo medo de usá-lo.
Esmurrava a porta pra entrar - ou quando o famoso cachaceiro escora tocava a campainha com ele no ombro. Eu sabia que quando tocavam a campainha em altas horas da noite sabia que era ele, mas que ele não estava sozinho o que era preferível pela minha mãe, pois assim ele batia na cama, em vez dela. Minha mãe abria calada porque eu estava no berço. E assim permanecia para não fomentar mais a fermentação do meu pai. Ele sempre xingava algo desagradável sobre a família da minha mãe. Sempre falava sobre a má sorte de algum tio meu e chamava carinhosamente minha mãe de piranha. Ligava um K-7 de um cantor latino que hoje eu simplesmente não quero realmente recordar. Nunca tomava banho. Tirava os sapatos na sala os jogando com força contra a parede. Gritava em altos pulmões um merda ou um caralho e ia pro quarto. Em seguida se abria a cortina de Awshivtiz em cima das costas da minha mãe. Ele vinha xingando-a como um demente e pulava em cima da cama. Tentava ter relações com a minha mãe e o que sempre se repetia e o que sempre conseguia, pois era homem e forte, mas mesmo que se conseguisse ou não, ele sempre batia nela depois. Esse ritual macabro noturno sempre se repetiu por várias noites. Era um absurdo inconveniente admitido por mim, pois desde os cinco anos fingia dormir para que minha mãe não ficasse preocupada comigo. Não adiantaria a minha intervenção porque ele já fez coisas piores e com a minha ciência. Só ficava pior para a minha mãe que parecia desfalecer quando me via presenciando essas coisas, daí em diante, eu passei a fingir que dormia para não perturbar a minha mãe com sua preocupação comigo. E um dia, como em Blackbird dos Beatles, ela como um melro negro criou azas e voou.
Meu pai era um grande homem. Aliás, a maioria dos grandes homens dessa sociedade escrota é assim. Prepotente, Gananciosos, Estúpidos e Homofóbicos. E por ser esse grande homem ele conseguiu tudo o que queria: Pobreza de espírito, Miséria de alma e uma ex-mulher gorda e varizenta para se encostar e morar no Espírito Santo.
Questiono o que é justiça até hoje pela forma a qual meu pai conduziu a sua vida e pela forma a qual ela foi recompensada e da forma que ela se predestinou. Hoje em dia é um velho encostado em uma aposentada da receita federal com uma pensão gorda, ganhando muito a ponto de mimá-lo com todos e qualquer utensílio de pescaria (que antes era comprado pela minha mãe, que mais para frente seria acusada por ele de tê-lo jogado na sarjeta. “Tenho que agradecer a Deus por Ela ter aparecido na minha vida porque ela me tirou da merda que a sua mãe tinha me colocado”, dizia). Vive hoje à sombra e água fresca a troco de nada como um velho gigolô. Hoje é um velho submisso a uma outra velha por causa do seu óbvio destino: Envelhecer e morrer, mas agora com cautela. Não existiria mais “sarjeta” para Rogério. Tinha uma pensão agora e teria que zelar pela seu relacionamento pois sabia que não teria uma próxima oportunidade daquelas batendo a porta.
Acho que se alguém soubesse dos anos de estupro que meu pai submeteu a minha mãe, por questões de um alcoolismo sem uma aparente explicação, e acho que também nestes casos, não existe nenhum tipo de questão aparente que vá justificar esse tipo de situação e do tanto que apanhou, o fato de ser deixado com todos as mobílias de nosso antigo apartamento e, aliás, como o nosso antigo apartamento, seria muito para um porco como ele. O fato dele ir para a sarjeta foi apenas um rumo natural de todo parasita que sai do sei hospedeiro: Padecer e Morrer. O que acontece é que ele apenas padeceu enquanto o hospedeiro que era a minha mãe, ficou com toda a responsabilidade da casa e da minha vida. Minha mãe assim viveu. Meu pai me impediu de reconhecer o que era justo e o que era injusto na vida, mas sozinho, aprendi a fazer a barba e a ser um homem. Talvez eu não entenda muito como funcionava a questão do que é certo ou errado, assim como outros da minha idade, mas sempre me esforcei a isso, sempre tive uma preocupação em andar correto e meu dilema era “nunca parecer com meu pai”.
Cachaça. Era a palavra condenação que povoava a minha cabeça. Tinha me turvado e me entregado ao sangue que pulsava e pedia para que eu fosse como ele. Meu pai era o monstro que me envolvia quando bebia ou pensava em beber. Pensava sempre em abusos e me envolvia agora em profundidade com um universo novo, assim como Adão supostamente, assim como o falso preceito da serpente dizia, “se tornou como Deus” quando comum e curioso comeu o fruto proibido e assim me tornei como meu Pai. “Todos nós provamos de algo supostamente proibido”. Pensei eu. Mas naquele momento era maior do que isso, eu tinha me tornado como meu pai.
Eu nunca tinha bebido antes. Bebericado uma cerveja uma vez ou outra ainda vai, mas nunca tinha precipitado um copo seque por completo goela a baixa, como os santos da sarjeta fazem. Nunca havia tido o senso do que era algo similar a me embriagar em nada. Fiquei com medo de mim, dos meus pensamentos. Fiquei com medo do aterro do Flamengo e do lapso de razão que me levou a caminhar de Botafogo até aqui, Vi uma guarita de ponto de ônibus e sem pestanejar esperei um pouco até balançar a mão pra qualquer coisa que se movesse até passar por uma roleta.
Vales transportes eram bons isolantes sociais. Eles vinham a conta da passagem e era apenas deixar na banqueta do trocador e sentar em qualquer banco a frente. Sem satisfação ou intimidade, apesar de toda a indiscrição que há em pegar e estar em um ônibus. Minha cabeça era música, sons, luzes no céu... Néon, mercúrio, solidão... Músicas românticas me levavam a chorar de mim mesmo. Ouvi sons parecidos com tambores, freios de carro como cuícas e de repente era hora de descer no recém inaugurado mergulhão e pegar a barca de volta pra minha casa. Casa. Se eu tivesse asa já tinha estado lá desde cedo antes dessa loucura toda... Balbuciava e sorria para o motorista como um demente procurando apoio. Andei apenas. Não ouvi o gracejo do babaca da janela. Me preparava agora para um desafio.
Bêbados tem desafios motores que devem ser deveramente respeitados. Havia na minha frente, naquele momento, uma enorme escadaria, molhada e escoando água como uma cachoeira... Sabia que deveria concentrar toda a minha atenção a simplesmente coordenar as minhas pernas a subir degrau pro degrau, em uma indispensável contemplação de concentração de corrimão. As pernas coordenadamente deveriam estar equilibradas com o meu ponto de apoio, que era meu braço extremamente cansado em um corrimão liso como um cabo de colher lambuzado de manteiga. Pé depois do outro buscando seguro alicerce em cada degrau, e assim ir, degrau por degrau em uma difícil e espaçada labuta pra controlar as pernas e o corpo, não esquecendo de impulsioná-lo sempre para frente puxando com a mão o corrimão, pé depois de outro, buscando segurança e alicerce em cada degrau, puxando em seguida o liso corrimão, Almejando chegar a um lugar mais elevado, buscando a conclusão do objetivo maior. Chegar em casa – Os normais, digo, sóbrios, fazemos esse tipo de coordenação motora sem sequer uma observação ou concentração para ser realizada. Ela acontece instintivamente como que automático a sua ordem e coordenação – Mas para alguém, que não era acostumado a beber e ainda tem a ousadia de dar uma talagada de uma vez só um copo de cachaça, tendo depois uma escadaria daquelas para subir, é no mínimo pedir por morte.

“Acabou. Não vou mais voltar.”

Tudo começou a ficar pior, até uns dias atrás, foi quando eu escutei uma voz grave no celular dela, nós já tínhamos terminado, mas sempre tive a sensação de que Viviane estava guardada no bolso, e que a qualquer momento eu poderia sacá-la e assim aplacar a minha solidão.

- Alô?
- Alô? 9856-5766
- É
- Quem ta falando então?
- Com quem você quer falar?
- Com a dona do celular ora...
- Ela ta ocupada...
- Ocupada? Ocupada com o quê?
- Meu irmão... Você ta enchendo o saco já...
- Enchendo o saco? Vai a merda... Quero falar com a Viviane...
- Porra... Caralho... Ela ta subindo no ônibus agora?
- Quem é você?
- O namorado dela e quem é você?

(Pensei na hora: “O namorado dela há uns dois meses atrás”. Mas achei uma frase escrota a se dizer naquela hora e que a delimitava como se fosse um objeto, com num sentido de posse de coisa.)

- Alô?
- Ta namorando de novo?
(Silêncio)
- A gente sempre se falava a noite, nos mesmo horários mesmo depois que a gente terminou. Sempre nos falávamos na faculdade e sempre você me dizia que sempre você me dizia que sempre pensava em mim...
- Eu sempre “pensava” sim, mas acho que você ainda não entendeu muita coisa...
- Não. Achei que a gente só tava dando um tempo.
- Tempo? Até quando?
- Sempre deixei claro que estaria disposto a voltara hora que você decidisse...
- Você é que não entendeu... Eu não pedi tempo, você me implorou por um, em apenas disse que ia pensar, mas minha decisão eu já tinha tomado...
- Decisão? Que decisão?
- Acabou.
- Mas como acabou Viviane?
- Acabou. Há dois meses e você não sabe disso...
- Mas a gente não parou de se falar...
- Foi amigável lembra? A gente combinou... Tenho que desligar agora.
- Desligar... Porque desligar agora?
- Porque ele está com ciúmes...
- Ele quem?
- Meu namorado.
- Mentira, eu não acredito Viviane... Ta de sacanagem...

O barulho de desligado do celular de Viviane fez meu coração disparar. Ficou um bom tempo descompassado. Tinha vontade de socar o peito, arrancar os cabelos, mal acreditava que antes ela era minha e que agora ela tinha escapado por mim, por entre os meus dedos de uma forma que eu não consigo explicar. Não acreditava em absolutamente nada do que estava acontecendo. “Pode ser algum amigo do curso que ela colocou pra falar no celular para me dar uma incerta... Pra me provocar.”
Mas acho que depois a ficha caiu. Tentei ligar várias vezes para o celular dela. Ou estava ocupado ou desligado. Quanto mais eu quebrava a cara por não conseguir falar com ela, mais eu me colocava em pânico e a falta de comunicação constante que havia agora entre eu e ela me deixava louco, me fazendo correr de um lado para o outro. E eu corria atrás dela. Sondava pistas, rodava escritos, sondava amigos... Mas eram sempre pistas e nada me fazia me trazer para a minha antiga Viviane, que agora era distante e alheia a qualquer coisa que acontecesse comigo. Viviane não era mais Viviane. Viviane era uma pessoa que me driblava, corria de abraços, aproximações de qualquer tipo me dando desculpas, as mais esfarrapadas possíveis. O que eu dizia era lata, papel e ferro para Viviane... Porque tinha ficado tudo opaco e sem valor? Será que nada disso tinha acontecido?
A minha insistência foi patológica e inquieta a todos que me cercavam e quebrava a regra do que realmente era “socialmente aceitável” em uma situação como essas. Chorava várias vezes em público. Perguntava a todos por ela e ninguém se fazia de rogado para me ver me comentar algo como “derrotado” perto de mim. Meu olhavam como eu se estivesse sido vencido e humilhado por alguém. Creio que humilhado sim, mas vencido, nunca. Achava que tudo tinha acabado para mim e que nada ia dar mais certo. Era o que os outros me diziam com os olhos, e era também o que eu aceitava com a minha mente e coração em uma outra profunda falta de auto-conhecimento. Mais uma vez eu era um mero boneco do que os outros achavam de mim: Eu era um derrotado porque os outros já tinham jogado a toalha no chão para mim.Nossos amigos em comum não eram mais os nossos amigos em comum. Eu ligava para eles chorando. Omitiam informações, descasavam dados e pistas de onde ele pudesse estar e até mesmo acha-la. Me humilhava pedindo que eles falassem com ela a meu respeito, pedia para que eles persuadissem ela para voltar para mim. Mas eles eram apenas “amigos” dela, não os meus amigos. Quando ela se foi, era como se um brilho tivesse saído de dentro de mim. Mas eu não sabia que esse brilho nunca tinha realmente desabrochado antes de mim.
Eu já não disfarçava mais o meu pranto e o meu estado confuso de espírito de ter perdido a pessoa que eu mais amava. Eu não me importava com o que eu vestia e da forma como eu me portava perante as outras pessoas. Era uma pessoa amargurada e desesperada procurando por respostas. Chorando pelos cantos e principalmente, aceitando a gongada que em um breve momento, tinha levado. Me perguntavam o que estava acontecendo , mas sempre com a voz embargada dizia que estávamos bem, mas todos sabiam que tudo tinha acabado. Menos eu.
Tentei assim que desci do ônibus ligar para a prima dela. Era a minha possível ultima tentativa de mudar ou tentar mudar o que iminentemente iria acontecer, mas desisti, pois sentia reciprocamente que era total e completa a falta de sintonia que eu tinha com a prima dela. Tudo era um turbilhão pra mim, nevoado e sombrio. Meu mundo era pequeno e eu o guardava em uma caixa pequena pra que ninguém o tomasse, mas de solavanco, alguém o tirou de mim, não sei quem foi, mas se foi. Tudo isso já tinha se desenrolado em uma semana, entre a voz estranha atendendo o seu celular até hoje, o dia do estampido.
Caí da escadaria batendo os braços e a cabeça em algum lugar naqueles degraus de facas afiadas e quinas pontiagudas. Acho que desacordei por alguns instantes.

- Se você casar, você me chama?
- Claro, você vai estar lá na frente comigo...
- Não bobo, não...
- Não estou entendendo...
- É... Se você não se casar comigo...
- Como assim? Se eu for me casar vai ser com você
- Será? (Sorriso Meia Boca)
- A não ser quê?
- O quê?
- Que você?
- Que você queira terminar comigo
- Claro que não amor, eu te amo...
- Será que você vai lembrar dessas nossas juras? Mesmo que as nossas vidas mudem você ainda sim, mesmo que lá no fundo...
- Lá no fundo?
- Você sabe minha vida...
- Eu sei, mas quero ouvir...
- Você sabe que eu te amo. Você foi o meu primeiro homem e sabe que eu vou te amar para sempre. Sempre vai ter um espaço pra você meu amor. Sempre.

Talvez eu nunca mais a tivesse ao meu lado me falando tudo que eu queria e que precisava ouvir naquela situação, mas o que apenas aconteceu foram mudanças.
Em um relacionamento será que nada dura para sempre, ou o sempre não existe? Em uma vida alguma coisa dura para sempre? Sendo assim, o sempre não existe? Acho que em todas as situações há o meio termo entre todas as coisas e fatos que desassociamos por uma simples questão de falta de calma e racionalização – que a maioria das vezes pra mim, consistia em parar, ir até o fundo do posso de meus sentimentos e voltar com as minhas razões à flor da pele. Até hoje eu me pergunto se eu posso adquirir isso com a experiência, com conselhos ou realmente com a sabedoria de ter passado por isso tudo, e de fato eu vejo que em nenhuma dessas três sentenças eu encontraria realmente algum tipo de resposta. Mudança foi a palavra que imperou.
Não há uma experiência equivalente em nenhuma hipótese de todas as situações possíveis. Toda e qualquer experiência diverge em si de vários pontos, observações e vivências, portanto sempre que alguém supostamente tentasse me aconselhar eu me encalacraria dentro de um mero simulacro e diria a mim mesmo o quanto eu não sofri ou realmente deixei de sofrer, e o quanto eu falhei, e me culparia eternamente ou me diria o quanto fui sortudo por não ter tomado esta ou aquela atitude. Aprendi com isso que é inútil me martirizar por atitudes de dificilmente eu não tomaria da forma que eu tomei, pois me conhecendo, não faria diferente se não fosse da forma que reagi e reagiria, portanto sempre foi eu, descontrolado ou não. Pegar pontos de experiência como referência, como desde cedo eu cria, nunca me levaria nada. Aprendi com a vida. Aprendi com a falta de um pai a recorrer a um caminho de meio termo a tudo por falta de uma suposta “consciência macho-imperativa”, a voz grossa, a tradicional cultura do fazer a barba que me diria o que fazer ou não, até que em partes, com isso, me tornei um pouco mais autoconfiante, e acho que aprendi um pouco a lutar por caminhos de raciocínio lógico a tudo.
Quem não confia em pontos de experiência, não acredita, portanto em conselhos, criticas e opiniões, e, por não acreditar em conselhos, descartava qualquer tipo de noção que supostamente me parecesse fruto de alguma explanação sábia. Humanamente falando, não há para mim explanações ou algum tipo de coisa que se chame de sabedoria se não houver uma introspecção sobre o foco de observação em si. Ou seja, se alguém me falar de qualquer tipo de experiência, sendo de causa própria, eu descarto certamente. Ninguém nunca me convenceu em falar que drogas eram ruins porque eram, quando na verdade não é assim. Drogas são boas e legais, mas usá-las é uma coisa que não existe. Não existe um usuário de drogas que seja realmente são. Não existe um usuário coerente de drogas. Elas são maravilhosas, mas com relação a elas, o assunto é puramente simples: Ou você as usa ou não. Ou você consegue realmente lidar com a vida sem elas ou nem tente, e acredite, quando você para, é porque você nem começou. O que existe é uma eterna condição de determinados dias que o verdadeiro usuário tem que passar sem elas, se realmente parou, e se o fez é porque nem começou. Tenho pontos extremos que convergem em lados diferentes correlação as drogas, uma é um ponto que realmente é polêmico: Acredito que ninguém que realmente tenha começado com elas, consegue realmente larga-las; pra mim se largou é porque nem tinha começado realmente dentro de seus limites, e a outra é simples: Não existe nada que seja totalmente viciante a alguém o que existem é uma cultura equivocada sobre as drogas, criando assim os verdadeiros paraísos artificiais. Darwinismo isso diria – Discursava isso tranquilamente em biroscas. Chamava a todos e a mim mesmo de fraco correlação a tudo na vida. Não e Sim. Não aceitava que todos somos: Fortes, fracos, indefesos... Todos são um leque de si mesmos. Eu sou uma miríade de coisas infinitas que posso fazer a esse instante e segundo, mas só agora eu me adapto a isso e aceito que posso realmente fazer o que quiser a qualquer momento, mas sempre, sempre eu teria que tomar as escolhas mais certas, aprendi que na rua essas oportunidades sempre rondam a qualquer um. Na rua, diariamente, por tomar escolhas corretas, você escapa de mortes, doenças, viroses e acidentes, e graças as minhas escolhas, eu estou aqui. E também muitas das minhas dores e pesares são graças as minhas erradas escolhas.
Por tanto, hoje pra mim, ser forte ou ser fraco, depende de pontos de vista quando se aprende que tudo na vida é um grande referencial. Acho que ser forte pra mim hoje é conhecer os “meus” referenciais, meus defeitos e qualidades, meus verdadeiros ícones, meus verdadeiros limites e luta-los por eles a cada instante e fiapo de dia que possa se seguir a um porre, uma trip, ou uma viagem de qualquer coisa, pra algum lugar qualquer. Um mendigo pode ser o ser humano mais fantástico pra mim e um burguês o mais medíocre (deixei os referenciais de posse de lado, por exemplo). E não acredito que obrigatoriamente, temos que passar por tudo para saber discernir o que foi de bom ou ruim. O raciocínio lógico pode se encarregar disso, mas quando é que existe algum ponto de lógica, se realmente ninguém se conhece? O homem é um ponto de observação apenas de si mesmo, isto é, de sua condição genuinamente humana, mas se não a reconhecermos? A única condição genuinamente humana que existe e que faz lógica pra mim é que vivemos em silenciosas, e não compartilháveis revoluções. Aceitar as mudanças é começar a ver a vida com um raciocínio lógico. Aceitar as mudanças é ter noção das escolhas diárias e instantâneas no segundo em que elas acontecem, percebendo assim, realmente o que é bom e mau.
Estamos em constante mudança. Não somos puramente matéria. A idéia é uma mudança e um ponto de convergência, a cada idéia que temos ocorre uma mudança, e a cada mudança mudamos nossos pontos de vista – logo referenciais – E se mudamos um referencial, mudamos tudo! Logo a definição é ser indefinido. Por natureza, todos os homens são escalas de valores indefinidos: “Estranhos que se agrupam aos seus comuns.” Minhas piores crises existenciais eram quando eu tentava me agrupar a alguma ordem, experiência ou coisa que já tivesse existido – Como se buscasse alguma lógica justificativa para minhas idéias, meu jeito de ser, pensar ou agir. Aceitar a vida, portanto é se aceitar e aceitar as suas mudanças.
Decisões, indecisões, opiniões, ingressos, regressos... São mudanças que tomamos em milésimos de segundos e mesmo que hajam a rotações invisíveis de serem notadas e de não se registrarem grandes angulações de qualquer aspecto de alteração de compasso, elas existem. Já que o direito de escolha sempre nos foi dado, concluo que não existem grandes mudanças, existem as pequenas com as suas grandes repercussões. Descobri que a razão era um caminho certo que morava entre o sim e o não e nunca fazia lógica aos seus dois vizinhos. E era sempre o meio termo a se tomar.
“Sendo assim, nada dura pra sempre, as coisas sempre estão mudando realmente” – Como um suspiro aliviado me sugere paz esse pensamento que parece ser tão óbvio. Paz e conforto. Certeza de que a dificuldade que eu tive foi de me adaptar as mudanças ou de rejeitá-las e apenas continuar seguindo um outro fluxo, que seria agora ditado, e sempre por mim. “Sou eu o senhor das minhas escolhas, e sei que são as raízes dos meus atos, não posso, portanto ir de contra a mim em nenhuma delas”. E como as coisas que são óbvias outrora para nós, hoje são tão profundas? Acho que isso explica um pouco do que possa ser maturidade, talvez.
A dor do tombo me impedia essas conjecturas que mais tarde, mas muito bem mais tarde, tomei, mas a queda da escadaria, naquele instante, me lembrou de que tenho um corpo e uma missão instantânea naquela hora, ligar para Viviane para conversar com ela. Uma máquina voltou a funcionar, com ela voltou a noção de tempo e espaço. Sabia que tinha caído de uma escadaria e que eram duas e meia da manhã. Não vagava mais por horas em minha mente – Mesmo que o tempo real tenha levado cinco minutos - levantei reto do tombo sendo escorado por dois motoristas de ônibus que estavam no inicio da escadaria. A vergonha embaçou os meus olhos. Minha cabeça e costas doíam. Tudo doía. Era uma dor moída. Dor de perder a razão, o amor e a decência, era desequilibro sombra, ilusão e medo enquanto eu ouvia, bem lá atrás da rua ou no fundo de mim, risos e zombarias, enquanto os dois rapazes engoliam os seus risos e me ajudavam.

- Ta bem?
- To (enxugo a água que quase cai dos meus olhos)
- Vê se você não machucou a cabeça
(Passo rapidamente a mão na minha cabeça e tento me levantar. Levanto seguindo em frente sem agradecer indo para a escadaria).
- Rapaz, tem certeza de que você está bem?
- Tenho. Tudo bem. Obrigado.

Não. Não estava nada bem ali. Meu hálito era álcool, meu coração era dor. Tinha deixado escapar por entre os dedos o que eu considerava eterno. Achava que tudo estava acabado e que nada aconteceria de bom para mim.
Um chuveiro. Era o que contemplava após me recobrar do tombo e tomar de volta a minha cruz escada. O céu do rio tinha se transformado em uma camada pesada de um azulado muito escuro, contrastando até mesmo com a noite, exibindo brilho em formas de raios e lágrimas em forma de chuva. Calçadas, bancos, lojas e até mesmo os elevados transbordavam com uma água marrom e pegajosa, que levava consigo lixo de rua, parecendo lavar o Rio de uma sujeira secular. Raios cortavam a baia e fazia piscar a barca, que tentava vencer o tempo e chegar a Niterói em uma falsa noção de segurança. O Rio era um rio ardiloso e muito perigoso naquele momento.
Queira correr para me guardar da chuva, mas o tombo não deixava e não me dava escolha a não ser ficar a mercê do tempo pelas escadarias do mergulhão da praça quinze. Tentava vencer as escadas me apegando a força como se uma forte rajada de vento viesse em minha direção. O vento tentava me tomar à força do corrimão e me derrubar de novo. Não sabia se realmente era a minha perna esquerda ou o efeito do álcool que me fazia pender pra trás como uma força não aplicável aqui a condições normais. Era como se alguém da sarjeta me chamasse para ficar ali, fazer parte de um conjunto com a cidade e realmente desistisse de tudo. Mas nada me deteu pelo impulso de saber a verdade que já sabia, aliás, sempre soube lá no fundo que tudo havia acabado. “Eu sei, mas quero ouvir” Pensei recordando dos seus olhos junto aos meus pedindo um eu te amo sussurrado no ouvido. Assim ia, vencendo com espaçados segundos eternos ordenando cada impulso de cada tendão da perna e braço, de cabeça baixa, com meu casaco encharcado, meus cabelos longos tentando ostentar a égide santa de uma entidade indiana, como se um grande sacrifício a se vencer até a reluzente estação das barcas, um pano de fundo para o cenário de caos que estava o Rio.
Parecia que a cidade tinha medo dos céus. E dos céus vinha uma chuva que parecia mandada como um castigo a cidade por conta de um enorme pecado praticado e me penava assim com o tempo, por ter descuidado daquele namoro bordado, que eu tinha um enorme prazer em tecer durante os anos que se perdurou.
Mas ao final daquele prodigioso obstáculo, que era voltar para casa, eu ainda tinha esperanças de que no meu celular aparecesse algum sinal de vida de Viviane, e por um milagre nele registravam quatro ligações não atendidas de Viviane.
Quando nós falamos de nós mesmos, ou até mesmo quando pensamos em um mundo que corresponde apenas ao seu eu, tempo e espaço se desfocam. E com se realmente, por poucos segundos alguém pudesse observar uma casca vazia recém abandonada por uma borboleta. Por fora, eu era sempre vazio e insignificante enquanto eu sempre interiorizava mais uma borboleta que estava querendo surgir da dor da perda. A dor da transformação. E os fatos, que realmente marcam as nossas vidas é que fazem parte de nossas vidas. Parece uma redundância óbvia, mas passamos a caminhar conforme as nossas cicatrizes assim vão ditando, e o conjunto tempo, rio, sentimento e solidão é o que fez tudo isso marcar como que uma pedra ferindo a minha memória. Será que foi apenas um simples término de relacionamento. Depois que a poeira baixou eu vi que não.
A partir daquele ponto eu começava a tomar as rédeas da minha vida. A partir daquele momento, eu vivenciava sentimento e situações na qual ninguém antes poderia se antecipar ou sofre-las por mim. Minha mãe, até certa idade minha, conseguia me resguardar de passar alguns de vários inconvenientes que poderiam me prejudicar, e esse era o único, e é alguns dos únicos que ninguém pode tomar pra si... Eu tinha que realmente perder algum dia, mas eu realmente perdi tarde. Jogos eram apenas jogos e não mais simulavam nada em minha vida. Amores não. Amores são palpáveis e nem um pouco estagnados, perder um grande amor é perder uma grande parte de si que é dada espontaneamente, dada a necessidade do próximo e não a sua... Ninguém se nega a se doar quando ama. Minha mãe nada podia fazer, e por passar por essa incapacidade de não sofrer, eu decidi que era hora suficiente de tomar definitivamente as rédeas da minha vida.

Um comentário:

Anônimo disse...

Olá! Obrigada pela visita, e tambem pelos elogios apesar de achar meu blog meio fraquinho..rss..
bom que mesmo assim existem pessoas que se interessam pelo que passa no meu fantastico imaginario!
abraços