Bom, os dois contos abaixo fazem parte de um plano de um livro chamado "A confraria dos machos" - Livro que lida questões de amor, sexualidade e gênoros dentro da minha trilogia de livros de contas que vão falar sobre três coisas que movem o mundo comtemporãneo e que no cerne se interligam intresecamente: Sexo - Amor, Sexualidade e Gêneros ; Dinheiro - Status, Capital e Cobiça e Religião - O Incompreensível, O compreensível e o Inexplicável.
Mas ambos todos os outros temas estarão interligados entre todos os livros, mas o foco e tema principal sempre deverá ser seguido na ordem de ótica textual, por assim dizer. rs
A confraria dos Machos - Sexo
O Sindicato dos Fracassados - Dinheiro
Thermas Dharma - Religião
Vou colocar sempre dois de cada livro e o resto deixarei em suspense...
Bom, posto abaixo, dois do livro "A confraria dos machos", que são: "Meios no meio do Caminho" e "Pênis", já que o tão famoso falo, já foi inpirado por várias religiões...
domingo, 19 de agosto de 2007
Meios no meio do Caminho
- Criss?
- Fala amor
- Não abusa...
- Fala
- É hoje...
- Eu sei boa sorte... Ligou pra que eu vá te esperar na porta de novo?
- É... Não to agüentando...
- Calma, vai dar tudo certo. Confio em você...
Na chuva, porém dentro de um carro, espero atrás de uma cortina de fumaça, de um letreiro, de um gato esperto e também de uma timidez enorme. Aliás, eu sou fumaça, o letreiro, o gato esperto e também a timidez enorme. Sem esquecer de taxista. Espero no meu táxi atrás de um banco no mesmo ponto do ginásio que sempre marca comigo. Será que me bateria por eu ter definido um artigo? Acho que sim. Diria que sou sexista... Afirmaria todas as coisas que dissesse, acho que menos sexista... Qualquer pessoa não olharia com ternura e com doçura a sua verdadeira e forte natureza. Era sempre vista – a sua natureza - com outros olhos. Com olhos estranhos, confusos e aturdidos... Mas ainda sim, não me cabe dentro de qualquer definição... Era o nome do letreiro, Era estrela, constelação desafiante e regra a ser quebrada em um ginásio fudido castigado por uma chuva incoerente. Desafiou toda uma norma e regra essa noite. Mexeu na toca de velhos leões com os seus enormes culhões. Os mesmos que sempre ditaram que era norma ter culhões e estava se saindo bem – como me diria mais tarde - com a sua ousadia e virilidade... O cartaz com o seu nome anunciava o seu desafio. Embora algum idiota tenha rasgado um pedaço do cartaz e apenas dava para ver o nome do adversário: Mauro Vitorino, um ótimo e rápido e rápido pugilista. Tinha a máquina de marketing a seu favor e um pelo upper de direita que já derrubou muitos e muitos desafiantes, acho que, menos o desta noite.
“O embate do século” – Estigmatizava a chamada.
Tínhamos gostos em comum. Gostávamos de esquinas e mistérios, indefinições, solidão, retidão e de drogas e perversões também. Muito fui beber depois de sua labuta em biroscas cheias de perigo... Mas por incrível que pareça quem se sentia bem no final da história era eu, como uma criança dormindo em segurança no berço, embora olhares brutos e cheios de malícia entrecruzassem os nossos caminhos no meio da noite. Me seduzia sempre o seu perfume bem característico a de tigres ou de animais selvagens que sempre emanava, quando era silêncio, mãos cansadas, recolhimento, pálpebras em sangue pisado e dentes moles. Mas ainda sim espero terminar o seu trabalho e como sempre vou até onde me deixa ir. Se me chamasse para o inferno, iria, mas seria melhor se tivesse ousadia e chamasse para ir a um motel qualquer, mas acho que nunca teria essa coragem e sempre fazia isso pra me deixar com um gosto de ir além... É esse além que eu sempre espero toda vez que fico na porta do ginásio, dentro do meu táxi, esperando, até que sai como uma entidade, correndo abruptamente batendo forte a porta do carro. A entidade acabava de entrar no carro e acompanhava a sua entrada apenas pelo retrovisor. Era diferente das outras vezes. A entrada era cabisbaixa, introspectiva e fedia sangue e suor... Vestia um roupão aberto longo, preto e sagurava um rolo de papel nas mãos e uma tesoura na outra – Afinal de contas, pra quê aquela tesoura?
- Toca Criss
- Pra onde?
- Não sei toca, toca caralho, anda logo com essa merda...
Estava com um olho completamente deformado e com o roupão aberto me deixando a delirar com a sua quase nudez descarada. Não me atenho a isso, pois sei que posso ser sofrer com essa desmascaração. Atento agora os meus olhos ao volante enquanto eu vou deslizando suavemente o carro no asfalto. Tento acalmar a fera com Jimi Hendrix e incenso de absinto – também adorava rock e aquele aroma de incenso.
- Acabaram com o seu olho hein?
- É... O velho Mauro teve a sua chance... Mas eu vi o medo nos olhos dele, ele viu que eu estou crescendo e criando asas...
- E ai, como é que foi?
Me olha com uma cara de desdém.
- Você nunca ouviu falar de rádio ou de televisão?
- Claro, mas você sabe, não consigo acompanhar as suas lutas...
- Já sei... O coração né?
- É. Ainda bem que sabe...
- Bom Criss – Acende um cigarro com uma boca torta cheia de sangue e feridas – Eu perdi no terceiro assalto... Perdi não. Aliás, me roubaram! Tomei um gancho que me acertou o supercílio, não foi um daqueles de ver espaço, deuses e galáxias, mas por causa da antiga culpa...
- Já sei em quem você vai botar a culpa da culpa...
- Se você está colocando palavras na minha boca, então eu acho melhor você falar...
- Desculpe, eu não queria te interromper...
- Bom, não era um soco que ia me colocar a perder aquilo tudo... Ainda não tinha beijado a lona e o infeliz disse a mesa que eu não tinha condições de continuar a luta...
- Que infeliz? O Mauro?
- Não ele não. Esse quase caiu como uma jaca por duas vezes... É o infeliz do juiz Criss que estou falando. O meu treinador nem ousaria a fazer uma coisa dessas. Se ele jogasse a toalha pra mim ele sabe que sairia de lá morto se o fizesse...
- Deve ser por causa desse sangue que está escorrendo do seu supercílio... Acho melhor te levar em um hospital...
- Apenas ande com o carro, por favor, Criss...
Vejo poças de água em seus olhos, que ainda não eram lágrimas, e de repente como um grito no escuro se sobressaem suas feições frágeis que não mostra facilmente durante toda a dinâmica da noite que era tentar desvendar as suas características. Era diferente das vezes que entrava no carro rindo ou gargalhando. Não tinha o semblante da vitória, não tinha o cinto dos que ganham... Tinha uma péssima mania de não ouvir ou não ficar para nenhum tipo de festa depois de lutar... Não saia nem mesmo pela porta da frente, saia pelos fundos em uma sombra incógnita, mas agora estava diferente... Tremia muito as mãos, segurava o choro que parecia querer sair como uma cachoeira. Tentava com a boca arrancar a fita das luvas e tampar os soluços, mas arranhava e cortava cada vez mais as gengivas, que manchavam muito as luvas de sangue.
- Porque você não usa a tesoura?
- Porque eu estou com raiva de mim e eu pensei que a sua função aqui nessa história era dirigir e me levar pra casa, e não ficar tomando conta do que eu faço...
- É essa a minha função? Mas nunca recebo pela lavagem do estofado ou pelo serviço que é te acompanhar...
- Eu sempre pago a conta do bar, então tudo fica por conta.
- Mas você sabe quanto custa a lavagem de um estofa...
- Cale a boca e dirija...
Sabia que me dominava e que poderia falar o que quisesse que eu simplesmente não me importava. Me importava com o que estava sentindo agora depois de uma derrota e depois de - muitos anos, diga-se de passagem – ir à lona por causa de um orgulho idiota e de um ato corrupto de um juiz que nunca tinha lutado.
O banco de trás do meu carro assumia um aspecto carmesim que nuca havia estado cor que nunca aparecia de todas as vezes que sentava no banco de trás, aliás, sendo a primeira com uma derrota... Um telefonema para o seu celular no bolso do seu roupão interrompe a mutilação de sua gengiva...
- “Alô? Oi amor, estou bem” – Era a filha no telefone.
- “Tô bem.. To indo pra casa, desculpa não trazer a vitória e o cinto pra você meu amor, mas da próxima vez, eu trago” – Passava a não conter a cachoeira que desaguava agora de seus olhos no celular depois que ouve a voz da filha...
Apenas miava no telefone. Um miado sentido como o de uma fera felina e era completamente compreensível acontecer naquele momento, mesmo gostando sempre de posar de forte. Escutava as instruções de uma criança de dez anos como se fosse a do seu técnico e apenas dizia que sim, Talvez tentasse tranqüilizar, mas acho que até mesmo uma garotinha de dez anos sabia que nessa hora, não era hora que “seria como uma rocha”. Era a hora de apenas ajudar, não importa o quanto, uma pessoa que carregava o titulo de uma vida inteira apenas lhe dizendo o que deve ou não fazer, mas que agora precisava ouvir instruções. Sua beleza passava o mal que era o seu choro o seu pranto. Era como uma escultura de mármore, que por ângulos e projeções frágeis que mostrava ainda sim era mármore. Era sempre e sempre será para mim como um mármore.
Ouvia com carinho e cautela e como que um balsamo, aquelas palavras iam fazendo diferença e aliviando com o tempo, até que se recobra da vida e volta a falar...
- “Está tudo bem meu amor... Deixa eu desligar... Eu tenho que tirar as luvas...”.
- “Um Beijo... Eu também te amo”.
Desliga a doçura, o carinho e também o telefone.
- Ele não devia ter parado a luta Criss. Eu ainda estava bem cara... Eu podia fazer aquilo, mas o merda encerrou a luta...
- Ele quem?
- Quem mais poderia ser o juiz é claro.
- Haverão próximas oportunidades...
- Merda, que oportunidade?! Eu acabei com toda uma reputação em uma noite! Tinha e tenho certeza que posso colocar aquele merda pra beijar a lona... Ele é um idiota perfeito, ele não tem nenhuma condição de continuar mais do que quatro rounds comigo...
- Mas ele apanhou muito?
- Ele beijou o chão duas vezes... Levei o maldito pro chão duas vezes sem que ele se desse conta até mesmo do seu caminho de casa... Era um merda e eu estava por cima no ring... Ele nem sabia cruzar os braços pra me dar um Jab... – Leva a mão a cabeça mexendo nos cabelos como quem se gaba.
- Uau! Sério?
- Uhum... – Traga fundo o cigarro com um chiado, meio que um assovio de sangue no final da tragada.
- E ainda abriram contagem pra ele...
- Nossa. Todo mundo devia estar aos seus pés naquele momento.
- É... Via o mundo embaixo dos meus cadarços...
- E quem os tirou?
- Quem? Ora Cris, o juiz maldito Cris...
- Como ele saiu do ring? O Mauro Vitorino?
- Escorado... O Senhor Vitorino teve que ir pra casa com alguém o escorando. – Dá um leve sorriso meia boca com o cigarro entre os lábios. Tiveram que levantar os braços dele para poder colocar o meu cinturão na pança dele...
- Nossa, então você com certeza, esteve melhor do que ele...
- Claro, ele foi vaiado quando eu sai do ring... Não acharam justa a decisão do juiz... O cara me deu um soco e eu apenas escorreguei ao tentar me esquivar no ring... Escorreguei no sangue dele... O juiz achou que fui a nocaute e abriu contagem comigo de pé, apenas por causa de um escorregão. O cara apanhou praticamente a noite inteira e eu perdi por causa de um soco que ele me deu...
- É, mas não importa. Você perdeu...
A cabeça pendeu pra baixo em um tom completo de desânimo... Mas não chorou. Conteve com os olhos e fez cara de raiva e decepção. Era assim que perdia, não importava o que acontecia...
- Ah... Foda-se Criss. Afinal de contas, o que você entende de boxe?
- Graças a Deus nada...
- Deus... Se Deus fosse justo...
(Criss freia o carro no solavanco)
- Nossa, olha só o que vemos aqui agora... Se Deus fosse justo... Acredite, ele é justo sim... Mas acho que algumas coisas que você vem tentando me fazer entender goela abaixo é que eu não entendo...
“Não se pode ir de encontra uma montanha em sua estatura. Não se vence uma montanha e sim a si mesmo. Existem forças na qual nós nunca poderemos lutar enquanto nós não compreendermos quem somos e da forma a qual a gente pode agir pra poder mudar. Uma montanha não pode ser mudada ou vencida e sim a mente de quem a escala.
Você tem certeza de que é Mauro Vitorino que está desafiando, a você mesma ou é alguma coisa na SUA natureza, hein dona Jasmin Du Crave? Como pode vencer não conhecendo até onde se pode chegar pra ir até a vitória?”
Ela me olha com muita raiva. Queria me socar a distância dentro daquele carro como se eu fosse um rato ou alguma coisa nojenta a sua frente. Eu a lembrei de sua natureza, que era completamente contrária a sua mente. Ela não queria ser Jasmin Du Crave dentro do Ring. Queria ser Mauro Vitorino, O espermatozóide vencedor da noite. Aquele que poderia ser livre e comer quantas putas quisesse. O cara que podia amar e vulgarizar a quem quisesse. O cara que com certeza não poderia ser espancado pelo pai, o cara que não poderia ouvir a própria mãe ser estuprada pelo pai ou pela sociedade por causa de uma luta ou por causa de um filho de um relacionamento extraconjugal. Ele poderia ser o vencedor, mas por mais que ela o levasse a nocaute e o fizesse enfiar no seu próprio rabo todas aquelas desavenças que ele falou:
– Mulher não sabe e não foi feita pra bater. Desde que o mundo é mundo mulher nasceu é pra apanhar – esbravejava - Mulher só serve pra bater roupa em tanque. Se algum dia eu beijar a lona por causa de uma mulher, eu dou a bunda pro primeiro idiota que eu ver... – disse Mauro sem nenhum tipo de pudor na frente dos microfones.
- “Prepara a vaselina então seu merda – Esbravejou voando no seu pescoço em meio a uma coletiva de imprensa – Você vai dar o cu pra mim no Ring”
Daí veio a turma do separa. Mais palavrões e gestos indecentes. Grupos ativistas a favor dos direitos de alguém gritando, usando palavras de ordem... A partir daí era o caos e simplesmente – por causa do coração - Saí e a esperei lá fora dentro do táxi como sempre faço.
Era como o sabor de uma ultima bala. Era lindo ver Jasmin levantando contra o inexorável e o impossível. É uma força da natureza lutando contra coisas “que pareciam impossíveis” Ela é maior que toda qualquer mulher quando age assim, mas deixa de ser uma quando acha que o sinônimo para o tanto é: “ser como”. Pensando assim era ser como o Homem-Aranha contra o Homem-Inseticida. Mas nada era impossível para ela. Tinha quase certeza que ganharia, mas acho que a sua derrota era iminente. Talvez fosse assim que encarasse tudo aquilo, talvez achasse que não tinha nenhuma chance, mas eu creio que não. Ela não o desafiara porque queria quebrá-lo, e sim, um tabu, uma coisa que gritava por atenção desde que se entendia por gente. Mas se realmente quisesse derrotá-lo não agiria da forma que agiu, creio. Quando se quer ganhar de uma adversidade, não devemos nos tornar como ela, e sim um ponto de desequilíbrio dentro de sua característica.
Jasmin não perdeu por ser mulher e Mauro o macho alfa. Jasmin perdeu porque lutava contra a sua própria natureza desde o inicio. Ela não respeitou o seu corpo e as condições de que os outros também o viam. Ela tinha que ter sido realmente impecável. Não poderia deixar entrar nenhum gancho, mas se fosse esguia e rápida como uma gata, sorrateira e perspicaz, aí sim, talvez tivesse ganhado... Deveria cuidado com o ring, suado e cheio de sangue pra não cair e dar chance ao juiz de acusa - lá de alguma falha, porque esqueceu que não lutava só com Mauro, lutava contra uma vida inteira de pessoas dizendo que não ia conseguir, lutava contra um povo que vivia morrendo e nascia morrendo... Ela teria que ter sido impecável em qualquer aspecto de sua apresentação, mas não foi.
Ela sempre quis negar o óbvio à dor nula de não se entender e tentar se domesticar com a vida que sempre a proporiam as coisas fúteis que não gostava e nunca gostou. Não queria terminar lavando roupas de dondocas como fazia a sua mãe do inicio ao resto de sua vida – pois isso pra ela, ser uma estatística, é o cúmulo da futilidade. Amava quem queria, e tinha apreço até mesmo por uma pessoa perversa, mas nunca deixava turvar suas idéias, seja por homens, filhos, circunstâncias da vida. Não era o boxe a sua principal profissão. Como uma guerreira nata, conciliava como professora de educação física e uns bicos como personal trainer de uma elite que gostava de viver separada sem contatos com ninguém. Jasmim era um sono leve em um dia tranqüilo com trovões sem som. Era uma mentira fabricada para o mundo não bater, mas quem a vise veria que era impossível esconder a sinceridade dos seus olhos um segundo sequer, e quem dirá, esquece-los sem ser tomado pela força da sua presença. Sua sombra me aturdia e só de saber que estava a conduzindo de um lugar a outro, era como se eu andasse com deuses dentro de mim. Mulher? A maior de todas. Mulher que é como uma estrela, potente em seu brilho, altiva e complexa em seus elementos e acima de tudo, melancólica e solitária, que só se fazia valer quando era uma bandeira vermelha em ressaca, porque sabia que quando o mar estava mais revolto, era esse o momento em que ele se sentia mais solitário. Já tinha amado homens, mulheres, objetos, desejos, mitos e heróis... Mas sempre por querer mostrar de alguma forma, que não me atreveria a dizer que era ela e sim a força de suas convicções, era quando ela mais se distanciava dela. Era ai que ela era realmente uma coisa que todos esperavam – menos a garotinha pedindo colo e carinho sempre, que no fundo é isso que era. Mas nunca me disse uma palavra sequer de sua vida. A conhecia pelo tato de querer conhecê-la, mesmo sem me dizer uma palavra dos lapsos que a fizeram ser Jasmin.
Jasmin deveria e deve ser desde o inicio essa força que nunca compreendeu que é: Ela sabe te amar e te matar com um mesmo vocábulo, língua, palavra e até mesmo andar. Há muito tempo negara a sensualidade e leveza que a fazia uma bailarina no ringue. Esqueceu que a sua força era e é o equilíbrio, aliás, o equilíbrio traz e faz brotar a raiz da força em tudo. O que foge do prumo e se desfaz a sua essência é a derrota. A derrota não tem raiz, identidade, vontade, personificação... A vontade não tem nada disso... Jasmin era uma vontade de ser, mas não era. Sempre ficou como uma aspiração a devir. Jasmin era uma perfeita mistura, mas não queria sê-la ou até mesmo se misturar. Por forçar a sua natureza ou por não saber realmente sê-la? Era um mistério doce que muitos tentavam desvendar e saber... Mas todos pararam no meio do caminho. Metades que pararam em silêncio e simplesmente foi um meio para parar no meio, mas meio eu, meio ela... Achei um meio e consegui segui-la meio termo, mais ainda sim, a seguindo.
O cigarro agora queimava por entre os seus dedos por entre minutos escoados em fumaça e nulidade. Quer me dizer alguma coisa, mas apenas morde os lábios inferiores com força que do espelho vejo uma pequena linha roxa. Dos olhos e da face não se pendiam mais as preciosas gotas que a declarava e a afirmavam sempre como uma linda mulher que era, porque como o híbrido que era, as segurava em nome, talvez, de sua reputação ou convicção.
- Não vai me dizer nada – Cutuquei.
- Você merece nada... Você não é nada... O que sabe é ficar rodando em círculos com essa merda de carro pra lá e pra cá... Não sabe o que é lutar pelos seus ideais, se conformou com essa vida medíocre e nada...
- O que você sabe sobre mim? O que você sabe sobre o que eu sei de você?
- Nada... Você não sabe nada de mim Criss. É uma pessoa que sempre chamo quando tudo dá errado e...
- E?
- Nada caralho, nada... Nada merda...
- Sabe por que o carro está parado?
- Ahn?
- Porque chegamos há algum tempo na porta da sua casa... E sabe porque a porta de trás está trancada?
- Ahn? Vai querer me tomar a força? Vamos... Nem cerro os punhos pra você. Te espero – me disse com cara de deboche ascendendo um outro cigarro...
- Você sabia que eu não fumo?
- Uhn-Uhn...
- Isso quer dizer...
- Isso quer dizer não – Fixa os seus olhos nos meus como uma fera.
- Sabe por que você não sabe? Porque eu sempre te servi, eu sempre fui um pouso para que você se deslanchasse como o tudo que eu sempre esperei. Esperei um abraço teu nos nossos dias juntos de porre... Esperei um feliz natal enquanto a minha casa comia a ceia e eu me embriagava pensando se vocês estavam bem, sozinha com a sua filha... Talvez em algum canto de um quarto chorando porque o pai dela não ligou e você estava sozinha sem ter nem um pote de açúcar na geladeira...
- Quando eu lhe dei essa liberdade pra falar assim da minha vida?
- A sua força me deu... Eu a tomei...
- Tomou? Você sabe que ninguém tomou nada de mim... Ninguém nunca tomou nada de mim, eu nunca deixei que isso acontecesse, nunca deixei que ninguém viesse e me tirasse um grão de nada...
- Mentira, várias pessoas tomaram coisas de você... Várias... Eu sei...
- Eu nunca lhe contei nada sobre a minha vida... Nada... Agora você me vem com esse papo que me conhece por que...
- Porque talvez lá no fundo...
- Lá no fundo o que?
- Lá no fundo o que?
- Lá no fundo... Eu seja você também...
Vejo brotar um deboche bombástico do seu rosto como uma ameaça de morte em sua face... Ele veio com uma leve elevação dos lábios superiores.
- Você nunca vai ser como eu Criss, ninguém é igual a ninguém...
- Vai tomar no cu Criss... Abre essa merda agora...
Segundos me separavam do abismo e da loucura que iria fazer. Ela poderia dizer tudo bem, virar as costas e nunca mais a veria – ou no dia seguinte ela me chamasse pra tomar um café pingado em uma birosca. Ela poderia quebrar o vidro do meu carro. Ela poderia me quebrar ou me arrebentar mesmo com as mãos sangrando me estocando a tesoura com força, mas saberia que não faria isso. Sabia que isso ia se passar em sua cabeça, mas ela não faria isso porque ela era boa. Mas respeitava a sua variante de possibilidades. Respeitava que um dia ela poderia acordar e daí nunca eu mais a veria de novo por tentar fazer o que eu ia fazer. Mas me arrisquei fazendo isso:
- Não! Fica ai merda, agora você vai me ouvir...
Para o meu espanto. Ela desiste e me olha com uma cara de surpresa.
“Você é um dia de chuva, um peito apertado e espremido de saudade pra mim. É um fogo que eu tento apagar mais não consigo do meu peito... Estendi-lhe tapetes. Tentei me cortar em minha mente por correr e não te achar. Me anulei em tentar me engraçar pra você porque sabia que não daria certo nada que eu fizesse tentando fazer alguma coisa, em uma atitude tola, te tendo em uma gaiola de ouro, mas em nome de alguns anos levando e trazendo você para vir pra cá e mostrar ao mundo. O mundo que eu vejo quando brota nos meus olhos a graça que sai de você, soa como escondida de um deus. Deus que não é homem nem mulher é uma força que me força a ser quem eu quero assim como você”.
Seriam lindas se realmente saíssem da minha boca, mas como que em um passe de mágica, o vento sobrou, uma nuvem bateu calma e refletida em minha timidez e apenas ela me olhou e eu a olhei, profundamente, como uma criança observando uma piscina... Como uma criança cheia de desejo para nadar dentro de você Jasmin, mas tenho um enorme medo de me afogar porque sua maré muda até com dias calmos. Jasmin era assim... Reparei em todos os cortes do seu rosto enquanto nos olhávamos... Era mágico ver isso na sua face como que um mistério me esperando... Ela me deixou olha-la... Ela me dizia com os olhos: “Vamos me olhe, eu sei o que você vai me dizer, eu sei o que você realmente sente e sei que você pensa que eu posso bancar a mulherzinha sempre e ir chorando sem motivo. Vamos me olhe, mas nunca vai me ter”... Ah, Jasmin... Como eu queria que sempre fosse assim, queria você só pra mim. Em um bolso guardado sem sair do seu Estado, como em um skate park particular feito pra você andar em círculos dentro do meu peito, como meu sangue. Mas senti derrota, falta e sempre me perco quando eu estou longe de você. Se você ficasse, ai parada, pelo menos por mais uns quinze minutos, talvez, eu te diria, eu te amo. Um eu te amo tão forte que faria parar todos os gongos, ringues e lutas para que você possa me ver através dele. Mas se passaram mais de quinze minutos e eu perdi a minha oportunidade... Ela simplesmente abriu a porta do carro e se foi... Não foi tanto assim, ela ainda me pagou, pelo vidro da frente e pegou um cartão meu – Pra quê? Não sei se foi e não sei.
“Pra você não se esquecer de mim. Eu ainda não desisti do Boxe.
A revanche será semana que vem.
P.S: Acho que agora estou pronta para escalar montanhas...
“Beijos nos olhos”.
Jasmin Du Crave
Correio. Veio um enorme e volumoso chumaço de cabelos com esse bilhete que recebi semanas depois dela sair como um mistério de dentro do meu táxi. “Agora entendi pra quê da tesoura”. Pensei
- Criss?
- Fala amor, que saudades... Quero ver como ficou seu cabelo!
- Não abusa...
- Fala Meu Cravo...
- É hoje...
- Eu sei boa sorte... Ligou pra que eu vá te esperar na porta de novo?
- É... Não to agüentando...
- Calma, vai dar tudo certo. Confio em você...
E tudo deu certo. Não como queria, mas tudo deu certo.
Desta vez, entra desejo. Um perfeito andrógeno me esperando sair, com cabelos curtos, sorriso nos lábios vermelhos de batom, um bom tempo no céu e uma feminina voz me estendendo a boca, me tocando os ouvidos e com ela dizendo-me baixinho e safada como uma gatinha no cio:
- Vamos Amor. É por minha conta...
- Pra onde vamos?
- Pro Inferno... Vamos pro inferno meu bem...
Rodrigo Serra
Terça-feira, 31 de julho de 2007.
- Criss?
- Fala amor
- Não abusa...
- Fala
- É hoje...
- Eu sei boa sorte... Ligou pra que eu vá te esperar na porta de novo?
- É... Não to agüentando...
- Calma, vai dar tudo certo. Confio em você...
Na chuva, porém dentro de um carro, espero atrás de uma cortina de fumaça, de um letreiro, de um gato esperto e também de uma timidez enorme. Aliás, eu sou fumaça, o letreiro, o gato esperto e também a timidez enorme. Sem esquecer de taxista. Espero no meu táxi atrás de um banco no mesmo ponto do ginásio que sempre marca comigo. Será que me bateria por eu ter definido um artigo? Acho que sim. Diria que sou sexista... Afirmaria todas as coisas que dissesse, acho que menos sexista... Qualquer pessoa não olharia com ternura e com doçura a sua verdadeira e forte natureza. Era sempre vista – a sua natureza - com outros olhos. Com olhos estranhos, confusos e aturdidos... Mas ainda sim, não me cabe dentro de qualquer definição... Era o nome do letreiro, Era estrela, constelação desafiante e regra a ser quebrada em um ginásio fudido castigado por uma chuva incoerente. Desafiou toda uma norma e regra essa noite. Mexeu na toca de velhos leões com os seus enormes culhões. Os mesmos que sempre ditaram que era norma ter culhões e estava se saindo bem – como me diria mais tarde - com a sua ousadia e virilidade... O cartaz com o seu nome anunciava o seu desafio. Embora algum idiota tenha rasgado um pedaço do cartaz e apenas dava para ver o nome do adversário: Mauro Vitorino, um ótimo e rápido e rápido pugilista. Tinha a máquina de marketing a seu favor e um pelo upper de direita que já derrubou muitos e muitos desafiantes, acho que, menos o desta noite.
“O embate do século” – Estigmatizava a chamada.
Tínhamos gostos em comum. Gostávamos de esquinas e mistérios, indefinições, solidão, retidão e de drogas e perversões também. Muito fui beber depois de sua labuta em biroscas cheias de perigo... Mas por incrível que pareça quem se sentia bem no final da história era eu, como uma criança dormindo em segurança no berço, embora olhares brutos e cheios de malícia entrecruzassem os nossos caminhos no meio da noite. Me seduzia sempre o seu perfume bem característico a de tigres ou de animais selvagens que sempre emanava, quando era silêncio, mãos cansadas, recolhimento, pálpebras em sangue pisado e dentes moles. Mas ainda sim espero terminar o seu trabalho e como sempre vou até onde me deixa ir. Se me chamasse para o inferno, iria, mas seria melhor se tivesse ousadia e chamasse para ir a um motel qualquer, mas acho que nunca teria essa coragem e sempre fazia isso pra me deixar com um gosto de ir além... É esse além que eu sempre espero toda vez que fico na porta do ginásio, dentro do meu táxi, esperando, até que sai como uma entidade, correndo abruptamente batendo forte a porta do carro. A entidade acabava de entrar no carro e acompanhava a sua entrada apenas pelo retrovisor. Era diferente das outras vezes. A entrada era cabisbaixa, introspectiva e fedia sangue e suor... Vestia um roupão aberto longo, preto e sagurava um rolo de papel nas mãos e uma tesoura na outra – Afinal de contas, pra quê aquela tesoura?
- Toca Criss
- Pra onde?
- Não sei toca, toca caralho, anda logo com essa merda...
Estava com um olho completamente deformado e com o roupão aberto me deixando a delirar com a sua quase nudez descarada. Não me atenho a isso, pois sei que posso ser sofrer com essa desmascaração. Atento agora os meus olhos ao volante enquanto eu vou deslizando suavemente o carro no asfalto. Tento acalmar a fera com Jimi Hendrix e incenso de absinto – também adorava rock e aquele aroma de incenso.
- Acabaram com o seu olho hein?
- É... O velho Mauro teve a sua chance... Mas eu vi o medo nos olhos dele, ele viu que eu estou crescendo e criando asas...
- E ai, como é que foi?
Me olha com uma cara de desdém.
- Você nunca ouviu falar de rádio ou de televisão?
- Claro, mas você sabe, não consigo acompanhar as suas lutas...
- Já sei... O coração né?
- É. Ainda bem que sabe...
- Bom Criss – Acende um cigarro com uma boca torta cheia de sangue e feridas – Eu perdi no terceiro assalto... Perdi não. Aliás, me roubaram! Tomei um gancho que me acertou o supercílio, não foi um daqueles de ver espaço, deuses e galáxias, mas por causa da antiga culpa...
- Já sei em quem você vai botar a culpa da culpa...
- Se você está colocando palavras na minha boca, então eu acho melhor você falar...
- Desculpe, eu não queria te interromper...
- Bom, não era um soco que ia me colocar a perder aquilo tudo... Ainda não tinha beijado a lona e o infeliz disse a mesa que eu não tinha condições de continuar a luta...
- Que infeliz? O Mauro?
- Não ele não. Esse quase caiu como uma jaca por duas vezes... É o infeliz do juiz Criss que estou falando. O meu treinador nem ousaria a fazer uma coisa dessas. Se ele jogasse a toalha pra mim ele sabe que sairia de lá morto se o fizesse...
- Deve ser por causa desse sangue que está escorrendo do seu supercílio... Acho melhor te levar em um hospital...
- Apenas ande com o carro, por favor, Criss...
Vejo poças de água em seus olhos, que ainda não eram lágrimas, e de repente como um grito no escuro se sobressaem suas feições frágeis que não mostra facilmente durante toda a dinâmica da noite que era tentar desvendar as suas características. Era diferente das vezes que entrava no carro rindo ou gargalhando. Não tinha o semblante da vitória, não tinha o cinto dos que ganham... Tinha uma péssima mania de não ouvir ou não ficar para nenhum tipo de festa depois de lutar... Não saia nem mesmo pela porta da frente, saia pelos fundos em uma sombra incógnita, mas agora estava diferente... Tremia muito as mãos, segurava o choro que parecia querer sair como uma cachoeira. Tentava com a boca arrancar a fita das luvas e tampar os soluços, mas arranhava e cortava cada vez mais as gengivas, que manchavam muito as luvas de sangue.
- Porque você não usa a tesoura?
- Porque eu estou com raiva de mim e eu pensei que a sua função aqui nessa história era dirigir e me levar pra casa, e não ficar tomando conta do que eu faço...
- É essa a minha função? Mas nunca recebo pela lavagem do estofado ou pelo serviço que é te acompanhar...
- Eu sempre pago a conta do bar, então tudo fica por conta.
- Mas você sabe quanto custa a lavagem de um estofa...
- Cale a boca e dirija...
Sabia que me dominava e que poderia falar o que quisesse que eu simplesmente não me importava. Me importava com o que estava sentindo agora depois de uma derrota e depois de - muitos anos, diga-se de passagem – ir à lona por causa de um orgulho idiota e de um ato corrupto de um juiz que nunca tinha lutado.
O banco de trás do meu carro assumia um aspecto carmesim que nuca havia estado cor que nunca aparecia de todas as vezes que sentava no banco de trás, aliás, sendo a primeira com uma derrota... Um telefonema para o seu celular no bolso do seu roupão interrompe a mutilação de sua gengiva...
- “Alô? Oi amor, estou bem” – Era a filha no telefone.
- “Tô bem.. To indo pra casa, desculpa não trazer a vitória e o cinto pra você meu amor, mas da próxima vez, eu trago” – Passava a não conter a cachoeira que desaguava agora de seus olhos no celular depois que ouve a voz da filha...
Apenas miava no telefone. Um miado sentido como o de uma fera felina e era completamente compreensível acontecer naquele momento, mesmo gostando sempre de posar de forte. Escutava as instruções de uma criança de dez anos como se fosse a do seu técnico e apenas dizia que sim, Talvez tentasse tranqüilizar, mas acho que até mesmo uma garotinha de dez anos sabia que nessa hora, não era hora que “seria como uma rocha”. Era a hora de apenas ajudar, não importa o quanto, uma pessoa que carregava o titulo de uma vida inteira apenas lhe dizendo o que deve ou não fazer, mas que agora precisava ouvir instruções. Sua beleza passava o mal que era o seu choro o seu pranto. Era como uma escultura de mármore, que por ângulos e projeções frágeis que mostrava ainda sim era mármore. Era sempre e sempre será para mim como um mármore.
Ouvia com carinho e cautela e como que um balsamo, aquelas palavras iam fazendo diferença e aliviando com o tempo, até que se recobra da vida e volta a falar...
- “Está tudo bem meu amor... Deixa eu desligar... Eu tenho que tirar as luvas...”.
- “Um Beijo... Eu também te amo”.
Desliga a doçura, o carinho e também o telefone.
- Ele não devia ter parado a luta Criss. Eu ainda estava bem cara... Eu podia fazer aquilo, mas o merda encerrou a luta...
- Ele quem?
- Quem mais poderia ser o juiz é claro.
- Haverão próximas oportunidades...
- Merda, que oportunidade?! Eu acabei com toda uma reputação em uma noite! Tinha e tenho certeza que posso colocar aquele merda pra beijar a lona... Ele é um idiota perfeito, ele não tem nenhuma condição de continuar mais do que quatro rounds comigo...
- Mas ele apanhou muito?
- Ele beijou o chão duas vezes... Levei o maldito pro chão duas vezes sem que ele se desse conta até mesmo do seu caminho de casa... Era um merda e eu estava por cima no ring... Ele nem sabia cruzar os braços pra me dar um Jab... – Leva a mão a cabeça mexendo nos cabelos como quem se gaba.
- Uau! Sério?
- Uhum... – Traga fundo o cigarro com um chiado, meio que um assovio de sangue no final da tragada.
- E ainda abriram contagem pra ele...
- Nossa. Todo mundo devia estar aos seus pés naquele momento.
- É... Via o mundo embaixo dos meus cadarços...
- E quem os tirou?
- Quem? Ora Cris, o juiz maldito Cris...
- Como ele saiu do ring? O Mauro Vitorino?
- Escorado... O Senhor Vitorino teve que ir pra casa com alguém o escorando. – Dá um leve sorriso meia boca com o cigarro entre os lábios. Tiveram que levantar os braços dele para poder colocar o meu cinturão na pança dele...
- Nossa, então você com certeza, esteve melhor do que ele...
- Claro, ele foi vaiado quando eu sai do ring... Não acharam justa a decisão do juiz... O cara me deu um soco e eu apenas escorreguei ao tentar me esquivar no ring... Escorreguei no sangue dele... O juiz achou que fui a nocaute e abriu contagem comigo de pé, apenas por causa de um escorregão. O cara apanhou praticamente a noite inteira e eu perdi por causa de um soco que ele me deu...
- É, mas não importa. Você perdeu...
A cabeça pendeu pra baixo em um tom completo de desânimo... Mas não chorou. Conteve com os olhos e fez cara de raiva e decepção. Era assim que perdia, não importava o que acontecia...
- Ah... Foda-se Criss. Afinal de contas, o que você entende de boxe?
- Graças a Deus nada...
- Deus... Se Deus fosse justo...
(Criss freia o carro no solavanco)
- Nossa, olha só o que vemos aqui agora... Se Deus fosse justo... Acredite, ele é justo sim... Mas acho que algumas coisas que você vem tentando me fazer entender goela abaixo é que eu não entendo...
“Não se pode ir de encontra uma montanha em sua estatura. Não se vence uma montanha e sim a si mesmo. Existem forças na qual nós nunca poderemos lutar enquanto nós não compreendermos quem somos e da forma a qual a gente pode agir pra poder mudar. Uma montanha não pode ser mudada ou vencida e sim a mente de quem a escala.
Você tem certeza de que é Mauro Vitorino que está desafiando, a você mesma ou é alguma coisa na SUA natureza, hein dona Jasmin Du Crave? Como pode vencer não conhecendo até onde se pode chegar pra ir até a vitória?”
Ela me olha com muita raiva. Queria me socar a distância dentro daquele carro como se eu fosse um rato ou alguma coisa nojenta a sua frente. Eu a lembrei de sua natureza, que era completamente contrária a sua mente. Ela não queria ser Jasmin Du Crave dentro do Ring. Queria ser Mauro Vitorino, O espermatozóide vencedor da noite. Aquele que poderia ser livre e comer quantas putas quisesse. O cara que podia amar e vulgarizar a quem quisesse. O cara que com certeza não poderia ser espancado pelo pai, o cara que não poderia ouvir a própria mãe ser estuprada pelo pai ou pela sociedade por causa de uma luta ou por causa de um filho de um relacionamento extraconjugal. Ele poderia ser o vencedor, mas por mais que ela o levasse a nocaute e o fizesse enfiar no seu próprio rabo todas aquelas desavenças que ele falou:
– Mulher não sabe e não foi feita pra bater. Desde que o mundo é mundo mulher nasceu é pra apanhar – esbravejava - Mulher só serve pra bater roupa em tanque. Se algum dia eu beijar a lona por causa de uma mulher, eu dou a bunda pro primeiro idiota que eu ver... – disse Mauro sem nenhum tipo de pudor na frente dos microfones.
- “Prepara a vaselina então seu merda – Esbravejou voando no seu pescoço em meio a uma coletiva de imprensa – Você vai dar o cu pra mim no Ring”
Daí veio a turma do separa. Mais palavrões e gestos indecentes. Grupos ativistas a favor dos direitos de alguém gritando, usando palavras de ordem... A partir daí era o caos e simplesmente – por causa do coração - Saí e a esperei lá fora dentro do táxi como sempre faço.
Era como o sabor de uma ultima bala. Era lindo ver Jasmin levantando contra o inexorável e o impossível. É uma força da natureza lutando contra coisas “que pareciam impossíveis” Ela é maior que toda qualquer mulher quando age assim, mas deixa de ser uma quando acha que o sinônimo para o tanto é: “ser como”. Pensando assim era ser como o Homem-Aranha contra o Homem-Inseticida. Mas nada era impossível para ela. Tinha quase certeza que ganharia, mas acho que a sua derrota era iminente. Talvez fosse assim que encarasse tudo aquilo, talvez achasse que não tinha nenhuma chance, mas eu creio que não. Ela não o desafiara porque queria quebrá-lo, e sim, um tabu, uma coisa que gritava por atenção desde que se entendia por gente. Mas se realmente quisesse derrotá-lo não agiria da forma que agiu, creio. Quando se quer ganhar de uma adversidade, não devemos nos tornar como ela, e sim um ponto de desequilíbrio dentro de sua característica.
Jasmin não perdeu por ser mulher e Mauro o macho alfa. Jasmin perdeu porque lutava contra a sua própria natureza desde o inicio. Ela não respeitou o seu corpo e as condições de que os outros também o viam. Ela tinha que ter sido realmente impecável. Não poderia deixar entrar nenhum gancho, mas se fosse esguia e rápida como uma gata, sorrateira e perspicaz, aí sim, talvez tivesse ganhado... Deveria cuidado com o ring, suado e cheio de sangue pra não cair e dar chance ao juiz de acusa - lá de alguma falha, porque esqueceu que não lutava só com Mauro, lutava contra uma vida inteira de pessoas dizendo que não ia conseguir, lutava contra um povo que vivia morrendo e nascia morrendo... Ela teria que ter sido impecável em qualquer aspecto de sua apresentação, mas não foi.
Ela sempre quis negar o óbvio à dor nula de não se entender e tentar se domesticar com a vida que sempre a proporiam as coisas fúteis que não gostava e nunca gostou. Não queria terminar lavando roupas de dondocas como fazia a sua mãe do inicio ao resto de sua vida – pois isso pra ela, ser uma estatística, é o cúmulo da futilidade. Amava quem queria, e tinha apreço até mesmo por uma pessoa perversa, mas nunca deixava turvar suas idéias, seja por homens, filhos, circunstâncias da vida. Não era o boxe a sua principal profissão. Como uma guerreira nata, conciliava como professora de educação física e uns bicos como personal trainer de uma elite que gostava de viver separada sem contatos com ninguém. Jasmim era um sono leve em um dia tranqüilo com trovões sem som. Era uma mentira fabricada para o mundo não bater, mas quem a vise veria que era impossível esconder a sinceridade dos seus olhos um segundo sequer, e quem dirá, esquece-los sem ser tomado pela força da sua presença. Sua sombra me aturdia e só de saber que estava a conduzindo de um lugar a outro, era como se eu andasse com deuses dentro de mim. Mulher? A maior de todas. Mulher que é como uma estrela, potente em seu brilho, altiva e complexa em seus elementos e acima de tudo, melancólica e solitária, que só se fazia valer quando era uma bandeira vermelha em ressaca, porque sabia que quando o mar estava mais revolto, era esse o momento em que ele se sentia mais solitário. Já tinha amado homens, mulheres, objetos, desejos, mitos e heróis... Mas sempre por querer mostrar de alguma forma, que não me atreveria a dizer que era ela e sim a força de suas convicções, era quando ela mais se distanciava dela. Era ai que ela era realmente uma coisa que todos esperavam – menos a garotinha pedindo colo e carinho sempre, que no fundo é isso que era. Mas nunca me disse uma palavra sequer de sua vida. A conhecia pelo tato de querer conhecê-la, mesmo sem me dizer uma palavra dos lapsos que a fizeram ser Jasmin.
Jasmin deveria e deve ser desde o inicio essa força que nunca compreendeu que é: Ela sabe te amar e te matar com um mesmo vocábulo, língua, palavra e até mesmo andar. Há muito tempo negara a sensualidade e leveza que a fazia uma bailarina no ringue. Esqueceu que a sua força era e é o equilíbrio, aliás, o equilíbrio traz e faz brotar a raiz da força em tudo. O que foge do prumo e se desfaz a sua essência é a derrota. A derrota não tem raiz, identidade, vontade, personificação... A vontade não tem nada disso... Jasmin era uma vontade de ser, mas não era. Sempre ficou como uma aspiração a devir. Jasmin era uma perfeita mistura, mas não queria sê-la ou até mesmo se misturar. Por forçar a sua natureza ou por não saber realmente sê-la? Era um mistério doce que muitos tentavam desvendar e saber... Mas todos pararam no meio do caminho. Metades que pararam em silêncio e simplesmente foi um meio para parar no meio, mas meio eu, meio ela... Achei um meio e consegui segui-la meio termo, mais ainda sim, a seguindo.
O cigarro agora queimava por entre os seus dedos por entre minutos escoados em fumaça e nulidade. Quer me dizer alguma coisa, mas apenas morde os lábios inferiores com força que do espelho vejo uma pequena linha roxa. Dos olhos e da face não se pendiam mais as preciosas gotas que a declarava e a afirmavam sempre como uma linda mulher que era, porque como o híbrido que era, as segurava em nome, talvez, de sua reputação ou convicção.
- Não vai me dizer nada – Cutuquei.
- Você merece nada... Você não é nada... O que sabe é ficar rodando em círculos com essa merda de carro pra lá e pra cá... Não sabe o que é lutar pelos seus ideais, se conformou com essa vida medíocre e nada...
- O que você sabe sobre mim? O que você sabe sobre o que eu sei de você?
- Nada... Você não sabe nada de mim Criss. É uma pessoa que sempre chamo quando tudo dá errado e...
- E?
- Nada caralho, nada... Nada merda...
- Sabe por que o carro está parado?
- Ahn?
- Porque chegamos há algum tempo na porta da sua casa... E sabe porque a porta de trás está trancada?
- Ahn? Vai querer me tomar a força? Vamos... Nem cerro os punhos pra você. Te espero – me disse com cara de deboche ascendendo um outro cigarro...
- Você sabia que eu não fumo?
- Uhn-Uhn...
- Isso quer dizer...
- Isso quer dizer não – Fixa os seus olhos nos meus como uma fera.
- Sabe por que você não sabe? Porque eu sempre te servi, eu sempre fui um pouso para que você se deslanchasse como o tudo que eu sempre esperei. Esperei um abraço teu nos nossos dias juntos de porre... Esperei um feliz natal enquanto a minha casa comia a ceia e eu me embriagava pensando se vocês estavam bem, sozinha com a sua filha... Talvez em algum canto de um quarto chorando porque o pai dela não ligou e você estava sozinha sem ter nem um pote de açúcar na geladeira...
- Quando eu lhe dei essa liberdade pra falar assim da minha vida?
- A sua força me deu... Eu a tomei...
- Tomou? Você sabe que ninguém tomou nada de mim... Ninguém nunca tomou nada de mim, eu nunca deixei que isso acontecesse, nunca deixei que ninguém viesse e me tirasse um grão de nada...
- Mentira, várias pessoas tomaram coisas de você... Várias... Eu sei...
- Eu nunca lhe contei nada sobre a minha vida... Nada... Agora você me vem com esse papo que me conhece por que...
- Porque talvez lá no fundo...
- Lá no fundo o que?
- Lá no fundo o que?
- Lá no fundo... Eu seja você também...
Vejo brotar um deboche bombástico do seu rosto como uma ameaça de morte em sua face... Ele veio com uma leve elevação dos lábios superiores.
- Você nunca vai ser como eu Criss, ninguém é igual a ninguém...
- Vai tomar no cu Criss... Abre essa merda agora...
Segundos me separavam do abismo e da loucura que iria fazer. Ela poderia dizer tudo bem, virar as costas e nunca mais a veria – ou no dia seguinte ela me chamasse pra tomar um café pingado em uma birosca. Ela poderia quebrar o vidro do meu carro. Ela poderia me quebrar ou me arrebentar mesmo com as mãos sangrando me estocando a tesoura com força, mas saberia que não faria isso. Sabia que isso ia se passar em sua cabeça, mas ela não faria isso porque ela era boa. Mas respeitava a sua variante de possibilidades. Respeitava que um dia ela poderia acordar e daí nunca eu mais a veria de novo por tentar fazer o que eu ia fazer. Mas me arrisquei fazendo isso:
- Não! Fica ai merda, agora você vai me ouvir...
Para o meu espanto. Ela desiste e me olha com uma cara de surpresa.
“Você é um dia de chuva, um peito apertado e espremido de saudade pra mim. É um fogo que eu tento apagar mais não consigo do meu peito... Estendi-lhe tapetes. Tentei me cortar em minha mente por correr e não te achar. Me anulei em tentar me engraçar pra você porque sabia que não daria certo nada que eu fizesse tentando fazer alguma coisa, em uma atitude tola, te tendo em uma gaiola de ouro, mas em nome de alguns anos levando e trazendo você para vir pra cá e mostrar ao mundo. O mundo que eu vejo quando brota nos meus olhos a graça que sai de você, soa como escondida de um deus. Deus que não é homem nem mulher é uma força que me força a ser quem eu quero assim como você”.
Seriam lindas se realmente saíssem da minha boca, mas como que em um passe de mágica, o vento sobrou, uma nuvem bateu calma e refletida em minha timidez e apenas ela me olhou e eu a olhei, profundamente, como uma criança observando uma piscina... Como uma criança cheia de desejo para nadar dentro de você Jasmin, mas tenho um enorme medo de me afogar porque sua maré muda até com dias calmos. Jasmin era assim... Reparei em todos os cortes do seu rosto enquanto nos olhávamos... Era mágico ver isso na sua face como que um mistério me esperando... Ela me deixou olha-la... Ela me dizia com os olhos: “Vamos me olhe, eu sei o que você vai me dizer, eu sei o que você realmente sente e sei que você pensa que eu posso bancar a mulherzinha sempre e ir chorando sem motivo. Vamos me olhe, mas nunca vai me ter”... Ah, Jasmin... Como eu queria que sempre fosse assim, queria você só pra mim. Em um bolso guardado sem sair do seu Estado, como em um skate park particular feito pra você andar em círculos dentro do meu peito, como meu sangue. Mas senti derrota, falta e sempre me perco quando eu estou longe de você. Se você ficasse, ai parada, pelo menos por mais uns quinze minutos, talvez, eu te diria, eu te amo. Um eu te amo tão forte que faria parar todos os gongos, ringues e lutas para que você possa me ver através dele. Mas se passaram mais de quinze minutos e eu perdi a minha oportunidade... Ela simplesmente abriu a porta do carro e se foi... Não foi tanto assim, ela ainda me pagou, pelo vidro da frente e pegou um cartão meu – Pra quê? Não sei se foi e não sei.
“Pra você não se esquecer de mim. Eu ainda não desisti do Boxe.
A revanche será semana que vem.
P.S: Acho que agora estou pronta para escalar montanhas...
“Beijos nos olhos”.
Jasmin Du Crave
Correio. Veio um enorme e volumoso chumaço de cabelos com esse bilhete que recebi semanas depois dela sair como um mistério de dentro do meu táxi. “Agora entendi pra quê da tesoura”. Pensei
- Criss?
- Fala amor, que saudades... Quero ver como ficou seu cabelo!
- Não abusa...
- Fala Meu Cravo...
- É hoje...
- Eu sei boa sorte... Ligou pra que eu vá te esperar na porta de novo?
- É... Não to agüentando...
- Calma, vai dar tudo certo. Confio em você...
E tudo deu certo. Não como queria, mas tudo deu certo.
Desta vez, entra desejo. Um perfeito andrógeno me esperando sair, com cabelos curtos, sorriso nos lábios vermelhos de batom, um bom tempo no céu e uma feminina voz me estendendo a boca, me tocando os ouvidos e com ela dizendo-me baixinho e safada como uma gatinha no cio:
- Vamos Amor. É por minha conta...
- Pra onde vamos?
- Pro Inferno... Vamos pro inferno meu bem...
Rodrigo Serra
Terça-feira, 31 de julho de 2007.
Mais um conto meu...
Pênis
No meio a flashes e luzes, e a alguns olhares de ângulos obtusos eu vou entrando por dentro de uma noite suja em um lugar excluso e essencialmente diferenciado. Não ligo mais para estrobos ou exibicionismo em uma pista louca e inerte que cobre mais uma noite vazia de pessoas comuns a mim vestidas de preto. Entro por uma porta que só é transpassada por pessoas de passagem, homens impessoais sempre como uma sociedade posta coloca. Agora, pouco me importa. Passo pela porta apertada e entro em meu paraíso branco e ordinário, com espelhos também ainda se ressaltando alguma coisa mesma que se toca lá fora. Pias, mármores, espaços, sulcos, sulcos, nomes e nomes por entre eles. Aqui é a minha bolha mágica e tem algum tempo que a achei. Venho aqui há algum tempo, mas acho que há pouco tempo, mas há pouco tempo mesmo é que eu realmente achei as verdadeiras noções e formas que esse espaço realmente me proporciona agora.
Sou alto, de feições bem gregas, tenho os cabelos negros ligeiramente compridos e ralos. Tento andar sempre de uma maneira sóbria com cores neutras e desejos muito bem escondidos dentro de uma enorme repressão materna, que vive agora de fraldas geriátricas e não se alimenta sem mim, mas como cansei de atender expectativas, venho aqui atender as minhas necessidades.
Minha roupa sempre cheira a pinho, eucalipto e essência de limão, e esse cheiro não sai facilmente das roupas, mas não me importo mais. Corto marcando o meu braço esquerdo, a dois ou três dedos de altura acima do pulso fazendo um profundo “V” com uma caneta zero sete preta, sem pegar em nenhuma veia até que possa marcar o “V”. Me previno de tudo que me afaste daqui agora. Me previno com pacotes de maços de cigarros, bolinhas - Remédio para dormir. Remédio para ficar quieto. Remédio para prestar atenção na aula. Remédio para dizer “Mamãe eu te amo” antes de ir para a cama... E agora, era esse o remédio do “Cala a boca e escuta a titia Rute”, coisinhas de farmácias - biscoitos, perfumes, papéis higiênicos e uma roupa impecável. Passo horas em pé escorado em uma parede. Aqui já me cortei, quebrei torneiras, vidros, criei cacos e cuspi em minha imagem no espelho. Tentei em desespero deformar a minha cara com as mãos em um gesto de pânico e obsessão, com o sangue do meu pulso escrevi “Tem alguém pra me amar ai?” e depois coloquei o meu telefone. Não houve ninguém aqui para costurar os meus pulsos e sequer para me ligar dizendo: “Tenho casa, cama e vara pra você”. Um faxineiro me jogou dentro da ambulância como um saco e só. Seguranças sempre me puxam para fora agressivamente por ser uma “figurinha” dentro desse espaço e universo-ilha. No outro dia, ou semana, não importa, sempre há um outro espelho limpo cheirando a Veja. Sons e cores permeiam as suas saídas, mas não me importo, pra mim não há barulho, verve ou movimento lá fora... Esqueço de coisas essenciais que possam existir fora desse cubículosso espaço e eu simplesmente esqueço que a rotina daqui é vir rapidamente, ou apenas retocar a maquiagem com cocaína e ir para uma pista de luzes, caçar prazer, sim entendo isso, mas ainda sou eu aqui me olhando no espelho – se é que ainda me coloco como medida de distancia alguma, mas me asseguro de que aqui é o melhor lugar para estar e ficar. Magro, de sangue sujo, esquálido, pálido, desbotado e intrincado, na verdade, instalado perto da bancada de mármore, ao lado da valetinha com os sobressaltos da gilete em que puxam a trilha de coca. No mármore com uma liga de gesso, cimento branco e areia refinada, mas não ali, digo, no meio de dois espaços brancos de cerâmica, que são colados com essa mesma argamassa, liga oriunda de uma difícil fusão e se torna uma camada arenosa, com zero ponto cinqüenta e três milímetros de distância entre uma extremidade cerâmica a outra extremidade cerâmica. Ali é formado um grande vale, para outros é apenas um pequeno sulco, que erroneamente elas chamam e acham que é uma linha branca. Mas não estou preso à argamassa ou a forte liga, na verdade eu estou no sulco e posso até dizer que às vezes eu sou ele. Pra mim também era apenas uma linha branca ou um sulco... Um sulco não. Na verdade ninguém se dá conta, acho que todos pensam que é apenas uma linha branca mesmo, mas na verdade é um sulco. Mas um dia, entrecruzado entre os sulcos em tons de um marrom viscoso que ia atravessando várias extremidades de cerâmicas, um nome e um telefone me puxaram para dentro dele. Do sulco.
Entrei por ele. Por esse número, nome e símbolo. E daí ele pôde me alimentar e me saciar de toda a minha primazia perverssiva. Fui além do que todos podem e por entre eles. Passei a me viciar nesse universo e a freqüentá-lo sempre, não por mera necessidade mais, mais sim por uma obsessão compulsiva e doentia de encontrar o prazer no meio de uma necessidade. Assim misturei-me como em uma baila louca e me envolvi em uma salsa cubana, escorregadia como essência de erva doce e que cheirava a sexo e andava como um eucalipto. Estático de cores e sons avermelhados e marrons. E lembro que onde há água há vida, então aqui eu poderia viver pra sempre, me alimentando com lascas de parede, de rebocos, de restos da lixeira e tomando água da pia. Choro de alívio por isso com a cabeça voltada pra parede. Do sulco.
Na verdade, no sulco é onde se dá o pequeno vale. O pequeno vale está em um grande sulco e ali existem pequenas coisas perversas, bizarras e hediondas e diria até que o inferno é uma composição micro cósmica... Quando é sempre a merda de um vírus que te mata, quando é sempre um espermatozóide fecundando um óvulo que realmente te fode, quando é sempre um câncer que te mata ou até mesmo uma pequena troca malfeita de elétrons no óleo do seu freio pode te fazer perde-lo, e por segundos, quando em uma curva, quando há uma troca de moléculas de uma infusão alcoólica, que ingerida excessivamente, afeta os seus neurônios de forma drástica e precisa na hora da curva se torna fatal. Tudo acontece sem ninguém ver. O inferno é microscópico e não pode ser visto a olho nu e nem por nenhum aparelho conhecido. O mal que vem pra todas as coisas é de todas as coisas pequenas e vem de coisas bem pequenas; O que é mesquinho – propriamente dito - diminuto e completamente impreciso vem de coisas tão pequenas como esses seres que moram nesses vales. E são esses seres que criam os vírus, que edificam células cancerígenas, quebram parafusos, alteram a troca de moléculas e de elétrons de freios de carros. As grandes bombas precisam apenas de algum punhado de átomos... Mas mesmo assim, eu não diria que ali estou ou até mesmo atribuo a mim valores e até mesmo a esse recém descoberto lugar. Troco, com o sulco, elétrons, prazeres, idéias, fluídos, sentidos, cheiros, cores, átomos e ligações elétricas em uma sopa quântica que é misturada com conhaque e prozac e outras coisinhas de farmácia. Acho. Até porque já passei de uma convenção que possa dizer se isso é bom ou mal – se é que eu posso discernir agora essas duas palavras em um fonema ou um significante realmente concreto – Porque esse sulco é um grande vale residual de coisas, cores, sentidos e sobretudo aspectos – E não afirmaria a ninguém, exceto a mim mesmo, que vi pessoas andando naquele sulco e em outros, como que uma vista de cima de uma grande avenida com prédios brancos cerâmica, carros vermelhos sangue, ônibus manchados de marrom com caminhões e pessoas azuis andando com pressa, como espuma de detergente escorrendo. Mas não digo a ninguém, muitas coisas eu não digo a ninguém, mas acho que haverão muitos ainda a observar essa movimentação no sulco. Diria que é um passo a frente na ciência. “A descoberta do micro cosmo consciente”.
Milhares de cientistas, homens lindos e altos com fuzis e emblemas da Confraria e centenas de outros cientistas mais cautelosos, vestidos de jalecos, mascara de gás e aventais de cirurgião iriam com os seus aparelhos tentar ver essas pessoas e coisas, enquanto as pessoas dentro dos sulcos iriam tentar descobrir que olhos enormes são aqueles olhando uma cidade inteira,fazendo grandes espaçonaves para explorar esse fenômenos estranhos e desconhecidos enquanto os médicos e cientistas tentam desenvolver uma nave pra chegar lá sem danificar a cidade, enquanto pequenos falsos profetas nos sulcos dizem que são os “olhos de algum deus pagão os observando”, enquanto eu injeto valium na minha veia, sentado com a bunda no chão sujo, sujando a minha calça de amanhã vir pra cá, rindo de todos dizendo eu falei. Jornais criariam alardes e temores para dentro desse lugar, e ele deixaria um pouco de ser meu pra ser de todos e como que em uma louca seita, várias pessoas venerariam esses seres que também nos venerariam por sermos apenas fisicamente maiores que eles, mesmo sem compreender que a nossa natureza suja ainda está ligada a deles, e que um pedreiro, em descuido por concertar um encanamento, poria vim a toda uma cultura fálica, de nomes e desejos que foram escritos por outros deuses em longínquas instancias de solidão e incompreensão. Apagariam os registros de Vado, de Nilson e até mesmo o meu e fundariam fontes de fio de loucuras e pesquisas.
E há milhares de sulcos aqui! Cada um é uma descoberta fascinante da ciência! Cada um com uma cultura e organização! Cada ponto dele é uma junção de dois entre - espaços brancos de cerâmica nesse gigantesco mundo claustrofóbico! Milhares deles bailando se difundido profundamente, criando políticas internacionais e tratados de religião entre os quadrados brancos – que na verdade se agrupam como continentes ou até mesmo como prédios ou casas - e cada um deles há uma cultura, um ponto de observação, um sistema de observação como uma câmera me vigiando sobre o que eu estou fazendo aqui ou acolá... Cada uma dessas extremidades que se entrecruzam e é um caminho e um ponto que se evolui e se mostra diferentemente peculiar e característico de cada um. Único entre todos, apesar de igual quando olhamos de longe. Cada um com uma espécie de organização diferente e estrutura física também diferente.
A partir dessa descoberta, depois que Vado me fez ver esses espaços de vida aqui dentro, vi verdades que pelo menos pra mim se aplicam como uma luva: Não existe marginalidade porque essa linha simplesmente não existe. Vivemos muitas vezes sobre bases irrisórias de aspectos e convenções. Daqui, da porta para fora nada é real. Me repeti várias vezes e me coloco isso sempre como verdade. Ao ver aqui máscaras caindo e se desfazendo, como a minha, tudo pra mim lá fora se resume aqui dentro, minha visão está dentro deste quadrado branco assim como a de muitos outros homens que pensam também dentro de outros tipos de quadrados e agora vejo que é aqui que poderão se reunir – Em um resolvido futuro das figurativas identidades sexuais – A verdadeira Confraria dos Machos, liderado por Vado, é claro. Talvez seja por isso que eu esteja aqui... Disse uma vez pra alguém que convenção era uma porta que poucos atravessavam, ou se atravessam, olham por ela e depois a tornam a fechá-la como em uma porta de um banheiro masculino. Sempre com um sorriso amarelo no rosto, com um pedido de desculpas recém tirado dos bolsos.
Não existem correias, carros, freios, moedas, modas, luzes, sons, sujos, biscoitos, bolhas, bolas, balas, práticas, políticas, religião ou opinião. Tem sempre um “Eu” que faz tudo e cria outros criadores. Daí se cria grupos que recriam e retomam as vertentes, as valetas e os sulcos de outros pólos e visões de culturas ou criaturas... Mas depois aparece alguma corrente pseudo ortodoxa que retoma as “chamadas” tradições daquela gasta casta, mas nunca é como era, porque o “Eu” que criou aquilo, já morreu há um bom tempo, pois se não tivesse morrido há muito tempo, não deixaria que aquela merda daquela coisa que criou com toda a força do seu egoísmo mudasse. Todas essas movimentações giram em torno de uma unidade que se sobrepõe as outras por ser por si só mais forte e egoísta... Unidade chamada “Eu” que altera, gira constantemente em torno de seu próprio eixo, denomina e impõe vontade. Cria coisas, molda outras e sobrepuja as coisas simples que são somente denominadas de criaturas. E essas que não criam que apenas são criadas, vivem aqui? Talvez. Mas tudo se resume a “o que” realmente se quer caralho... Uma frase me define hoje em dia: Me sinto bem quando me distraio e só me distraio com o que me tira daqui e quando eu saio daqui vejo que tudo é melhor. O que é melhor é sofrível? O que ser quer? Evitar sofrimento? Mas aqui? Como evitar?
Muitos ajudam os outros e acham que são socialmente ativos, mas não sabem que isso é apenas um sinônimo de distração na maioria das vezes... E até sabem, porque pode sair até mais barato que uma psicóloga... Dar atenção a mendigos, comprar sabonetes e cestas básicas para velhos em azilos... Mas será que eles ajudariam os mesmos a ter prazer?
O prazer é egoísta. E quando se tem não se divide e se quer só pra si mesmo.
Tem gente que gosta de ler coisas sobre os outros – sim, isso é uma distração. Tem gente que gosta de ver os outros – outra distração. Tem gente que não gosta de ver gente... Onde está o limite para o prazer então merda?
Limites são convenções idiotas que me fazem temer em parte por várias coisas. Regras são como grandes semáforos ambulantes e apenas te dizem quando parar, se é que é a hora em que se deve parar, isto é, se deve ou não parar... Conheci gente que não tinha mais veia e nem tempo para nada depois de tantas coisas que colocaram para ela usar. Temo muito por causa dessas pequenas coisas, dessas pequenas pessoas, dessas pequenas atividades e gente que não sabe e nem tem noção do que é preciso fazer para se comportar e ter de uma forma diferente – pois como acho e creio, o inferno é formado por coisas pequenas - ou algum tipo de noção de controle, que eu perdi há muito tempo, em uma brecha de memória que eu esqueci quando estava no meio de um caminho tortuoso e tenebroso que se chama lapso.
Tomava coisas redondas que produziam outras coisas desde muito novo. Tenho distúrbios de atenção e concentração desde muito pequeno e tomo vários tipos de remédios pra controlar coisas que eu não tenho muito controle desde cedo. Queria tê-lo, mas acho melhor não. Não agora, não nunca. Aqueles que o tomam sempre acabam me comprometendo a não ser quem eu sempre fui ou pretendia ser. Pílulas para dormir, para acordar, para estudar, para ler, para escrever, para sentar e dizer te amo mamãe... Descobri que em parte todas elas vinham do sulco. Tudo veio por eles, construído mais tecnicamente dentro de suas cidades onde uma tecnologia mais avançada pode produzir mais e mais barbitúricos eficazes que podem controlar mais e mais indivíduos, até que vai chegar o dia em que eles realmente saíram do sulco e controlaram a maior parte de produção de desejo da terra. Mas hoje em dia quando é um bom dia, um daqueles que o mundo sorri e lhe presenteia com um bom trocado que lhe rende a compra de um bom barato, tirava onda na pia trilhando várias coisas e depois via meu nariz escorrendo pelo espelho, mas sempre rindo. Faço de tudo...
Conheci, uma vez aqui mesmo, um homem que se tornou mendigo porque gostava de ver as pessoas conversando na rua.
- Desde muito tempo meu filho, eu sempre gostei de ver pessoas andando e conversando na rua – Me dizia enquanto eu vestia as minhas calças – Mas chegou um dia que eu sai do meu trabalho, que a partir daquele dia não era mais meu, sentei num banco da praça e apenas admirei as pessoas andando, comprando coisas na banquinha de doces, vendo e falando da vida, esperando ônibus, carros, Kombi ou Vans... A cada hora, sempre uma pessoa nova, a cada hora uma nova coisa pra se ver... E quando eu vi, eu estava sempre esperando alguém ali.
Me contou da Dulce, que tinha sido traída pelo próprio sobrinho enquanto ia trabalhar, me contou a história de Marina, uma garota de quatorze anos que vivia debaixo de sua peleja e que era puta e que tinha Aids por ter pego do padrasto. A vida não dá trégua a quem vive nesses vales. Dei o pacote de cigarros e acreditei nele. Acredito em muita coisa depois que passei a habitar em um espaço que existe em todos os lugares, das mais diversas formas e das mais diversas cores e cheiros... Mas não disse a ele como eu fim parar aqui... Apenas lhe paguei o preço continuei de pé enquanto ele voltava em busca de sobrevivência, acho. Talvez se fosse criada uma seita de “observadores urbanos”, talvez assim fosse considerado um sujeito completamente normal dentro de sua esquisitice. Seria criado então um CNPJ? Sei lá... Alguma merda de tipo de cadastro ou registro numérico para a “seita de observadores urbanos” e tudo se tornaria perfeitamente normal. O que faz uma coisa deixar de ser estranha, é quando se há um controle de uma espécie de “consenso normal” para ela subsistir. Haveriam então postos de observação legalizados por um órgão ou governo competente, sustentados por praticantes desta seita que pagariam mensalmente por novos vídeos ou acessos a essas cabines, situadas e legalizadas por uma cidade que criaria fatores e fatos simples para incluí-la como referência de cidade e de ponto de observação em forma de pequenas cabines, até que esse louco fundador teria sua essência deflagrada e desmascarada para não ser mais ele e sim um coletivo simbiôntico e permissivo de “aspecto normal”.
Depois que o rapaz se foi me peguei em devaneios a pensar em Vado e ainda me recordo de como foi... Que eu entrei aqui...
Como sempre entrei impecável, depois de um árduo dia de trabalho, entro sem perceber ainda nada, entro sem notar coisas e objetos. Apenas por uma necessidade básica vinha aqui...
Minha cabeça ainda pensava em papéis, corte nos gastos da empresa e coisas que sempre me faziam perder. A puta da minha chefa falando em meu ouvido claramente que “cortes haveria, mas cabe ter o bom senso do profissionalismo de ainda prezar o bom trabalho e o campo profissional para ainda concluir, como uma grande equipe”. Queria saber onde está a grande equipe quando eu me fodo de insônia durante a noite. Queria saber onde está a equipe que não me chama para participar das confraternizações do final de ano quando eu fico só, cuidando das fraldas da minha mãe.
Minha mãe vive agora em uma bolha de sofrimento, não como a minha, mas minha mãe espera ainda como eu por uma espécie de equipe de salvação, como a confraria dos machos. Como um boneco vive em uma cama que a dá conforto, escaras, e uma paralisia inconformada por causa de um AVC. Sou responsável por ela agora. A mantenho viva, pois não posso apenas alivia-la com dar um stop em um filme de sofrimento e desilusão. A vida nunca foi o que a minha mãe esperava e eu não era e nunca serei o que ela esperava de mim, mas não posso privá-la disso tudo, não posso dar o que ele pede sempre todos os dias: O simples descanso de não sentir mais nada e dormir para sempre. Ainda não se deram conta de que viver faz parte de uma infinitude gama de prazeres que ela não, mas desfrutava, porque pra muitos viver faz parte de uma orquestração sádica e desumana. Esperava sua morte chegar dentro de fraldas geriátricas e gemidos constantes, que eram divididos comigo e com uma enfermeira, contratada a estar quando eu estou aqui... Onde está a equipe que pode me compreender quando eu preciso de muito auxilio, com minha insônia e minha insatisfação. A equipe foi feita apenas para fuder com os outros. A equipe foi feita apenas para ilustrar um chefe, elegendo um macaco muito bem treinado que fica com o culhão na mesa com o chicote invisível lhe fazendo perguntas e exigindo formulários, horário e trabalhos “mais assíduos”. Sempre fez parte de mim as folhas de ponto, os cartões de saída na hora do almoço, protocolos administrativos, as cotas e cotações e era isso que a empresa queria, homens máquina pra fazer parte de uma equipe disposta a querer comer seu fígado todo dia em forma de dinheiro e status dentro de metros quadrados.
Somos gado atravessando um semáforo com um chicote nos ombros e marcas no rosto. Somos formigas que exigem papéis, carência e solidão que são marcas imperceptíveis dentro da sociedade “normal”. Tudo acaba virando números, processos, procuras, trocas, gastos, roupas e souvenires... Sim meu amor, a vida a um grande souvenir me diria meu ouvido, Rute:
- Às vezes eu tenho muito medo de mim Rute – Disse tragando fundo um cigarro preto e fedorento que tomava a sala com a minha indiscreta pose, agora meio afeminada.
- Temo pela minha morte, mas poucos sabem o quanto a desejo, achei que era eu apenas querendo fugir de tudo e entrar em uma bolha meio quadrada na qual o tempo não passa e eu sempre tenho tempo suficiente de fazer tudo o que eu quero, mas acho que sou eu a maioria das vezes, sabe?
- Você toma algum tipo de estimulador de humor? Não sei... Eu valo em um âmbito geral...
- Acho que tudo pode estimular o nosso humor Rute... Desde o cafezinho a um bagulinho noturno... Considero estimulo tudo que me alivia de uma sensação, talvez, real de desconforto... A realidade te desconforta Rute? Então eu sempre estou desconfortável...
- Te acho engraçado sabia?
(Sorri com um ar de deboche)
- Engraçado porque? Eu não tenho senso do humor...
- Você me fala de coisas completamente atípicas em volta de uma aura de uma ideologia utópica. Mas você sofre de coisas que são comuns a várias...
- Pessoas? Não existem pessoas. Existem médicos, irmãos, crentes, políticos, budistas, macumbeiros, homoafetivos... Deixamos de ser pessoas com simples opções e criamos rótulos idiotas para classificar o que é peculiar caracterizando seres humanos com adjetivos. Todos temos adjetivos e seremos estranhos e iguais a um outro grupo que possa pensar da mesma forma que nós... Ai então criamos grupos, efeitos, protestos, pessoas reivindicando o direito de ser como assim desejam fugindo de um agrupamento que possa associa-lo e trata-lo pseudamente como um indivíduo normal, mas fogem mais ainda simulando uma realidade que parece ser libertadora, mas por si só já é alterada. Não deveriam existir cinemas para homoafetivos, clubes para cegos e entre outras coisas classificatórias... Então, assim como abandonamos uma noção de ética há séculos atrás e a disfarçamos em uma aura religiosa, por causa da solidão ou porque perdemos o controle? Não sei... Você sabe Rute?
- Não sei. A utopia é sua. A idéia é sua. Creio que uma noção sociológica que pouco tem a ver com a causa real do seu tratamento. Creio que estamos sendo superficiais continuando a conversar sobre as suas idéias que partem para um concreto muito mais grosso do que você está me mostrando.Você não me fala mais de você. Ta vendo... Vem você querendo me catequizar de novo. Acredito que seres humanos precisam viver em grupos...
- Já vivemos em grupos Rute. Nos agrupamos para ir trabalhar. Nos agrupamos no trabalho, nos agrupamos indo trabalhar, nos agrupamos voltando do trabalho, nos agrupamos em várias outras ocasiões... Eu só gostaria de saber quem criou essa distância de pedra que nos faz agora parar de nos comunicarmos livremente uns com os outros... Eu venho aqui para entender isso Rute! Eu tenho a resposta, mas gostaria de ensina-la há muitas e muitas pessoas...
- A quanto tempo toma psicotrópicos pesados?
- Não sei, acho que desde que nasci. Não tenho tempo de pensar em mim, eu apenas penso no que os outros pensam de mim sabe? È o efeito disso tudo que não me deixa ser o que realmente quero. Não me deixam fazer nada do que eu realmente quero fazer comigo, pois se fizer, não tenho emprego e todos iram me incomodar... Gente que eu não conheço ira me incomodar, sabe? Acho que eu perco com essas armadilhas que aprontam comigo.Acho que perco por pensar em perder e quase sempre não entro em nada... Crio soluções mágicas pra tudo...
- Como o quê?
- Como ganhar na mega sena. Abrir um banheiro público só pra mim, explodir coisas, deixar o cabelo crescer mais ainda, arrumar algum macho decente pra mim que não me coloque chifres e nem muito menos aids e em fazer bandas de rock fantasmas que do nada que fazem sucesso. Como ser um escritor famoso sem escrever uma linha... Essas coisas sabe... Acho ainda que serei um super-herói,não sei. – Acendo um outro cigarro preto e fedorento.
- E você... Atribui isso a que?
- A massificação da obrigação que essa sociedade moderna tem de atribuir valores e status aos outros. A gente tem sempre que ser alguma merda de coisa... E eu nunca quis ser nada. Preciso de pouco pra sobreviver e preciso de muito menos pra me contentar com alguma coisa... Acho isso... Sempre me perguntaram o que eu queria ser quando eu crescer...
- E o que você respondia...
- Até os meus dez anos eu não respondia nada... Mas depois minha mãe me falava que era feio não responder nada, ai eu passei a dizer que ia ser advogado como os meus pais, embora o meu pai ainda estivesse em casa...
- E hoje, o que você é ou almeja ser? A propósito, está tomando os remédios que eu lhe receitei?
- Nada. Não quero ser nada Rute... E às vezes eu tomo sim, os remédios... Trabalho em um emprego massificante que me sufoca até o meu talo. Vivo em uma corda bamba e a qualquer momento posso perdê-lo... Mas um dia se levantará a Confraria e eu estarei ao lado de Vado...
Sorri levemente dando uma idéia sem noção a ela... Mas contei sobre a Confraria.
Voltando pra cá, para a pia e para os sulcos.
Um dia, dentro de um banheiro, quando não havia esperança nem voz no meu ombro, tentei ligar de novo para um ouvido que eu alugo por cinqüenta reais a consulta um dia na semana, liguei para minha psicóloga Rute... Há alguns dias, anos talvez... Eu regularmente não dormia, tinha grandes e maiores espaços de sono que não compreendia... Dormia na condução, dormia no escritório, dormia enquanto os outros falavam mas não dormia onde eu deveria realmente dormir, que era em minha casa, na minha cama... Então, em um banheiro, liguei para o meu ouvido.
- Chega, de me falar isso Rute...
- Até que ponto você quer que eu chegue com esse história toda que você me contou? Você está sempre me falando como louco sobre nomes, idéias e mictórios e o que eu posso concluir disso tudo e desse ponto é que você não está tomando a medicação que eu lhe receitei!
- Eu não quero chegar a ponto nenhum, eu apenas estou me sentindo só, eu queria tomar cerveja com alguém e coisa e tal...
- Eu não bebo...
- Eu sei, eu tomo e você me escuta só isso...
- Eu não me envolvo com meus pacientes e é anti profissional eu me envolver com algum paciente meu fora do meu escritório...
- Rute, eu não estou te chamando para um motel, para fuder com você... Eu não quero te comer. Não quero meter piru nessa sua buceta velha... Eu quero alguém pra poder conversar.
- Cale a boca...
- Rute, me deixa falar com você...
- Cale a boca... Você já tomou seu remédio?
- Não Rute, não...
- Toma então... Daqui a pouco você me liga...
Remédio para dormir. Remédio para ficar quieto. Remédio para prestar atenção na aula. Remédio para dizer “Mamãe eu te amo” antes de ir para a cama... E agora, era esse o remédio do “Cala a boca e escuta a titia Rute”. E acho que vou ter que procurar um outro ouvido...
Engoli dois comprimidos e me esforcei pra urinar no mictório. Sempre pensava em jorros de água, em barulhos para fazer isso, mas não conseguia, simplesmente não conseguia urinar em mictórios... Mas todos os vazos dali estavam entupidos com merda e a porta de um dos que estavam bons, estava quebrada, então infelizmente, vinha o martírio do mictório.
Enquanto urinava no mictório e fechava o vidro de comprimidos, prestei atenção em um recado que quase recobri a parte de cima do azulejo, quase escrito no teto, muito em cima mesmo... Quase indo para parede em uma área que recobre e redobra e ocupa vários espaços de sulcos e azulejos...
“Vado 9977-7799”
O começo de tudo foi Vado... Me entreguei aquele signo por completo... Compreendi que não era um nome apenas, se tratava formalmente de um pedido de socorro de um homem desesperado como eu. Por se tratar de estar sendo escrito de uma forma distante e de difícil acesso até porque, ele teve que praticamente subir por entre os mármores das colunas que dividiam o mictório pra colocar apenas um recado louco e insano que se pronunciava como uma corneta do inferno pelas entrelinhas... “Eu tenho telefone. Mas não tenho com quem conversar”. Assim como eu. Se é que existia esse teoria ridícula que teima em querer lhe colocar um “eu” padrão como referência a se conhecer alguém. Goste ou não, o ser humano se relacionava restritamente por interesse e aceitava isso desde então e tudo se confirmou aqui.
Meus olhos se fixaram por essa mensagem. Imaginava Vado, alucinado como eu por causa dos carros, doente por esbarrar em pessoas sem conhecê-las, doente por se espremer a homens fortes dentro de conduções que só lhe querem por agressão e ignorância... Imagino Vado agora, se esforçando em equilíbrio, físico e mental para colocar em uma área perigosa, entre o banheiro e entre os sulcos, um recado que poderia lhe dar o inferno dentro de sua casa, em forma de um michê para lhe comer, roubar e matar como se mata um cão... Imagino Vado, solitário, inconseqüente e louco por uma pessoa e um objeto que o faça sair de sua loucura... Imagino Vado, lindo, pelado, com seu corpo pedindo o meu e me querendo dentro desse inferno podre em higiene... Me tomando em devaneios e loucuras enquanto eu sussurro como uma criançinha que ele me achou...
Quando acordei, era mictório gozado, olhos fechados e ainda, solidão, muita solidão. Minha cabeça havia pendido para cima, olhando o nome de Vado por muito tempo... Eu não me dei conta, estava por horas fixo em meus devaneios procurando razões e soluções pra mim e para Vado. Liguei:
- Oi... Oi...
- Quem ta falando – Uma voz grave como que me oprimindo me rompe no telefone.
- Vado?
- É ele mesmo... Quem ta falando?
- Bom... Eu vi seu telefone no banheiro e achei que estivesse sozinho...
- Onde é que você está?
- Estou no banheiro...
Foi apenas questão de tempo e pude conhecê-lo com mais alguns quatro olhares passados pela sua desconfiança natural como de um caçador... Ele era como um tanque. Era lindo, e não havia ninguém ali. Eu e o tanque ali... E ninguém mesmo... Como em um pronto socorro ele veio depois de algumas horas que eu o procurei, no escuro, sozinho, ao lado da valetinha de mármore onde estou agora. Não pensei que viria e achava loucura o que havia feito bom, loucura por loucura é se repetir em uma rotina que não lhe foi posta e sim apenas lhe confinada como que uma prova de que continuar é melhor do que desistir. Quando ele entrou foi mágico, tinha cabelos como uma camurça, mas ainda sim dava pra perceber que a coloração predominante na “penugem” que cobria o seu crânio era mesclada com alguns tons levemente grisalhos. Sua passada era firme e decisiva dentro do banheiro. Se vestia socialmente como eu e exalava a perigo e desconfiança. Imaginava um homem magro e esquálido como eu, mas era forte e alto e não havia algum tipo de ternura em seu semblante, por isso, no principio, pensei que era um criminoso ou um traficante – o que não seria uma desagradável surpresa também - mas depois em um outro breve olhar percebi que não, estava apenas se certificando, não como eu, que tudo aquilo não era uma cilada, mas entrou decidido, como um colosso entrando em um circo de espetáculos romano antigo, procurando por um leão ou por um gladiador famigerado a procura de...
- Foi você que me ligou?
- Eu?
- É...
Por um momento ele me olha. Meio que me cheirando a distância, como uma fera ou um animal que sabe quem procura ou quem é a sua caça pelo simples sentido olfativo. Ele me estende a mão e me pede desculpas pela forma a qual entrara. Sabe como é, me disse, existem muitos trotes e gente tentando me cercar sempre... E eu estou cansado de pessoas em volta de mim e não realmente me cercarem, pensei, mas não disse por medo de me parecer idiota, mas ainda sim, estendi aliviado a mão.
- É... Fui eu que te liguei...
- E ai, qual vai ser... – Me indagava com um sorriso safado nos olhos.
Abriu uma porta escura e fria em sua frente e eu apenas abria a minha boca e me fechei dentro de uma estranha falta de luz que cobria de negro todos os azulejos e iluminava os sulcos, mas que ainda sim reluzia as fendas e frestas da porta do banheiro, como que se o proibido fosse morada dentro daquela saleta imunda de cheiro nauseante. Persistiam os sons, que de acordo com nossa freqüência, se tornavam cada vez mais insignificantes, mas, por breves segundos, um pouco presentes dentro de uma nova experiência... E ele como quem sabe muito bem ler a cartilha, não falou mais nada e apenas me tomou como um gigante, me abordando com pressa, sem cautela... Me levando o rosto a perto de uma fenda, perto da porta ao lado, me fazendo entender que era esse o universo que eu escolhera viver em uma propulsão de gozo e imoralidade que eu gostava e nauseavam como o cheiro de merda do vazo entupido. Não era eu. Era o banheiro em sua infinitude de bactérias e sulcos me esperando para me entorpecer e guardar de todos os chás que algum chapeleiro pudesse me dar. Era agora Alice e Vado era forte e machucou um pouco a minha bunda. Sua agressividade, entrada e violência, mão em meu peito e corpo, depois que cuspiu na minha nuca, caída no chão com o meu corpo sujo e de calças arriadas, levou a minha carteira e alma para uma pista de dança a procura de mais clientes. Havia escuridão. Sabia que sons, luzes e cores me chamavam por porta a fora, mas ali decidia ficar em uma homenagem sombria.
Depois disso eu nunca mais o vi. Se soubesse que teria medo por ter me roubado, abriria o meu peito pra ele e diria que poderia até mesmo me roubar a alma, mas que apenas me ligasse de vez em quando ou que me visitasse aqui mesmo, em qualquer horário eu estaria aqui para procurá-lo no meio de suas calças Levis apertando os culhões de ouro que tinha. Lambia cada parte branca e até mesmo suja daquele banheiro como se lambesse Vado. Me ajoelhei em um frenesi que mesclava orações e perversões me fazendo comum a toda aquela colônia de seres pequenos que ali habitam ou habitaram, usando a pia sagrada para entupir narinas com o mágico pó branco. Gritei por solidão buscando seu nome e seu rosto por outros, mas era impar. E aqui, me absorvi e me quietei dentro de minha própria loucura.
Aqui deixei de ter medo de ser homem, aqui deixei de ter medo de ser eu mesmo, de falar com alguém que existisse, aqui deixei de ter medo de perder o emprego e de não poder me sustentar, aqui deixei de ter medo de ser quem eu sou aqui deixei de ter medo de escrever o que penso por entre os sulcos. Descobri, vindo mais aqui, que não havia homens. Ninguém é homem aqui dentro, muitas das vezes, e sem preconceito, diria que noventa por cento que entram aqui não são. Não existe isso de ser homem ou não ser. Sou uma infinitude louca de desejos e possessões que me faz permitido agora a ser o que eu nunca quis ser em uma consciência idiota e preconceituosa. O que havia era um exército a ser formado oficialmente, que já havia instalado fronteiras e fortificações, denominando territórios em séculos de ocupações maciças dentro da sociedade e de mim. Sabia que eles estavam chegando, não por escolha, mas a minha – por escolha doentiamente própria é essa. São eles que são as bases desse universo sempre alvo manchado de merda e todo o tipo de coisas sujas e acho que ali moro. Como uma bactéria que vive e se instala entre coisas alvas e inertes em paredes no meio de desejos e assombros, gemidos masculinos e uivos assexuados, pois há muito tempo me instalei junto com bactérias, germes e microorganismos. Conheço o seu nome. Seu nome é Nilson, trinta e quatro anos, vinte e três centímetros e ativaço. Me instalei ao lado dele na parede em diversos nomes, como uma bactéria carente, procuro atenção, dinheiro, sexo, nome e telefone escrito de rosa e um pouco mais de cigarro. Ainda espero ela sair dos guetos e se tornar oficial, como que a volta de um grande mal, ela ira se levantar oficialmente e ira me destruir por completo, ou me transformar em uma grande borboleta mártir de uma moderna sexualidade que vem se tornando ímpar por causa da deformação do amor e a formação gigante desse mal que cresce como um concreto cravado em penteados cafonas de mulheres que se acham mulheres. É a solidão meu bem, e ela às vezes não vem como o frio, porque o mesmo se cura com agasalhos. A solidão fere e mata pessoas todos os dias como um raio radioativo nocivo.
Então, depois de vários retornos pra cá concluí que pra eu estar feliz, hoje em dia, eu preciso apenas estar constantemente distraído e estar distraído é o que torna qualquer indivíduo socialmente ativo - digo sobre “os normais” que andam em ruas, avenidas, marquises, sorriem e cumprimentam os vizinhos como todos... A ciência já descobriu que qualquer unidade biológica só poder viver por estímulos, qualquer tipo de estimulo, seja o efeito do sol sob a sua pele, ou de qualquer outro fator natural, mas com os humanos são diferentes. Seres humanos precisam mais do que água e luz para sobreviver e o que o coletivo chama de “viver” é estar “sociavelmente bem com tudo e com todos”? Muitos se acham “socialmente ativos” ajudando os outros a terem direitos, a ter comida, a ter educação e uma série de outras coisas... Mas como alguém que se odeia vai pensar em alguém? Como alguém que não tem vontade de viver e que vive como um verme quer ajudar alguém a se arrastar assim como ele a ser como um verme, pois se é assim que acha que se compreende esse jogo chamado vida nessa esfera? Até porque as características daqueles que são pessoas normais estão associadas a padrões e não ao que eu realmente se quer ser ou fazer. Mas ninguém me ajuda no que eu quero, e o que eu quero é apenas ter prazer, aliás, ninguém ajuda ninguém a tê-lo porque o mesmo é egoísta e vive em uma espera louca de troca e recebe como uma bilheteira prostitua de um estádio de futebol. Esqueço dessas falácias e apenas me concentro a tentar encontrar Vado de novo. Preciso de Vado. Vado no banheiro. Vado na minha cama no meu quarto comendo o meu rabo. Não preciso de nada, apenas de Vado. Depois daquilo tudo, nunca mais consegui sequer revelo em qualquer circunstância de consciência.
Lavo compulsivamente as mãos. Tomo atitudes incoerentes e repentinas que me fazem aqui jaziguado como um transtorno obsessivo sem culpa.Tento passar a imagem de que vim aqui e já vou, mas sabem que fico aqui por horas, e que se deixassem, ficaria por aqui por dias. Olho em disfarce, para o reluz de minha própria imagem em imagens em luzes de um conhecido espelho sabendo que já fiz muitas coisas com um espelho de banheiro, me resta ainda perguntas que me machucavam no que ainda faltava fazer. De pulsos calejados e várias partes mutiladas em tipos e retenções de alívios diferentes, não tenho respostas as freqüentes perguntas que a minha mente faz correlação a espelhos e punições. Procuro a porta mais próxima do vaso pra fazer a cena do “acabei de cagar”, que já é conhecida por muito, que em seguida vem a observação do espelho seguida de uma longa e demorada lavagem de mãos, que vivem constantemente enrugadas por uma atitude, digamos, “obsessiva”? Me seduzo por segundos com homens idiotas, pessoas estranhas e gente de todo tipo e formato inparticular que guardava entre o zíper e a cueca... Muitos me conhecem, mas se afastam, pois sabem de certo o que eu procuro quando aqui me instalo e fico como os outros nomes e desenhos que decoram, o que digo hoje em dia, ser a minha sala de estar, meu deleite como uma televisão doentia de um mundo solitário. Pra tudo eu tenho um cálculo aqui e já tenho de certa forma calculado para tentar achar uma brecha, um ponto sequer que dê mais um pouco de sede a minha libido e pela qüinquagésima vez eu lavo as minha mãos, que aparentam ter um pouco mais de alergia por causa desses tipos de detergentes vagabundos que usam nessas merdas. Sou um cara a procura de outro cara, sou um cara que precisa ver um pênis essa noite para poder descansar.Queria ver um cabeçudo. Um chatinho ou até mesmo uma veiazinha pra fora... Qualquer merda que me faça relaxar, na esperança da confraria se assumir e vir pra cá, me estuprando com um prazer que vai me levar a redenção. Tenho certeza, que ela realmente se levantará.
Mas um dia a Confraria dos Machos irá se levantar aqui mesmo, não importa em que circunstância ela virá. O seu marco zero virá daqui e dai não haverá mais sexos. E eu estarei aqui, de pé, em cima do salto e impecável, esperando espermas e homens ao meu deleite, sem me importar com a sociedade e com nada, pois aqui estou cercado do meu mundo, dentro do meu azulejo, cheirando a pinho e bebendo essência de erva-doce. Sei que como uma unidade biológica humana, eu preciso de muito mais do que isso, mas é isso que eu quero, e talvez não seja humano, ou seja, só que da forma que eu quero ser. Eu sou o azulejo branco, o pinho no vazo tentando vencer o cheiro da merda, eu sou líder espiritual dos homens azuis do sulco e de outros que aqui me acham e me tem por igual, dentro desse espaço, eu sou a pia, sou Nilson, Geraldo, Marcelo, Nizete, quase mulher a procura de um macho quente e Luiz, coroão pirocudo a procura de menininhos... Sou todos eles nos lugares em que estão, hora em cima da descarga, hora na porta ou até na porta do vaso... Quero continuar vivendo aqui, de preferência com Vado – que será Tenente Líder máximo do pelotão da Confraria - me currando eternamente me colocando pra morar com ele, onde teremos filhos azuis dentro do sulco, em um outro país desse banheiro imundo ou a procurar por outros que assim também procuram por mim... Talvez... Meu nome já está aqui, é só anotar e me ligar...
Mamãe deve estar morta. Não sei...
No meio a flashes e luzes, e a alguns olhares de ângulos obtusos eu vou entrando por dentro de uma noite suja em um lugar excluso e essencialmente diferenciado. Não ligo mais para estrobos ou exibicionismo em uma pista louca e inerte que cobre mais uma noite vazia de pessoas comuns a mim vestidas de preto. Entro por uma porta que só é transpassada por pessoas de passagem, homens impessoais sempre como uma sociedade posta coloca. Agora, pouco me importa. Passo pela porta apertada e entro em meu paraíso branco e ordinário, com espelhos também ainda se ressaltando alguma coisa mesma que se toca lá fora. Pias, mármores, espaços, sulcos, sulcos, nomes e nomes por entre eles. Aqui é a minha bolha mágica e tem algum tempo que a achei. Venho aqui há algum tempo, mas acho que há pouco tempo, mas há pouco tempo mesmo é que eu realmente achei as verdadeiras noções e formas que esse espaço realmente me proporciona agora.
Sou alto, de feições bem gregas, tenho os cabelos negros ligeiramente compridos e ralos. Tento andar sempre de uma maneira sóbria com cores neutras e desejos muito bem escondidos dentro de uma enorme repressão materna, que vive agora de fraldas geriátricas e não se alimenta sem mim, mas como cansei de atender expectativas, venho aqui atender as minhas necessidades.
Minha roupa sempre cheira a pinho, eucalipto e essência de limão, e esse cheiro não sai facilmente das roupas, mas não me importo mais. Corto marcando o meu braço esquerdo, a dois ou três dedos de altura acima do pulso fazendo um profundo “V” com uma caneta zero sete preta, sem pegar em nenhuma veia até que possa marcar o “V”. Me previno de tudo que me afaste daqui agora. Me previno com pacotes de maços de cigarros, bolinhas - Remédio para dormir. Remédio para ficar quieto. Remédio para prestar atenção na aula. Remédio para dizer “Mamãe eu te amo” antes de ir para a cama... E agora, era esse o remédio do “Cala a boca e escuta a titia Rute”, coisinhas de farmácias - biscoitos, perfumes, papéis higiênicos e uma roupa impecável. Passo horas em pé escorado em uma parede. Aqui já me cortei, quebrei torneiras, vidros, criei cacos e cuspi em minha imagem no espelho. Tentei em desespero deformar a minha cara com as mãos em um gesto de pânico e obsessão, com o sangue do meu pulso escrevi “Tem alguém pra me amar ai?” e depois coloquei o meu telefone. Não houve ninguém aqui para costurar os meus pulsos e sequer para me ligar dizendo: “Tenho casa, cama e vara pra você”. Um faxineiro me jogou dentro da ambulância como um saco e só. Seguranças sempre me puxam para fora agressivamente por ser uma “figurinha” dentro desse espaço e universo-ilha. No outro dia, ou semana, não importa, sempre há um outro espelho limpo cheirando a Veja. Sons e cores permeiam as suas saídas, mas não me importo, pra mim não há barulho, verve ou movimento lá fora... Esqueço de coisas essenciais que possam existir fora desse cubículosso espaço e eu simplesmente esqueço que a rotina daqui é vir rapidamente, ou apenas retocar a maquiagem com cocaína e ir para uma pista de luzes, caçar prazer, sim entendo isso, mas ainda sou eu aqui me olhando no espelho – se é que ainda me coloco como medida de distancia alguma, mas me asseguro de que aqui é o melhor lugar para estar e ficar. Magro, de sangue sujo, esquálido, pálido, desbotado e intrincado, na verdade, instalado perto da bancada de mármore, ao lado da valetinha com os sobressaltos da gilete em que puxam a trilha de coca. No mármore com uma liga de gesso, cimento branco e areia refinada, mas não ali, digo, no meio de dois espaços brancos de cerâmica, que são colados com essa mesma argamassa, liga oriunda de uma difícil fusão e se torna uma camada arenosa, com zero ponto cinqüenta e três milímetros de distância entre uma extremidade cerâmica a outra extremidade cerâmica. Ali é formado um grande vale, para outros é apenas um pequeno sulco, que erroneamente elas chamam e acham que é uma linha branca. Mas não estou preso à argamassa ou a forte liga, na verdade eu estou no sulco e posso até dizer que às vezes eu sou ele. Pra mim também era apenas uma linha branca ou um sulco... Um sulco não. Na verdade ninguém se dá conta, acho que todos pensam que é apenas uma linha branca mesmo, mas na verdade é um sulco. Mas um dia, entrecruzado entre os sulcos em tons de um marrom viscoso que ia atravessando várias extremidades de cerâmicas, um nome e um telefone me puxaram para dentro dele. Do sulco.
Entrei por ele. Por esse número, nome e símbolo. E daí ele pôde me alimentar e me saciar de toda a minha primazia perverssiva. Fui além do que todos podem e por entre eles. Passei a me viciar nesse universo e a freqüentá-lo sempre, não por mera necessidade mais, mais sim por uma obsessão compulsiva e doentia de encontrar o prazer no meio de uma necessidade. Assim misturei-me como em uma baila louca e me envolvi em uma salsa cubana, escorregadia como essência de erva doce e que cheirava a sexo e andava como um eucalipto. Estático de cores e sons avermelhados e marrons. E lembro que onde há água há vida, então aqui eu poderia viver pra sempre, me alimentando com lascas de parede, de rebocos, de restos da lixeira e tomando água da pia. Choro de alívio por isso com a cabeça voltada pra parede. Do sulco.
Na verdade, no sulco é onde se dá o pequeno vale. O pequeno vale está em um grande sulco e ali existem pequenas coisas perversas, bizarras e hediondas e diria até que o inferno é uma composição micro cósmica... Quando é sempre a merda de um vírus que te mata, quando é sempre um espermatozóide fecundando um óvulo que realmente te fode, quando é sempre um câncer que te mata ou até mesmo uma pequena troca malfeita de elétrons no óleo do seu freio pode te fazer perde-lo, e por segundos, quando em uma curva, quando há uma troca de moléculas de uma infusão alcoólica, que ingerida excessivamente, afeta os seus neurônios de forma drástica e precisa na hora da curva se torna fatal. Tudo acontece sem ninguém ver. O inferno é microscópico e não pode ser visto a olho nu e nem por nenhum aparelho conhecido. O mal que vem pra todas as coisas é de todas as coisas pequenas e vem de coisas bem pequenas; O que é mesquinho – propriamente dito - diminuto e completamente impreciso vem de coisas tão pequenas como esses seres que moram nesses vales. E são esses seres que criam os vírus, que edificam células cancerígenas, quebram parafusos, alteram a troca de moléculas e de elétrons de freios de carros. As grandes bombas precisam apenas de algum punhado de átomos... Mas mesmo assim, eu não diria que ali estou ou até mesmo atribuo a mim valores e até mesmo a esse recém descoberto lugar. Troco, com o sulco, elétrons, prazeres, idéias, fluídos, sentidos, cheiros, cores, átomos e ligações elétricas em uma sopa quântica que é misturada com conhaque e prozac e outras coisinhas de farmácia. Acho. Até porque já passei de uma convenção que possa dizer se isso é bom ou mal – se é que eu posso discernir agora essas duas palavras em um fonema ou um significante realmente concreto – Porque esse sulco é um grande vale residual de coisas, cores, sentidos e sobretudo aspectos – E não afirmaria a ninguém, exceto a mim mesmo, que vi pessoas andando naquele sulco e em outros, como que uma vista de cima de uma grande avenida com prédios brancos cerâmica, carros vermelhos sangue, ônibus manchados de marrom com caminhões e pessoas azuis andando com pressa, como espuma de detergente escorrendo. Mas não digo a ninguém, muitas coisas eu não digo a ninguém, mas acho que haverão muitos ainda a observar essa movimentação no sulco. Diria que é um passo a frente na ciência. “A descoberta do micro cosmo consciente”.
Milhares de cientistas, homens lindos e altos com fuzis e emblemas da Confraria e centenas de outros cientistas mais cautelosos, vestidos de jalecos, mascara de gás e aventais de cirurgião iriam com os seus aparelhos tentar ver essas pessoas e coisas, enquanto as pessoas dentro dos sulcos iriam tentar descobrir que olhos enormes são aqueles olhando uma cidade inteira,fazendo grandes espaçonaves para explorar esse fenômenos estranhos e desconhecidos enquanto os médicos e cientistas tentam desenvolver uma nave pra chegar lá sem danificar a cidade, enquanto pequenos falsos profetas nos sulcos dizem que são os “olhos de algum deus pagão os observando”, enquanto eu injeto valium na minha veia, sentado com a bunda no chão sujo, sujando a minha calça de amanhã vir pra cá, rindo de todos dizendo eu falei. Jornais criariam alardes e temores para dentro desse lugar, e ele deixaria um pouco de ser meu pra ser de todos e como que em uma louca seita, várias pessoas venerariam esses seres que também nos venerariam por sermos apenas fisicamente maiores que eles, mesmo sem compreender que a nossa natureza suja ainda está ligada a deles, e que um pedreiro, em descuido por concertar um encanamento, poria vim a toda uma cultura fálica, de nomes e desejos que foram escritos por outros deuses em longínquas instancias de solidão e incompreensão. Apagariam os registros de Vado, de Nilson e até mesmo o meu e fundariam fontes de fio de loucuras e pesquisas.
E há milhares de sulcos aqui! Cada um é uma descoberta fascinante da ciência! Cada um com uma cultura e organização! Cada ponto dele é uma junção de dois entre - espaços brancos de cerâmica nesse gigantesco mundo claustrofóbico! Milhares deles bailando se difundido profundamente, criando políticas internacionais e tratados de religião entre os quadrados brancos – que na verdade se agrupam como continentes ou até mesmo como prédios ou casas - e cada um deles há uma cultura, um ponto de observação, um sistema de observação como uma câmera me vigiando sobre o que eu estou fazendo aqui ou acolá... Cada uma dessas extremidades que se entrecruzam e é um caminho e um ponto que se evolui e se mostra diferentemente peculiar e característico de cada um. Único entre todos, apesar de igual quando olhamos de longe. Cada um com uma espécie de organização diferente e estrutura física também diferente.
A partir dessa descoberta, depois que Vado me fez ver esses espaços de vida aqui dentro, vi verdades que pelo menos pra mim se aplicam como uma luva: Não existe marginalidade porque essa linha simplesmente não existe. Vivemos muitas vezes sobre bases irrisórias de aspectos e convenções. Daqui, da porta para fora nada é real. Me repeti várias vezes e me coloco isso sempre como verdade. Ao ver aqui máscaras caindo e se desfazendo, como a minha, tudo pra mim lá fora se resume aqui dentro, minha visão está dentro deste quadrado branco assim como a de muitos outros homens que pensam também dentro de outros tipos de quadrados e agora vejo que é aqui que poderão se reunir – Em um resolvido futuro das figurativas identidades sexuais – A verdadeira Confraria dos Machos, liderado por Vado, é claro. Talvez seja por isso que eu esteja aqui... Disse uma vez pra alguém que convenção era uma porta que poucos atravessavam, ou se atravessam, olham por ela e depois a tornam a fechá-la como em uma porta de um banheiro masculino. Sempre com um sorriso amarelo no rosto, com um pedido de desculpas recém tirado dos bolsos.
Não existem correias, carros, freios, moedas, modas, luzes, sons, sujos, biscoitos, bolhas, bolas, balas, práticas, políticas, religião ou opinião. Tem sempre um “Eu” que faz tudo e cria outros criadores. Daí se cria grupos que recriam e retomam as vertentes, as valetas e os sulcos de outros pólos e visões de culturas ou criaturas... Mas depois aparece alguma corrente pseudo ortodoxa que retoma as “chamadas” tradições daquela gasta casta, mas nunca é como era, porque o “Eu” que criou aquilo, já morreu há um bom tempo, pois se não tivesse morrido há muito tempo, não deixaria que aquela merda daquela coisa que criou com toda a força do seu egoísmo mudasse. Todas essas movimentações giram em torno de uma unidade que se sobrepõe as outras por ser por si só mais forte e egoísta... Unidade chamada “Eu” que altera, gira constantemente em torno de seu próprio eixo, denomina e impõe vontade. Cria coisas, molda outras e sobrepuja as coisas simples que são somente denominadas de criaturas. E essas que não criam que apenas são criadas, vivem aqui? Talvez. Mas tudo se resume a “o que” realmente se quer caralho... Uma frase me define hoje em dia: Me sinto bem quando me distraio e só me distraio com o que me tira daqui e quando eu saio daqui vejo que tudo é melhor. O que é melhor é sofrível? O que ser quer? Evitar sofrimento? Mas aqui? Como evitar?
Muitos ajudam os outros e acham que são socialmente ativos, mas não sabem que isso é apenas um sinônimo de distração na maioria das vezes... E até sabem, porque pode sair até mais barato que uma psicóloga... Dar atenção a mendigos, comprar sabonetes e cestas básicas para velhos em azilos... Mas será que eles ajudariam os mesmos a ter prazer?
O prazer é egoísta. E quando se tem não se divide e se quer só pra si mesmo.
Tem gente que gosta de ler coisas sobre os outros – sim, isso é uma distração. Tem gente que gosta de ver os outros – outra distração. Tem gente que não gosta de ver gente... Onde está o limite para o prazer então merda?
Limites são convenções idiotas que me fazem temer em parte por várias coisas. Regras são como grandes semáforos ambulantes e apenas te dizem quando parar, se é que é a hora em que se deve parar, isto é, se deve ou não parar... Conheci gente que não tinha mais veia e nem tempo para nada depois de tantas coisas que colocaram para ela usar. Temo muito por causa dessas pequenas coisas, dessas pequenas pessoas, dessas pequenas atividades e gente que não sabe e nem tem noção do que é preciso fazer para se comportar e ter de uma forma diferente – pois como acho e creio, o inferno é formado por coisas pequenas - ou algum tipo de noção de controle, que eu perdi há muito tempo, em uma brecha de memória que eu esqueci quando estava no meio de um caminho tortuoso e tenebroso que se chama lapso.
Tomava coisas redondas que produziam outras coisas desde muito novo. Tenho distúrbios de atenção e concentração desde muito pequeno e tomo vários tipos de remédios pra controlar coisas que eu não tenho muito controle desde cedo. Queria tê-lo, mas acho melhor não. Não agora, não nunca. Aqueles que o tomam sempre acabam me comprometendo a não ser quem eu sempre fui ou pretendia ser. Pílulas para dormir, para acordar, para estudar, para ler, para escrever, para sentar e dizer te amo mamãe... Descobri que em parte todas elas vinham do sulco. Tudo veio por eles, construído mais tecnicamente dentro de suas cidades onde uma tecnologia mais avançada pode produzir mais e mais barbitúricos eficazes que podem controlar mais e mais indivíduos, até que vai chegar o dia em que eles realmente saíram do sulco e controlaram a maior parte de produção de desejo da terra. Mas hoje em dia quando é um bom dia, um daqueles que o mundo sorri e lhe presenteia com um bom trocado que lhe rende a compra de um bom barato, tirava onda na pia trilhando várias coisas e depois via meu nariz escorrendo pelo espelho, mas sempre rindo. Faço de tudo...
Conheci, uma vez aqui mesmo, um homem que se tornou mendigo porque gostava de ver as pessoas conversando na rua.
- Desde muito tempo meu filho, eu sempre gostei de ver pessoas andando e conversando na rua – Me dizia enquanto eu vestia as minhas calças – Mas chegou um dia que eu sai do meu trabalho, que a partir daquele dia não era mais meu, sentei num banco da praça e apenas admirei as pessoas andando, comprando coisas na banquinha de doces, vendo e falando da vida, esperando ônibus, carros, Kombi ou Vans... A cada hora, sempre uma pessoa nova, a cada hora uma nova coisa pra se ver... E quando eu vi, eu estava sempre esperando alguém ali.
Me contou da Dulce, que tinha sido traída pelo próprio sobrinho enquanto ia trabalhar, me contou a história de Marina, uma garota de quatorze anos que vivia debaixo de sua peleja e que era puta e que tinha Aids por ter pego do padrasto. A vida não dá trégua a quem vive nesses vales. Dei o pacote de cigarros e acreditei nele. Acredito em muita coisa depois que passei a habitar em um espaço que existe em todos os lugares, das mais diversas formas e das mais diversas cores e cheiros... Mas não disse a ele como eu fim parar aqui... Apenas lhe paguei o preço continuei de pé enquanto ele voltava em busca de sobrevivência, acho. Talvez se fosse criada uma seita de “observadores urbanos”, talvez assim fosse considerado um sujeito completamente normal dentro de sua esquisitice. Seria criado então um CNPJ? Sei lá... Alguma merda de tipo de cadastro ou registro numérico para a “seita de observadores urbanos” e tudo se tornaria perfeitamente normal. O que faz uma coisa deixar de ser estranha, é quando se há um controle de uma espécie de “consenso normal” para ela subsistir. Haveriam então postos de observação legalizados por um órgão ou governo competente, sustentados por praticantes desta seita que pagariam mensalmente por novos vídeos ou acessos a essas cabines, situadas e legalizadas por uma cidade que criaria fatores e fatos simples para incluí-la como referência de cidade e de ponto de observação em forma de pequenas cabines, até que esse louco fundador teria sua essência deflagrada e desmascarada para não ser mais ele e sim um coletivo simbiôntico e permissivo de “aspecto normal”.
Depois que o rapaz se foi me peguei em devaneios a pensar em Vado e ainda me recordo de como foi... Que eu entrei aqui...
Como sempre entrei impecável, depois de um árduo dia de trabalho, entro sem perceber ainda nada, entro sem notar coisas e objetos. Apenas por uma necessidade básica vinha aqui...
Minha cabeça ainda pensava em papéis, corte nos gastos da empresa e coisas que sempre me faziam perder. A puta da minha chefa falando em meu ouvido claramente que “cortes haveria, mas cabe ter o bom senso do profissionalismo de ainda prezar o bom trabalho e o campo profissional para ainda concluir, como uma grande equipe”. Queria saber onde está a grande equipe quando eu me fodo de insônia durante a noite. Queria saber onde está a equipe que não me chama para participar das confraternizações do final de ano quando eu fico só, cuidando das fraldas da minha mãe.
Minha mãe vive agora em uma bolha de sofrimento, não como a minha, mas minha mãe espera ainda como eu por uma espécie de equipe de salvação, como a confraria dos machos. Como um boneco vive em uma cama que a dá conforto, escaras, e uma paralisia inconformada por causa de um AVC. Sou responsável por ela agora. A mantenho viva, pois não posso apenas alivia-la com dar um stop em um filme de sofrimento e desilusão. A vida nunca foi o que a minha mãe esperava e eu não era e nunca serei o que ela esperava de mim, mas não posso privá-la disso tudo, não posso dar o que ele pede sempre todos os dias: O simples descanso de não sentir mais nada e dormir para sempre. Ainda não se deram conta de que viver faz parte de uma infinitude gama de prazeres que ela não, mas desfrutava, porque pra muitos viver faz parte de uma orquestração sádica e desumana. Esperava sua morte chegar dentro de fraldas geriátricas e gemidos constantes, que eram divididos comigo e com uma enfermeira, contratada a estar quando eu estou aqui... Onde está a equipe que pode me compreender quando eu preciso de muito auxilio, com minha insônia e minha insatisfação. A equipe foi feita apenas para fuder com os outros. A equipe foi feita apenas para ilustrar um chefe, elegendo um macaco muito bem treinado que fica com o culhão na mesa com o chicote invisível lhe fazendo perguntas e exigindo formulários, horário e trabalhos “mais assíduos”. Sempre fez parte de mim as folhas de ponto, os cartões de saída na hora do almoço, protocolos administrativos, as cotas e cotações e era isso que a empresa queria, homens máquina pra fazer parte de uma equipe disposta a querer comer seu fígado todo dia em forma de dinheiro e status dentro de metros quadrados.
Somos gado atravessando um semáforo com um chicote nos ombros e marcas no rosto. Somos formigas que exigem papéis, carência e solidão que são marcas imperceptíveis dentro da sociedade “normal”. Tudo acaba virando números, processos, procuras, trocas, gastos, roupas e souvenires... Sim meu amor, a vida a um grande souvenir me diria meu ouvido, Rute:
- Às vezes eu tenho muito medo de mim Rute – Disse tragando fundo um cigarro preto e fedorento que tomava a sala com a minha indiscreta pose, agora meio afeminada.
- Temo pela minha morte, mas poucos sabem o quanto a desejo, achei que era eu apenas querendo fugir de tudo e entrar em uma bolha meio quadrada na qual o tempo não passa e eu sempre tenho tempo suficiente de fazer tudo o que eu quero, mas acho que sou eu a maioria das vezes, sabe?
- Você toma algum tipo de estimulador de humor? Não sei... Eu valo em um âmbito geral...
- Acho que tudo pode estimular o nosso humor Rute... Desde o cafezinho a um bagulinho noturno... Considero estimulo tudo que me alivia de uma sensação, talvez, real de desconforto... A realidade te desconforta Rute? Então eu sempre estou desconfortável...
- Te acho engraçado sabia?
(Sorri com um ar de deboche)
- Engraçado porque? Eu não tenho senso do humor...
- Você me fala de coisas completamente atípicas em volta de uma aura de uma ideologia utópica. Mas você sofre de coisas que são comuns a várias...
- Pessoas? Não existem pessoas. Existem médicos, irmãos, crentes, políticos, budistas, macumbeiros, homoafetivos... Deixamos de ser pessoas com simples opções e criamos rótulos idiotas para classificar o que é peculiar caracterizando seres humanos com adjetivos. Todos temos adjetivos e seremos estranhos e iguais a um outro grupo que possa pensar da mesma forma que nós... Ai então criamos grupos, efeitos, protestos, pessoas reivindicando o direito de ser como assim desejam fugindo de um agrupamento que possa associa-lo e trata-lo pseudamente como um indivíduo normal, mas fogem mais ainda simulando uma realidade que parece ser libertadora, mas por si só já é alterada. Não deveriam existir cinemas para homoafetivos, clubes para cegos e entre outras coisas classificatórias... Então, assim como abandonamos uma noção de ética há séculos atrás e a disfarçamos em uma aura religiosa, por causa da solidão ou porque perdemos o controle? Não sei... Você sabe Rute?
- Não sei. A utopia é sua. A idéia é sua. Creio que uma noção sociológica que pouco tem a ver com a causa real do seu tratamento. Creio que estamos sendo superficiais continuando a conversar sobre as suas idéias que partem para um concreto muito mais grosso do que você está me mostrando.Você não me fala mais de você. Ta vendo... Vem você querendo me catequizar de novo. Acredito que seres humanos precisam viver em grupos...
- Já vivemos em grupos Rute. Nos agrupamos para ir trabalhar. Nos agrupamos no trabalho, nos agrupamos indo trabalhar, nos agrupamos voltando do trabalho, nos agrupamos em várias outras ocasiões... Eu só gostaria de saber quem criou essa distância de pedra que nos faz agora parar de nos comunicarmos livremente uns com os outros... Eu venho aqui para entender isso Rute! Eu tenho a resposta, mas gostaria de ensina-la há muitas e muitas pessoas...
- A quanto tempo toma psicotrópicos pesados?
- Não sei, acho que desde que nasci. Não tenho tempo de pensar em mim, eu apenas penso no que os outros pensam de mim sabe? È o efeito disso tudo que não me deixa ser o que realmente quero. Não me deixam fazer nada do que eu realmente quero fazer comigo, pois se fizer, não tenho emprego e todos iram me incomodar... Gente que eu não conheço ira me incomodar, sabe? Acho que eu perco com essas armadilhas que aprontam comigo.Acho que perco por pensar em perder e quase sempre não entro em nada... Crio soluções mágicas pra tudo...
- Como o quê?
- Como ganhar na mega sena. Abrir um banheiro público só pra mim, explodir coisas, deixar o cabelo crescer mais ainda, arrumar algum macho decente pra mim que não me coloque chifres e nem muito menos aids e em fazer bandas de rock fantasmas que do nada que fazem sucesso. Como ser um escritor famoso sem escrever uma linha... Essas coisas sabe... Acho ainda que serei um super-herói,não sei. – Acendo um outro cigarro preto e fedorento.
- E você... Atribui isso a que?
- A massificação da obrigação que essa sociedade moderna tem de atribuir valores e status aos outros. A gente tem sempre que ser alguma merda de coisa... E eu nunca quis ser nada. Preciso de pouco pra sobreviver e preciso de muito menos pra me contentar com alguma coisa... Acho isso... Sempre me perguntaram o que eu queria ser quando eu crescer...
- E o que você respondia...
- Até os meus dez anos eu não respondia nada... Mas depois minha mãe me falava que era feio não responder nada, ai eu passei a dizer que ia ser advogado como os meus pais, embora o meu pai ainda estivesse em casa...
- E hoje, o que você é ou almeja ser? A propósito, está tomando os remédios que eu lhe receitei?
- Nada. Não quero ser nada Rute... E às vezes eu tomo sim, os remédios... Trabalho em um emprego massificante que me sufoca até o meu talo. Vivo em uma corda bamba e a qualquer momento posso perdê-lo... Mas um dia se levantará a Confraria e eu estarei ao lado de Vado...
Sorri levemente dando uma idéia sem noção a ela... Mas contei sobre a Confraria.
Voltando pra cá, para a pia e para os sulcos.
Um dia, dentro de um banheiro, quando não havia esperança nem voz no meu ombro, tentei ligar de novo para um ouvido que eu alugo por cinqüenta reais a consulta um dia na semana, liguei para minha psicóloga Rute... Há alguns dias, anos talvez... Eu regularmente não dormia, tinha grandes e maiores espaços de sono que não compreendia... Dormia na condução, dormia no escritório, dormia enquanto os outros falavam mas não dormia onde eu deveria realmente dormir, que era em minha casa, na minha cama... Então, em um banheiro, liguei para o meu ouvido.
- Chega, de me falar isso Rute...
- Até que ponto você quer que eu chegue com esse história toda que você me contou? Você está sempre me falando como louco sobre nomes, idéias e mictórios e o que eu posso concluir disso tudo e desse ponto é que você não está tomando a medicação que eu lhe receitei!
- Eu não quero chegar a ponto nenhum, eu apenas estou me sentindo só, eu queria tomar cerveja com alguém e coisa e tal...
- Eu não bebo...
- Eu sei, eu tomo e você me escuta só isso...
- Eu não me envolvo com meus pacientes e é anti profissional eu me envolver com algum paciente meu fora do meu escritório...
- Rute, eu não estou te chamando para um motel, para fuder com você... Eu não quero te comer. Não quero meter piru nessa sua buceta velha... Eu quero alguém pra poder conversar.
- Cale a boca...
- Rute, me deixa falar com você...
- Cale a boca... Você já tomou seu remédio?
- Não Rute, não...
- Toma então... Daqui a pouco você me liga...
Remédio para dormir. Remédio para ficar quieto. Remédio para prestar atenção na aula. Remédio para dizer “Mamãe eu te amo” antes de ir para a cama... E agora, era esse o remédio do “Cala a boca e escuta a titia Rute”. E acho que vou ter que procurar um outro ouvido...
Engoli dois comprimidos e me esforcei pra urinar no mictório. Sempre pensava em jorros de água, em barulhos para fazer isso, mas não conseguia, simplesmente não conseguia urinar em mictórios... Mas todos os vazos dali estavam entupidos com merda e a porta de um dos que estavam bons, estava quebrada, então infelizmente, vinha o martírio do mictório.
Enquanto urinava no mictório e fechava o vidro de comprimidos, prestei atenção em um recado que quase recobri a parte de cima do azulejo, quase escrito no teto, muito em cima mesmo... Quase indo para parede em uma área que recobre e redobra e ocupa vários espaços de sulcos e azulejos...
“Vado 9977-7799”
O começo de tudo foi Vado... Me entreguei aquele signo por completo... Compreendi que não era um nome apenas, se tratava formalmente de um pedido de socorro de um homem desesperado como eu. Por se tratar de estar sendo escrito de uma forma distante e de difícil acesso até porque, ele teve que praticamente subir por entre os mármores das colunas que dividiam o mictório pra colocar apenas um recado louco e insano que se pronunciava como uma corneta do inferno pelas entrelinhas... “Eu tenho telefone. Mas não tenho com quem conversar”. Assim como eu. Se é que existia esse teoria ridícula que teima em querer lhe colocar um “eu” padrão como referência a se conhecer alguém. Goste ou não, o ser humano se relacionava restritamente por interesse e aceitava isso desde então e tudo se confirmou aqui.
Meus olhos se fixaram por essa mensagem. Imaginava Vado, alucinado como eu por causa dos carros, doente por esbarrar em pessoas sem conhecê-las, doente por se espremer a homens fortes dentro de conduções que só lhe querem por agressão e ignorância... Imagino Vado agora, se esforçando em equilíbrio, físico e mental para colocar em uma área perigosa, entre o banheiro e entre os sulcos, um recado que poderia lhe dar o inferno dentro de sua casa, em forma de um michê para lhe comer, roubar e matar como se mata um cão... Imagino Vado, solitário, inconseqüente e louco por uma pessoa e um objeto que o faça sair de sua loucura... Imagino Vado, lindo, pelado, com seu corpo pedindo o meu e me querendo dentro desse inferno podre em higiene... Me tomando em devaneios e loucuras enquanto eu sussurro como uma criançinha que ele me achou...
Quando acordei, era mictório gozado, olhos fechados e ainda, solidão, muita solidão. Minha cabeça havia pendido para cima, olhando o nome de Vado por muito tempo... Eu não me dei conta, estava por horas fixo em meus devaneios procurando razões e soluções pra mim e para Vado. Liguei:
- Oi... Oi...
- Quem ta falando – Uma voz grave como que me oprimindo me rompe no telefone.
- Vado?
- É ele mesmo... Quem ta falando?
- Bom... Eu vi seu telefone no banheiro e achei que estivesse sozinho...
- Onde é que você está?
- Estou no banheiro...
Foi apenas questão de tempo e pude conhecê-lo com mais alguns quatro olhares passados pela sua desconfiança natural como de um caçador... Ele era como um tanque. Era lindo, e não havia ninguém ali. Eu e o tanque ali... E ninguém mesmo... Como em um pronto socorro ele veio depois de algumas horas que eu o procurei, no escuro, sozinho, ao lado da valetinha de mármore onde estou agora. Não pensei que viria e achava loucura o que havia feito bom, loucura por loucura é se repetir em uma rotina que não lhe foi posta e sim apenas lhe confinada como que uma prova de que continuar é melhor do que desistir. Quando ele entrou foi mágico, tinha cabelos como uma camurça, mas ainda sim dava pra perceber que a coloração predominante na “penugem” que cobria o seu crânio era mesclada com alguns tons levemente grisalhos. Sua passada era firme e decisiva dentro do banheiro. Se vestia socialmente como eu e exalava a perigo e desconfiança. Imaginava um homem magro e esquálido como eu, mas era forte e alto e não havia algum tipo de ternura em seu semblante, por isso, no principio, pensei que era um criminoso ou um traficante – o que não seria uma desagradável surpresa também - mas depois em um outro breve olhar percebi que não, estava apenas se certificando, não como eu, que tudo aquilo não era uma cilada, mas entrou decidido, como um colosso entrando em um circo de espetáculos romano antigo, procurando por um leão ou por um gladiador famigerado a procura de...
- Foi você que me ligou?
- Eu?
- É...
Por um momento ele me olha. Meio que me cheirando a distância, como uma fera ou um animal que sabe quem procura ou quem é a sua caça pelo simples sentido olfativo. Ele me estende a mão e me pede desculpas pela forma a qual entrara. Sabe como é, me disse, existem muitos trotes e gente tentando me cercar sempre... E eu estou cansado de pessoas em volta de mim e não realmente me cercarem, pensei, mas não disse por medo de me parecer idiota, mas ainda sim, estendi aliviado a mão.
- É... Fui eu que te liguei...
- E ai, qual vai ser... – Me indagava com um sorriso safado nos olhos.
Abriu uma porta escura e fria em sua frente e eu apenas abria a minha boca e me fechei dentro de uma estranha falta de luz que cobria de negro todos os azulejos e iluminava os sulcos, mas que ainda sim reluzia as fendas e frestas da porta do banheiro, como que se o proibido fosse morada dentro daquela saleta imunda de cheiro nauseante. Persistiam os sons, que de acordo com nossa freqüência, se tornavam cada vez mais insignificantes, mas, por breves segundos, um pouco presentes dentro de uma nova experiência... E ele como quem sabe muito bem ler a cartilha, não falou mais nada e apenas me tomou como um gigante, me abordando com pressa, sem cautela... Me levando o rosto a perto de uma fenda, perto da porta ao lado, me fazendo entender que era esse o universo que eu escolhera viver em uma propulsão de gozo e imoralidade que eu gostava e nauseavam como o cheiro de merda do vazo entupido. Não era eu. Era o banheiro em sua infinitude de bactérias e sulcos me esperando para me entorpecer e guardar de todos os chás que algum chapeleiro pudesse me dar. Era agora Alice e Vado era forte e machucou um pouco a minha bunda. Sua agressividade, entrada e violência, mão em meu peito e corpo, depois que cuspiu na minha nuca, caída no chão com o meu corpo sujo e de calças arriadas, levou a minha carteira e alma para uma pista de dança a procura de mais clientes. Havia escuridão. Sabia que sons, luzes e cores me chamavam por porta a fora, mas ali decidia ficar em uma homenagem sombria.
Depois disso eu nunca mais o vi. Se soubesse que teria medo por ter me roubado, abriria o meu peito pra ele e diria que poderia até mesmo me roubar a alma, mas que apenas me ligasse de vez em quando ou que me visitasse aqui mesmo, em qualquer horário eu estaria aqui para procurá-lo no meio de suas calças Levis apertando os culhões de ouro que tinha. Lambia cada parte branca e até mesmo suja daquele banheiro como se lambesse Vado. Me ajoelhei em um frenesi que mesclava orações e perversões me fazendo comum a toda aquela colônia de seres pequenos que ali habitam ou habitaram, usando a pia sagrada para entupir narinas com o mágico pó branco. Gritei por solidão buscando seu nome e seu rosto por outros, mas era impar. E aqui, me absorvi e me quietei dentro de minha própria loucura.
Aqui deixei de ter medo de ser homem, aqui deixei de ter medo de ser eu mesmo, de falar com alguém que existisse, aqui deixei de ter medo de perder o emprego e de não poder me sustentar, aqui deixei de ter medo de ser quem eu sou aqui deixei de ter medo de escrever o que penso por entre os sulcos. Descobri, vindo mais aqui, que não havia homens. Ninguém é homem aqui dentro, muitas das vezes, e sem preconceito, diria que noventa por cento que entram aqui não são. Não existe isso de ser homem ou não ser. Sou uma infinitude louca de desejos e possessões que me faz permitido agora a ser o que eu nunca quis ser em uma consciência idiota e preconceituosa. O que havia era um exército a ser formado oficialmente, que já havia instalado fronteiras e fortificações, denominando territórios em séculos de ocupações maciças dentro da sociedade e de mim. Sabia que eles estavam chegando, não por escolha, mas a minha – por escolha doentiamente própria é essa. São eles que são as bases desse universo sempre alvo manchado de merda e todo o tipo de coisas sujas e acho que ali moro. Como uma bactéria que vive e se instala entre coisas alvas e inertes em paredes no meio de desejos e assombros, gemidos masculinos e uivos assexuados, pois há muito tempo me instalei junto com bactérias, germes e microorganismos. Conheço o seu nome. Seu nome é Nilson, trinta e quatro anos, vinte e três centímetros e ativaço. Me instalei ao lado dele na parede em diversos nomes, como uma bactéria carente, procuro atenção, dinheiro, sexo, nome e telefone escrito de rosa e um pouco mais de cigarro. Ainda espero ela sair dos guetos e se tornar oficial, como que a volta de um grande mal, ela ira se levantar oficialmente e ira me destruir por completo, ou me transformar em uma grande borboleta mártir de uma moderna sexualidade que vem se tornando ímpar por causa da deformação do amor e a formação gigante desse mal que cresce como um concreto cravado em penteados cafonas de mulheres que se acham mulheres. É a solidão meu bem, e ela às vezes não vem como o frio, porque o mesmo se cura com agasalhos. A solidão fere e mata pessoas todos os dias como um raio radioativo nocivo.
Então, depois de vários retornos pra cá concluí que pra eu estar feliz, hoje em dia, eu preciso apenas estar constantemente distraído e estar distraído é o que torna qualquer indivíduo socialmente ativo - digo sobre “os normais” que andam em ruas, avenidas, marquises, sorriem e cumprimentam os vizinhos como todos... A ciência já descobriu que qualquer unidade biológica só poder viver por estímulos, qualquer tipo de estimulo, seja o efeito do sol sob a sua pele, ou de qualquer outro fator natural, mas com os humanos são diferentes. Seres humanos precisam mais do que água e luz para sobreviver e o que o coletivo chama de “viver” é estar “sociavelmente bem com tudo e com todos”? Muitos se acham “socialmente ativos” ajudando os outros a terem direitos, a ter comida, a ter educação e uma série de outras coisas... Mas como alguém que se odeia vai pensar em alguém? Como alguém que não tem vontade de viver e que vive como um verme quer ajudar alguém a se arrastar assim como ele a ser como um verme, pois se é assim que acha que se compreende esse jogo chamado vida nessa esfera? Até porque as características daqueles que são pessoas normais estão associadas a padrões e não ao que eu realmente se quer ser ou fazer. Mas ninguém me ajuda no que eu quero, e o que eu quero é apenas ter prazer, aliás, ninguém ajuda ninguém a tê-lo porque o mesmo é egoísta e vive em uma espera louca de troca e recebe como uma bilheteira prostitua de um estádio de futebol. Esqueço dessas falácias e apenas me concentro a tentar encontrar Vado de novo. Preciso de Vado. Vado no banheiro. Vado na minha cama no meu quarto comendo o meu rabo. Não preciso de nada, apenas de Vado. Depois daquilo tudo, nunca mais consegui sequer revelo em qualquer circunstância de consciência.
Lavo compulsivamente as mãos. Tomo atitudes incoerentes e repentinas que me fazem aqui jaziguado como um transtorno obsessivo sem culpa.Tento passar a imagem de que vim aqui e já vou, mas sabem que fico aqui por horas, e que se deixassem, ficaria por aqui por dias. Olho em disfarce, para o reluz de minha própria imagem em imagens em luzes de um conhecido espelho sabendo que já fiz muitas coisas com um espelho de banheiro, me resta ainda perguntas que me machucavam no que ainda faltava fazer. De pulsos calejados e várias partes mutiladas em tipos e retenções de alívios diferentes, não tenho respostas as freqüentes perguntas que a minha mente faz correlação a espelhos e punições. Procuro a porta mais próxima do vaso pra fazer a cena do “acabei de cagar”, que já é conhecida por muito, que em seguida vem a observação do espelho seguida de uma longa e demorada lavagem de mãos, que vivem constantemente enrugadas por uma atitude, digamos, “obsessiva”? Me seduzo por segundos com homens idiotas, pessoas estranhas e gente de todo tipo e formato inparticular que guardava entre o zíper e a cueca... Muitos me conhecem, mas se afastam, pois sabem de certo o que eu procuro quando aqui me instalo e fico como os outros nomes e desenhos que decoram, o que digo hoje em dia, ser a minha sala de estar, meu deleite como uma televisão doentia de um mundo solitário. Pra tudo eu tenho um cálculo aqui e já tenho de certa forma calculado para tentar achar uma brecha, um ponto sequer que dê mais um pouco de sede a minha libido e pela qüinquagésima vez eu lavo as minha mãos, que aparentam ter um pouco mais de alergia por causa desses tipos de detergentes vagabundos que usam nessas merdas. Sou um cara a procura de outro cara, sou um cara que precisa ver um pênis essa noite para poder descansar.Queria ver um cabeçudo. Um chatinho ou até mesmo uma veiazinha pra fora... Qualquer merda que me faça relaxar, na esperança da confraria se assumir e vir pra cá, me estuprando com um prazer que vai me levar a redenção. Tenho certeza, que ela realmente se levantará.
Mas um dia a Confraria dos Machos irá se levantar aqui mesmo, não importa em que circunstância ela virá. O seu marco zero virá daqui e dai não haverá mais sexos. E eu estarei aqui, de pé, em cima do salto e impecável, esperando espermas e homens ao meu deleite, sem me importar com a sociedade e com nada, pois aqui estou cercado do meu mundo, dentro do meu azulejo, cheirando a pinho e bebendo essência de erva-doce. Sei que como uma unidade biológica humana, eu preciso de muito mais do que isso, mas é isso que eu quero, e talvez não seja humano, ou seja, só que da forma que eu quero ser. Eu sou o azulejo branco, o pinho no vazo tentando vencer o cheiro da merda, eu sou líder espiritual dos homens azuis do sulco e de outros que aqui me acham e me tem por igual, dentro desse espaço, eu sou a pia, sou Nilson, Geraldo, Marcelo, Nizete, quase mulher a procura de um macho quente e Luiz, coroão pirocudo a procura de menininhos... Sou todos eles nos lugares em que estão, hora em cima da descarga, hora na porta ou até na porta do vaso... Quero continuar vivendo aqui, de preferência com Vado – que será Tenente Líder máximo do pelotão da Confraria - me currando eternamente me colocando pra morar com ele, onde teremos filhos azuis dentro do sulco, em um outro país desse banheiro imundo ou a procurar por outros que assim também procuram por mim... Talvez... Meu nome já está aqui, é só anotar e me ligar...
Mamãe deve estar morta. Não sei...
sábado, 30 de junho de 2007
Bom, eu estou começando a escrever um livro meio autobiográfico.. Esse é um trecho do primeiro capitulo...
Quero ouvir críticas, opiniões e sugestões, ok?
Capitulo № 1
“Eu sei, mas quero ouvir”...
“E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela. Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais. E ouviram a voz do SENHOR Deus, que passeava no jardim pela viração do dia; e esconderam-se Adão e sua mulher da presença do SENHOR Deus, entre as árvores do jardim.
E chamou o SENHOR Deus a Adão, e disse-lhe:
Onde estás? E ele disse: Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me.
E Deus disse: Quem te mostrou que estavas nu? Comeste tu da árvore de que te ordenei que não comesses?
Então disse Adão: A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi.
E disse o SENHOR Deus à mulher: Por que fizeste isto?
E disse a mulher: A serpente me enganou, e eu comi” Gênesis 3 - 6-13
Lembro que o que era mais doloroso de se começar esse livro era a primeira parte. Há sete anos atrás eu nunca conseguia terminar sequer o primeiro capitulo, mas com esforço, eu consegui. Demorei um ano só para terminar o primeiro capitulo (se para entender o que aconteceu, eu demorei um ano e meio, imagina para falar sobre o que aconteceu). Já tínhamos terminado, mas na minha cabeça, era apenas um tempo que eu estava dando a Viviane para pensar. Até hoje sinto essa noite. Mas ainda bem não é tão mais forte como antes. O primeiro capitulo, até para eu lê-lo hoje em dia é meio pesado, imagina há sete anos atrás, quando eu a amava loucamente.
O desenrolar do nosso término foi meio que sem pé nem cabeça mesmo, pra ser mais sincero o dia do “acabou” foi bem louco e o ponto culminante é narrado abaixo.
No inicio eu só lembrava do estampido surdo em meus ouvidos. Era como se uma gigantesca pedra se chocasse contra um prato de aço estridente. Um prato de bateria. Não ouvia mais carros, ruas ou sirenes que tentavam distrair a resposta que eu queria, enquanto havia chuva:
- Não.
- Por quê?
- Acabou. Não existe isso que você está fazendo agora...
- Isso o quê?
- Se ajoelhar no chão, no meio da rua... Todo mundo passando... Aqui não é São Gonçalo.
- Me ajoelharia até mesmo no inferno que dirá em botafogo...
- Levanta vai
- Não volta
(Segurando agora os meus braços)
- Levanta... Ta todo mundo olhando...
- Foda-se todo mundo! Foda-se! Fui um babaca egoísta até agora, mas percebi que o que me fazia assim era todo o conforto que se segurança que eu tinha e que você me dava... Meu amor, Viviane, eu não sei viver sem você...
- Sabe sim, claro que sabe – me puxava abruptamente os braços - Viveu até agora, como é que agora você não sabe? Anda – ainda me puxava... Como doeu no peito a puxada que ela me dava no braço – Levanta!
(De repente ela larga o meu braço e sai andando normalmente com o guarda chuva na mão)
- Não... Volta... Fica.
- Volta?
Ta chovendo, você não ta vendo.
- Volta amor
- Merda... Ou fode ou sai de cima caralho... Eu tenho que ir embora merda...
- Volta me perdoa...
(E ela foi a passos rápidos sem sequer olhar para trás. Lembro disso até hoje. Nunca me senti tão sozinho como naqueles segundos)
Cai a pedra. Soa o estampido de prato e cada gota era lenta e morosa caindo do céu. Via lentamente atravessando a rua, sem se importar com nada... Indiferente a mim na tempestade, era apenas agora eu na rua. Pra mim, não havia mais carros, pessoas, sinais, buzinas ou qualquer tipo de trânsito que me tirasse a atenção de um lugar em comum que eu nunca tinha entrado. O desespero, a impotência de não poder alterar ou mudar uma coisa que acabou de se destituir. Perdi o meu castelo e minha princesa naquele dia chuvoso que não me deu nenhuma espécie de trégua – “no final de noite eu era lama, embriagues e pânico” – Viviane era a minha motivação a fazer tudo naquele momento da minha vida. Ingressáramos juntos na faculdade, éramos quase da mesma sala “sabe aquele casal de faculdade, era a gente” e a gente sempre estava junto no intervalo. Mas eu não estava mas no intervalo da faculdade e sabia que não queria mais estar lá “coisa que me arrependeria muito mais pra frente”. Mas acho que brevemente naquela noite, eu não saberia nem mesmo como voltar para casa, mas ainda bem voltei.
Via a impassividade dela quando esperava fechar o sinal fechar como se quisesse se livrar de algum ‘desconforto sócio-econômico’, como um mendigo comendo merda ou como uma criança com fome na rua. Infelizmente era apenas eu, ajoelhado no chão feito um babaca, chorando copiosamente em uma movimentada Rua de Botafogo. Esperou o tempo de o sinal abrir, e quando abriu, ela nem sequer me olhou e voltou os olhos. Abriu o sinal, gritei volta, mas ela não olhou. Bati com muita força a estrutura metálica de uma banca de jornal com tanta força, que me abriu o pulso e cortou os meus dedos. Acho que por uma atitude de auto-precaução ela apenas olhou pra trás “afinal de contas, ela tinha e até tem certo vínculo de amizade com a minha mãe, mesmo que afastadas” , mas não refez o seu caminho e nem se preocupou, continuou com um passo ligeiro e uma atitude completamente fria e altiva.
Me passaram vários pensamentos naquele instante...Será que era essa a mulher que eu convivi durante esse tempo? Será que de alguma forma alguém está influenciando ela? Deve ser aquela amiga dela que me detesta... Tinha acabado de acordar do estampido da pedra “literalmente, o choque foi como se algo tivesse me ensurdecido”. Pensei em suicídio, sumir, ir pra algum lugar, mas alguma coisa “ainda bem” me falava para seguir em frente, descontinuado pela incessante chuva que agora caminhava se arrastando por entre os bueiros sujos de Botafogo.
Era como um movimento em preto e branco de cores que eu tive a noção que só via quando eu estava com ela. Tinha perdido minhas ligações de sempre a noite, a minha companheira de vida... Perdi uma grande parte de mim e achava que tinha me perdido também.
Tudo era estranho, sombrio e apático. Era o resumo da noite e do que estava acontecendo e eu não pensava em nada, era desespero, choro, culpa, solidão, convulsão nervosa e remorso naquela noite “Ninguém está deserto a ponto de não ser alvo desta sensação e nem sequer isento de sentir tudo isso. Me lembrei apenas desse fato quando fui Pai. O que senti quando vi a minha filha pela primeira vez foi exatamente isso, uma gama de sentimentos acontecendo ao mesmo tempo, mas graças a Deus foram apenas coisas boas, acho que o que me fez esquecer essa sensação foi o que eu senti quando vi a minha filha pela primeira vez”
Naquela noite eu queria apenas algo para esquecer. Um remédio para não lembrar, ou alguém pra realmente convence-la a voltar de qualquer forma, e me pedir perdão ou pelo menos fazer com que ela realmente ouvisse o meu pedido de perdão, me humilhar e tentar fazê-la a mulher mais feliz do mundo “O que hoje em dia vejo que é impossível. Quando se está determinado (a) a mudar e somos o efeito direto de várias mudanças que vão nos transformando durante a nossa caminhada, esse tipo de “conselho” se torna ineficaz. Não conseguiremos, vejo hoje, fazer ninguém feliz se não estivermos felizes, e se não estamos felizes justamente com as pessoas que nós deveríamos fazê-las felizes, que são aquelas que elegemos para andar junto, é porque há algo de novo mudando dentro de nós. E cabe a cada um, julgar se essa mudança terá um autobenefício, mas no início de nossas principais mudanças, qual não é dolorosa? Mudar machuca, fere e cauteriza várias coisas em nossas vidas, mas são os calos e as cicatrizes que nos fazem mais fortes e sempre é preciso mudar. Um relacionamento sempre deve passar por mudanças pra se adaptar em várias situações”
Mas não havia nada naquela noite a ser feita. Nenhuma saída lógica. O telefone de Viviane estava dando ocupado “provavelmente tirou do gancho” e a chuva apertava cada vez mais. Não havia nenhuma saída lógica exceto para em uma birosca e tentar respirar e ir pra casa, o que talvez fosse o maior obstáculo possível.
Sempre fui muito matuto com relação ao resto de todo o Rio. Nunca tinha pegado até então uma rota interestadual! Meus sonhos nunca conseguiam, às vezes, atravessar uma esquina, ir além de uma boca de fumo ou de uma farmácia. Eram incertos, acho, assim como as minhas pretensões sociais; Nunca quis ser alguém a ser lembrados pelo que conquistou, por grandes méritos ou feitos fabricados em alguma causa fatalista proposital. Queria criar uma comunidade de pessoas que se relacionam em comum pelo que sentem. Pessoas que em comum, percebem que o mundo é esse e que algum sádico de colocou no lugar errado e na hora errada. “Percepção de realidade na maioria é mera intuição e quase sempre é instinto”. Diria-me mais tarde. “Às vezes não somos o que realmente somos e nos trancamos em cadeias de sentimentos e é ai que Deus, vida, mãe, pai e tudo entram em um mesmo saco que tem nas bordas escrito o nome dos seus vícios”. Nunca quis ter todos os amigos do mundo, apenas o que eu realmente pudesse ter. Sempre procurei uma extensão segura do que seria o meu mundo. O meu velho e restrito mundo “freak”. Mundo de cara gordo, negativamente estereotipado pelo resto da escola, desde sempre entregue às zombarias e mazelas que eram feitas a caras que não eram iguais.
E assim, um dia me confessou Viviane que assim sempre era com ela. Talvez fosse porque o Pai era um autônomo e dependia do tempo de da disposição dos outros a comprarem os seus perfumes. Ele era vendedor de perfumes. Batia de porta em porta na procura de alguém que lhe comprassem as suas essências. Era um espanhol que veio ao Brasil a procura de liberdade e sucesso financeiro, mas sempre encontrou luta, peleja, suor e trabalho, mas muito trabalho. Mas nunca desistiu da nada. Nunca turvou sua cabeça e sempre lutou pagando a escola dos filhos com o suor de sua labuta diária de porta em porta vendendo odores e fragrâncias. O trabalho mascate era labutoso, mas sempre acreditava que um dia conseguiria todo o seu intento. Era um europeu de coração grande cheio de esperanças com o nosso pais.
Não era sempre, então, que seu pai conseguia “acompanhar a moda as bonecas e brinquedos” daquela gente. E ela às vezes se via em um mercado de consumo na qual ela não fazia parte. Que várias vezes ela não fazia realmente parte. E ela era muito zombada por isso. Afinal de contas ela era filha don “Espanhol que vendia perfumes de porta em porta”. Ela não era uma linda garotinha confusa, como sempre foi. Ela era assim como eu subjugada e oprimida por um bando de idiotas escrotos que queriam sempre esfola-la com humilhação e vergonha, assim como eu; Então eu pensava: “Ela veio de um mesmo mundo que eu, ela não faz parte dessa esfera estética de pessoas que procuravam um padrão e queriam ser iguais as outras. Ela não é como as outras” Me iludia – Ninguém é eternamente do mesmo jeito que conhecemos. Todos nós passamos por enormes mudanças ao longo de anos, dias, semanas e até mesmo segundos. Podemos mudar uma conjectura com um olhar, com um gesto e até mesmo com uma força interior que pede mudança.
Tinha certeza que assim Deus a tinha colocado em minha vida. Finalmente o pé feio tinha encontrado seu chinelo velho, pensava. Havia então encontrado a minha metade? Mas como ela corria na chuva agora?
Levanto então a minha cabeça repentinamente e me atento a estar dentro de uma birosca. A birosca era suja e decorada com um azulejo português azulado, bastante típico em vários bares do rio. Ovo rosa, Carne Assada de Ontem, Jaleco sujo de gordura, balcão de vidro e um travesti do outro lado que me olhava atentamente. Sentia um cheiro forte de gordura impregnando minha roupa e cabelos. O local era inóspito de pessoas comuns, ou seja a qualquer um que não suportasse aquele cheiro, gosto e sabor de subversão. Via na noite que estava dentro daquele bar as pessoas doentes, homens procurando por violência, trabalhadores alcoólatras, mendigos enganando o sono tentando se distrair para passar a noite e até perdidos como eu, perdidos em um circo sem picadeiro, preso a armadilhas da vida se tornando peças de um quebra cabeças de loucura que são encontradas nesse submundo, mas duvido que algum prêmio seja dado a alguém que realmente monte esse quebra cabeças, talvez seja dado loucura, morte ou esquecimento, se tornando eternamente preso a esse universo, tal como o mendigo, o alcoólatra e o travesti que agora saia do seu lugar de frente ao meu e sentava agora do meu lado. – Mas acho que depois eu aprendi que eu era todas aquelas pessoas naquela noite...
- Oi – Saudava a voz enlatada.
- Quié?
- Calma... Tá nervoso nem? Ta com soninho? Vamo pra minha casa tirar um soninho gostoso, vamo?
Vai toma no cu, seu viado filha da puta. Levantei berrando e trocando as pernas. Um sotaque português me pergunta se eu não ia pagar a cachaça. Jogo uma nota de dez reais, o que suficientemente pagaria duas contas daquela ou até mais.
“Cachaça”. Pensava depois nessa palavra maldição que endemonizava meu pai todas as minhas noites durantes os meus primeiros dez anos. Meu pai a sorvia com interesse e como poucos no bar do Jair, bar que ficava exatamente embaixo do nosso apartamento. Meu pai ficava por horas lá embaixo se deliciando e falando coisas a qual sabia que não havia pessoas instruídas o suficiente que poderiam até então entender. Falava de política e um pouco de filosofia barata e depois alguns bebuns se cutucavam e comentavam “nossa, como o Rogério é inteligente”. Mas meu pai sempre de orelha em pé percebia que eles idiotamente, avaliavam uma cultura inútil que era sempre vomitada por ele, entre uma cachacinha e outra. Depois de tanto alimentar o seu ego com os “matutos”, subia as escadas como se fosse um sacrifício. Cada degrau era um desafio incomensurável para ele. Ele lambia os corrimões com a cara em quase uma queda. Usava um palito marrom claro quadriculado comprado em brechó, seguindo uma tendência que ninguém usava, mas como não tinha dinheiro, assim perdurava em usá-lo. Lembro-me depois que eu tinha medo desse palito marro claro. Tinha até mesmo medo de usá-lo.
Esmurrava a porta pra entrar - ou quando o famoso cachaceiro escora tocava a campainha com ele no ombro. Eu sabia que quando tocavam a campainha em altas horas da noite sabia que era ele, mas que ele não estava sozinho o que era preferível pela minha mãe, pois assim ele batia na cama, em vez dela. Minha mãe abria calada porque eu estava no berço. E assim permanecia para não fomentar mais a fermentação do meu pai. Ele sempre xingava algo desagradável sobre a família da minha mãe. Sempre falava sobre a má sorte de algum tio meu e chamava carinhosamente minha mãe de piranha. Ligava um K-7 de um cantor latino que hoje eu simplesmente não quero realmente recordar. Nunca tomava banho. Tirava os sapatos na sala os jogando com força contra a parede. Gritava em altos pulmões um merda ou um caralho e ia pro quarto. Em seguida se abria a cortina de Awshivtiz em cima das costas da minha mãe. Ele vinha xingando-a como um demente e pulava em cima da cama. Tentava ter relações com a minha mãe e o que sempre se repetia e o que sempre conseguia, pois era homem e forte, mas mesmo que se conseguisse ou não, ele sempre batia nela depois. Esse ritual macabro noturno sempre se repetiu por várias noites. Era um absurdo inconveniente admitido por mim, pois desde os cinco anos fingia dormir para que minha mãe não ficasse preocupada comigo. Não adiantaria a minha intervenção porque ele já fez coisas piores e com a minha ciência. Só ficava pior para a minha mãe que parecia desfalecer quando me via presenciando essas coisas, daí em diante, eu passei a fingir que dormia para não perturbar a minha mãe com sua preocupação comigo. E um dia, como em Blackbird dos Beatles, ela como um melro negro criou azas e voou.
Meu pai era um grande homem. Aliás, a maioria dos grandes homens dessa sociedade escrota é assim. Prepotente, Gananciosos, Estúpidos e Homofóbicos. E por ser esse grande homem ele conseguiu tudo o que queria: Pobreza de espírito, Miséria de alma e uma ex-mulher gorda e varizenta para se encostar e morar no Espírito Santo.
Questiono o que é justiça até hoje pela forma a qual meu pai conduziu a sua vida e pela forma a qual ela foi recompensada e da forma que ela se predestinou. Hoje em dia é um velho encostado em uma aposentada da receita federal com uma pensão gorda, ganhando muito a ponto de mimá-lo com todos e qualquer utensílio de pescaria (que antes era comprado pela minha mãe, que mais para frente seria acusada por ele de tê-lo jogado na sarjeta. “Tenho que agradecer a Deus por Ela ter aparecido na minha vida porque ela me tirou da merda que a sua mãe tinha me colocado”, dizia). Vive hoje à sombra e água fresca a troco de nada como um velho gigolô. Hoje é um velho submisso a uma outra velha por causa do seu óbvio destino: Envelhecer e morrer, mas agora com cautela. Não existiria mais “sarjeta” para Rogério. Tinha uma pensão agora e teria que zelar pela seu relacionamento pois sabia que não teria uma próxima oportunidade daquelas batendo a porta.
Acho que se alguém soubesse dos anos de estupro que meu pai submeteu a minha mãe, por questões de um alcoolismo sem uma aparente explicação, e acho que também nestes casos, não existe nenhum tipo de questão aparente que vá justificar esse tipo de situação e do tanto que apanhou, o fato de ser deixado com todos as mobílias de nosso antigo apartamento e, aliás, como o nosso antigo apartamento, seria muito para um porco como ele. O fato dele ir para a sarjeta foi apenas um rumo natural de todo parasita que sai do sei hospedeiro: Padecer e Morrer. O que acontece é que ele apenas padeceu enquanto o hospedeiro que era a minha mãe, ficou com toda a responsabilidade da casa e da minha vida. Minha mãe assim viveu. Meu pai me impediu de reconhecer o que era justo e o que era injusto na vida, mas sozinho, aprendi a fazer a barba e a ser um homem. Talvez eu não entenda muito como funcionava a questão do que é certo ou errado, assim como outros da minha idade, mas sempre me esforcei a isso, sempre tive uma preocupação em andar correto e meu dilema era “nunca parecer com meu pai”.
Cachaça. Era a palavra condenação que povoava a minha cabeça. Tinha me turvado e me entregado ao sangue que pulsava e pedia para que eu fosse como ele. Meu pai era o monstro que me envolvia quando bebia ou pensava em beber. Pensava sempre em abusos e me envolvia agora em profundidade com um universo novo, assim como Adão supostamente, assim como o falso preceito da serpente dizia, “se tornou como Deus” quando comum e curioso comeu o fruto proibido e assim me tornei como meu Pai. “Todos nós provamos de algo supostamente proibido”. Pensei eu. Mas naquele momento era maior do que isso, eu tinha me tornado como meu pai.
Eu nunca tinha bebido antes. Bebericado uma cerveja uma vez ou outra ainda vai, mas nunca tinha precipitado um copo seque por completo goela a baixa, como os santos da sarjeta fazem. Nunca havia tido o senso do que era algo similar a me embriagar em nada. Fiquei com medo de mim, dos meus pensamentos. Fiquei com medo do aterro do Flamengo e do lapso de razão que me levou a caminhar de Botafogo até aqui, Vi uma guarita de ponto de ônibus e sem pestanejar esperei um pouco até balançar a mão pra qualquer coisa que se movesse até passar por uma roleta.
Vales transportes eram bons isolantes sociais. Eles vinham a conta da passagem e era apenas deixar na banqueta do trocador e sentar em qualquer banco a frente. Sem satisfação ou intimidade, apesar de toda a indiscrição que há em pegar e estar em um ônibus. Minha cabeça era música, sons, luzes no céu... Néon, mercúrio, solidão... Músicas românticas me levavam a chorar de mim mesmo. Ouvi sons parecidos com tambores, freios de carro como cuícas e de repente era hora de descer no recém inaugurado mergulhão e pegar a barca de volta pra minha casa. Casa. Se eu tivesse asa já tinha estado lá desde cedo antes dessa loucura toda... Balbuciava e sorria para o motorista como um demente procurando apoio. Andei apenas. Não ouvi o gracejo do babaca da janela. Me preparava agora para um desafio.
Bêbados tem desafios motores que devem ser deveramente respeitados. Havia na minha frente, naquele momento, uma enorme escadaria, molhada e escoando água como uma cachoeira... Sabia que deveria concentrar toda a minha atenção a simplesmente coordenar as minhas pernas a subir degrau pro degrau, em uma indispensável contemplação de concentração de corrimão. As pernas coordenadamente deveriam estar equilibradas com o meu ponto de apoio, que era meu braço extremamente cansado em um corrimão liso como um cabo de colher lambuzado de manteiga. Pé depois do outro buscando seguro alicerce em cada degrau, e assim ir, degrau por degrau em uma difícil e espaçada labuta pra controlar as pernas e o corpo, não esquecendo de impulsioná-lo sempre para frente puxando com a mão o corrimão, pé depois de outro, buscando segurança e alicerce em cada degrau, puxando em seguida o liso corrimão, Almejando chegar a um lugar mais elevado, buscando a conclusão do objetivo maior. Chegar em casa – Os normais, digo, sóbrios, fazemos esse tipo de coordenação motora sem sequer uma observação ou concentração para ser realizada. Ela acontece instintivamente como que automático a sua ordem e coordenação – Mas para alguém, que não era acostumado a beber e ainda tem a ousadia de dar uma talagada de uma vez só um copo de cachaça, tendo depois uma escadaria daquelas para subir, é no mínimo pedir por morte.
“Acabou. Não vou mais voltar.”
Tudo começou a ficar pior, até uns dias atrás, foi quando eu escutei uma voz grave no celular dela, nós já tínhamos terminado, mas sempre tive a sensação de que Viviane estava guardada no bolso, e que a qualquer momento eu poderia sacá-la e assim aplacar a minha solidão.
- Alô?
- Alô? 9856-5766
- É
- Quem ta falando então?
- Com quem você quer falar?
- Com a dona do celular ora...
- Ela ta ocupada...
- Ocupada? Ocupada com o quê?
- Meu irmão... Você ta enchendo o saco já...
- Enchendo o saco? Vai a merda... Quero falar com a Viviane...
- Porra... Caralho... Ela ta subindo no ônibus agora?
- Quem é você?
- O namorado dela e quem é você?
(Pensei na hora: “O namorado dela há uns dois meses atrás”. Mas achei uma frase escrota a se dizer naquela hora e que a delimitava como se fosse um objeto, com num sentido de posse de coisa.)
- Alô?
- Ta namorando de novo?
(Silêncio)
- A gente sempre se falava a noite, nos mesmo horários mesmo depois que a gente terminou. Sempre nos falávamos na faculdade e sempre você me dizia que sempre você me dizia que sempre pensava em mim...
- Eu sempre “pensava” sim, mas acho que você ainda não entendeu muita coisa...
- Não. Achei que a gente só tava dando um tempo.
- Tempo? Até quando?
- Sempre deixei claro que estaria disposto a voltara hora que você decidisse...
- Você é que não entendeu... Eu não pedi tempo, você me implorou por um, em apenas disse que ia pensar, mas minha decisão eu já tinha tomado...
- Decisão? Que decisão?
- Acabou.
- Mas como acabou Viviane?
- Acabou. Há dois meses e você não sabe disso...
- Mas a gente não parou de se falar...
- Foi amigável lembra? A gente combinou... Tenho que desligar agora.
- Desligar... Porque desligar agora?
- Porque ele está com ciúmes...
- Ele quem?
- Meu namorado.
- Mentira, eu não acredito Viviane... Ta de sacanagem...
O barulho de desligado do celular de Viviane fez meu coração disparar. Ficou um bom tempo descompassado. Tinha vontade de socar o peito, arrancar os cabelos, mal acreditava que antes ela era minha e que agora ela tinha escapado por mim, por entre os meus dedos de uma forma que eu não consigo explicar. Não acreditava em absolutamente nada do que estava acontecendo. “Pode ser algum amigo do curso que ela colocou pra falar no celular para me dar uma incerta... Pra me provocar.”
Mas acho que depois a ficha caiu. Tentei ligar várias vezes para o celular dela. Ou estava ocupado ou desligado. Quanto mais eu quebrava a cara por não conseguir falar com ela, mais eu me colocava em pânico e a falta de comunicação constante que havia agora entre eu e ela me deixava louco, me fazendo correr de um lado para o outro. E eu corria atrás dela. Sondava pistas, rodava escritos, sondava amigos... Mas eram sempre pistas e nada me fazia me trazer para a minha antiga Viviane, que agora era distante e alheia a qualquer coisa que acontecesse comigo. Viviane não era mais Viviane. Viviane era uma pessoa que me driblava, corria de abraços, aproximações de qualquer tipo me dando desculpas, as mais esfarrapadas possíveis. O que eu dizia era lata, papel e ferro para Viviane... Porque tinha ficado tudo opaco e sem valor? Será que nada disso tinha acontecido?
A minha insistência foi patológica e inquieta a todos que me cercavam e quebrava a regra do que realmente era “socialmente aceitável” em uma situação como essas. Chorava várias vezes em público. Perguntava a todos por ela e ninguém se fazia de rogado para me ver me comentar algo como “derrotado” perto de mim. Meu olhavam como eu se estivesse sido vencido e humilhado por alguém. Creio que humilhado sim, mas vencido, nunca. Achava que tudo tinha acabado para mim e que nada ia dar mais certo. Era o que os outros me diziam com os olhos, e era também o que eu aceitava com a minha mente e coração em uma outra profunda falta de auto-conhecimento. Mais uma vez eu era um mero boneco do que os outros achavam de mim: Eu era um derrotado porque os outros já tinham jogado a toalha no chão para mim.Nossos amigos em comum não eram mais os nossos amigos em comum. Eu ligava para eles chorando. Omitiam informações, descasavam dados e pistas de onde ele pudesse estar e até mesmo acha-la. Me humilhava pedindo que eles falassem com ela a meu respeito, pedia para que eles persuadissem ela para voltar para mim. Mas eles eram apenas “amigos” dela, não os meus amigos. Quando ela se foi, era como se um brilho tivesse saído de dentro de mim. Mas eu não sabia que esse brilho nunca tinha realmente desabrochado antes de mim.
Eu já não disfarçava mais o meu pranto e o meu estado confuso de espírito de ter perdido a pessoa que eu mais amava. Eu não me importava com o que eu vestia e da forma como eu me portava perante as outras pessoas. Era uma pessoa amargurada e desesperada procurando por respostas. Chorando pelos cantos e principalmente, aceitando a gongada que em um breve momento, tinha levado. Me perguntavam o que estava acontecendo , mas sempre com a voz embargada dizia que estávamos bem, mas todos sabiam que tudo tinha acabado. Menos eu.
Tentei assim que desci do ônibus ligar para a prima dela. Era a minha possível ultima tentativa de mudar ou tentar mudar o que iminentemente iria acontecer, mas desisti, pois sentia reciprocamente que era total e completa a falta de sintonia que eu tinha com a prima dela. Tudo era um turbilhão pra mim, nevoado e sombrio. Meu mundo era pequeno e eu o guardava em uma caixa pequena pra que ninguém o tomasse, mas de solavanco, alguém o tirou de mim, não sei quem foi, mas se foi. Tudo isso já tinha se desenrolado em uma semana, entre a voz estranha atendendo o seu celular até hoje, o dia do estampido.
Caí da escadaria batendo os braços e a cabeça em algum lugar naqueles degraus de facas afiadas e quinas pontiagudas. Acho que desacordei por alguns instantes.
- Se você casar, você me chama?
- Claro, você vai estar lá na frente comigo...
- Não bobo, não...
- Não estou entendendo...
- É... Se você não se casar comigo...
- Como assim? Se eu for me casar vai ser com você
- Será? (Sorriso Meia Boca)
- A não ser quê?
- O quê?
- Que você?
- Que você queira terminar comigo
- Claro que não amor, eu te amo...
- Será que você vai lembrar dessas nossas juras? Mesmo que as nossas vidas mudem você ainda sim, mesmo que lá no fundo...
- Lá no fundo?
- Você sabe minha vida...
- Eu sei, mas quero ouvir...
- Você sabe que eu te amo. Você foi o meu primeiro homem e sabe que eu vou te amar para sempre. Sempre vai ter um espaço pra você meu amor. Sempre.
Talvez eu nunca mais a tivesse ao meu lado me falando tudo que eu queria e que precisava ouvir naquela situação, mas o que apenas aconteceu foram mudanças.
Em um relacionamento será que nada dura para sempre, ou o sempre não existe? Em uma vida alguma coisa dura para sempre? Sendo assim, o sempre não existe? Acho que em todas as situações há o meio termo entre todas as coisas e fatos que desassociamos por uma simples questão de falta de calma e racionalização – que a maioria das vezes pra mim, consistia em parar, ir até o fundo do posso de meus sentimentos e voltar com as minhas razões à flor da pele. Até hoje eu me pergunto se eu posso adquirir isso com a experiência, com conselhos ou realmente com a sabedoria de ter passado por isso tudo, e de fato eu vejo que em nenhuma dessas três sentenças eu encontraria realmente algum tipo de resposta. Mudança foi a palavra que imperou.
Não há uma experiência equivalente em nenhuma hipótese de todas as situações possíveis. Toda e qualquer experiência diverge em si de vários pontos, observações e vivências, portanto sempre que alguém supostamente tentasse me aconselhar eu me encalacraria dentro de um mero simulacro e diria a mim mesmo o quanto eu não sofri ou realmente deixei de sofrer, e o quanto eu falhei, e me culparia eternamente ou me diria o quanto fui sortudo por não ter tomado esta ou aquela atitude. Aprendi com isso que é inútil me martirizar por atitudes de dificilmente eu não tomaria da forma que eu tomei, pois me conhecendo, não faria diferente se não fosse da forma que reagi e reagiria, portanto sempre foi eu, descontrolado ou não. Pegar pontos de experiência como referência, como desde cedo eu cria, nunca me levaria nada. Aprendi com a vida. Aprendi com a falta de um pai a recorrer a um caminho de meio termo a tudo por falta de uma suposta “consciência macho-imperativa”, a voz grossa, a tradicional cultura do fazer a barba que me diria o que fazer ou não, até que em partes, com isso, me tornei um pouco mais autoconfiante, e acho que aprendi um pouco a lutar por caminhos de raciocínio lógico a tudo.
Quem não confia em pontos de experiência, não acredita, portanto em conselhos, criticas e opiniões, e, por não acreditar em conselhos, descartava qualquer tipo de noção que supostamente me parecesse fruto de alguma explanação sábia. Humanamente falando, não há para mim explanações ou algum tipo de coisa que se chame de sabedoria se não houver uma introspecção sobre o foco de observação em si. Ou seja, se alguém me falar de qualquer tipo de experiência, sendo de causa própria, eu descarto certamente. Ninguém nunca me convenceu em falar que drogas eram ruins porque eram, quando na verdade não é assim. Drogas são boas e legais, mas usá-las é uma coisa que não existe. Não existe um usuário de drogas que seja realmente são. Não existe um usuário coerente de drogas. Elas são maravilhosas, mas com relação a elas, o assunto é puramente simples: Ou você as usa ou não. Ou você consegue realmente lidar com a vida sem elas ou nem tente, e acredite, quando você para, é porque você nem começou. O que existe é uma eterna condição de determinados dias que o verdadeiro usuário tem que passar sem elas, se realmente parou, e se o fez é porque nem começou. Tenho pontos extremos que convergem em lados diferentes correlação as drogas, uma é um ponto que realmente é polêmico: Acredito que ninguém que realmente tenha começado com elas, consegue realmente larga-las; pra mim se largou é porque nem tinha começado realmente dentro de seus limites, e a outra é simples: Não existe nada que seja totalmente viciante a alguém o que existem é uma cultura equivocada sobre as drogas, criando assim os verdadeiros paraísos artificiais. Darwinismo isso diria – Discursava isso tranquilamente em biroscas. Chamava a todos e a mim mesmo de fraco correlação a tudo na vida. Não e Sim. Não aceitava que todos somos: Fortes, fracos, indefesos... Todos são um leque de si mesmos. Eu sou uma miríade de coisas infinitas que posso fazer a esse instante e segundo, mas só agora eu me adapto a isso e aceito que posso realmente fazer o que quiser a qualquer momento, mas sempre, sempre eu teria que tomar as escolhas mais certas, aprendi que na rua essas oportunidades sempre rondam a qualquer um. Na rua, diariamente, por tomar escolhas corretas, você escapa de mortes, doenças, viroses e acidentes, e graças as minhas escolhas, eu estou aqui. E também muitas das minhas dores e pesares são graças as minhas erradas escolhas.
Por tanto, hoje pra mim, ser forte ou ser fraco, depende de pontos de vista quando se aprende que tudo na vida é um grande referencial. Acho que ser forte pra mim hoje é conhecer os “meus” referenciais, meus defeitos e qualidades, meus verdadeiros ícones, meus verdadeiros limites e luta-los por eles a cada instante e fiapo de dia que possa se seguir a um porre, uma trip, ou uma viagem de qualquer coisa, pra algum lugar qualquer. Um mendigo pode ser o ser humano mais fantástico pra mim e um burguês o mais medíocre (deixei os referenciais de posse de lado, por exemplo). E não acredito que obrigatoriamente, temos que passar por tudo para saber discernir o que foi de bom ou ruim. O raciocínio lógico pode se encarregar disso, mas quando é que existe algum ponto de lógica, se realmente ninguém se conhece? O homem é um ponto de observação apenas de si mesmo, isto é, de sua condição genuinamente humana, mas se não a reconhecermos? A única condição genuinamente humana que existe e que faz lógica pra mim é que vivemos em silenciosas, e não compartilháveis revoluções. Aceitar as mudanças é começar a ver a vida com um raciocínio lógico. Aceitar as mudanças é ter noção das escolhas diárias e instantâneas no segundo em que elas acontecem, percebendo assim, realmente o que é bom e mau.
Estamos em constante mudança. Não somos puramente matéria. A idéia é uma mudança e um ponto de convergência, a cada idéia que temos ocorre uma mudança, e a cada mudança mudamos nossos pontos de vista – logo referenciais – E se mudamos um referencial, mudamos tudo! Logo a definição é ser indefinido. Por natureza, todos os homens são escalas de valores indefinidos: “Estranhos que se agrupam aos seus comuns.” Minhas piores crises existenciais eram quando eu tentava me agrupar a alguma ordem, experiência ou coisa que já tivesse existido – Como se buscasse alguma lógica justificativa para minhas idéias, meu jeito de ser, pensar ou agir. Aceitar a vida, portanto é se aceitar e aceitar as suas mudanças.
Decisões, indecisões, opiniões, ingressos, regressos... São mudanças que tomamos em milésimos de segundos e mesmo que hajam a rotações invisíveis de serem notadas e de não se registrarem grandes angulações de qualquer aspecto de alteração de compasso, elas existem. Já que o direito de escolha sempre nos foi dado, concluo que não existem grandes mudanças, existem as pequenas com as suas grandes repercussões. Descobri que a razão era um caminho certo que morava entre o sim e o não e nunca fazia lógica aos seus dois vizinhos. E era sempre o meio termo a se tomar.
“Sendo assim, nada dura pra sempre, as coisas sempre estão mudando realmente” – Como um suspiro aliviado me sugere paz esse pensamento que parece ser tão óbvio. Paz e conforto. Certeza de que a dificuldade que eu tive foi de me adaptar as mudanças ou de rejeitá-las e apenas continuar seguindo um outro fluxo, que seria agora ditado, e sempre por mim. “Sou eu o senhor das minhas escolhas, e sei que são as raízes dos meus atos, não posso, portanto ir de contra a mim em nenhuma delas”. E como as coisas que são óbvias outrora para nós, hoje são tão profundas? Acho que isso explica um pouco do que possa ser maturidade, talvez.
A dor do tombo me impedia essas conjecturas que mais tarde, mas muito bem mais tarde, tomei, mas a queda da escadaria, naquele instante, me lembrou de que tenho um corpo e uma missão instantânea naquela hora, ligar para Viviane para conversar com ela. Uma máquina voltou a funcionar, com ela voltou a noção de tempo e espaço. Sabia que tinha caído de uma escadaria e que eram duas e meia da manhã. Não vagava mais por horas em minha mente – Mesmo que o tempo real tenha levado cinco minutos - levantei reto do tombo sendo escorado por dois motoristas de ônibus que estavam no inicio da escadaria. A vergonha embaçou os meus olhos. Minha cabeça e costas doíam. Tudo doía. Era uma dor moída. Dor de perder a razão, o amor e a decência, era desequilibro sombra, ilusão e medo enquanto eu ouvia, bem lá atrás da rua ou no fundo de mim, risos e zombarias, enquanto os dois rapazes engoliam os seus risos e me ajudavam.
- Ta bem?
- To (enxugo a água que quase cai dos meus olhos)
- Vê se você não machucou a cabeça
(Passo rapidamente a mão na minha cabeça e tento me levantar. Levanto seguindo em frente sem agradecer indo para a escadaria).
- Rapaz, tem certeza de que você está bem?
- Tenho. Tudo bem. Obrigado.
Não. Não estava nada bem ali. Meu hálito era álcool, meu coração era dor. Tinha deixado escapar por entre os dedos o que eu considerava eterno. Achava que tudo estava acabado e que nada aconteceria de bom para mim.
Um chuveiro. Era o que contemplava após me recobrar do tombo e tomar de volta a minha cruz escada. O céu do rio tinha se transformado em uma camada pesada de um azulado muito escuro, contrastando até mesmo com a noite, exibindo brilho em formas de raios e lágrimas em forma de chuva. Calçadas, bancos, lojas e até mesmo os elevados transbordavam com uma água marrom e pegajosa, que levava consigo lixo de rua, parecendo lavar o Rio de uma sujeira secular. Raios cortavam a baia e fazia piscar a barca, que tentava vencer o tempo e chegar a Niterói em uma falsa noção de segurança. O Rio era um rio ardiloso e muito perigoso naquele momento.
Queira correr para me guardar da chuva, mas o tombo não deixava e não me dava escolha a não ser ficar a mercê do tempo pelas escadarias do mergulhão da praça quinze. Tentava vencer as escadas me apegando a força como se uma forte rajada de vento viesse em minha direção. O vento tentava me tomar à força do corrimão e me derrubar de novo. Não sabia se realmente era a minha perna esquerda ou o efeito do álcool que me fazia pender pra trás como uma força não aplicável aqui a condições normais. Era como se alguém da sarjeta me chamasse para ficar ali, fazer parte de um conjunto com a cidade e realmente desistisse de tudo. Mas nada me deteu pelo impulso de saber a verdade que já sabia, aliás, sempre soube lá no fundo que tudo havia acabado. “Eu sei, mas quero ouvir” Pensei recordando dos seus olhos junto aos meus pedindo um eu te amo sussurrado no ouvido. Assim ia, vencendo com espaçados segundos eternos ordenando cada impulso de cada tendão da perna e braço, de cabeça baixa, com meu casaco encharcado, meus cabelos longos tentando ostentar a égide santa de uma entidade indiana, como se um grande sacrifício a se vencer até a reluzente estação das barcas, um pano de fundo para o cenário de caos que estava o Rio.
Parecia que a cidade tinha medo dos céus. E dos céus vinha uma chuva que parecia mandada como um castigo a cidade por conta de um enorme pecado praticado e me penava assim com o tempo, por ter descuidado daquele namoro bordado, que eu tinha um enorme prazer em tecer durante os anos que se perdurou.
Mas ao final daquele prodigioso obstáculo, que era voltar para casa, eu ainda tinha esperanças de que no meu celular aparecesse algum sinal de vida de Viviane, e por um milagre nele registravam quatro ligações não atendidas de Viviane.
Quando nós falamos de nós mesmos, ou até mesmo quando pensamos em um mundo que corresponde apenas ao seu eu, tempo e espaço se desfocam. E com se realmente, por poucos segundos alguém pudesse observar uma casca vazia recém abandonada por uma borboleta. Por fora, eu era sempre vazio e insignificante enquanto eu sempre interiorizava mais uma borboleta que estava querendo surgir da dor da perda. A dor da transformação. E os fatos, que realmente marcam as nossas vidas é que fazem parte de nossas vidas. Parece uma redundância óbvia, mas passamos a caminhar conforme as nossas cicatrizes assim vão ditando, e o conjunto tempo, rio, sentimento e solidão é o que fez tudo isso marcar como que uma pedra ferindo a minha memória. Será que foi apenas um simples término de relacionamento. Depois que a poeira baixou eu vi que não.
A partir daquele ponto eu começava a tomar as rédeas da minha vida. A partir daquele momento, eu vivenciava sentimento e situações na qual ninguém antes poderia se antecipar ou sofre-las por mim. Minha mãe, até certa idade minha, conseguia me resguardar de passar alguns de vários inconvenientes que poderiam me prejudicar, e esse era o único, e é alguns dos únicos que ninguém pode tomar pra si... Eu tinha que realmente perder algum dia, mas eu realmente perdi tarde. Jogos eram apenas jogos e não mais simulavam nada em minha vida. Amores não. Amores são palpáveis e nem um pouco estagnados, perder um grande amor é perder uma grande parte de si que é dada espontaneamente, dada a necessidade do próximo e não a sua... Ninguém se nega a se doar quando ama. Minha mãe nada podia fazer, e por passar por essa incapacidade de não sofrer, eu decidi que era hora suficiente de tomar definitivamente as rédeas da minha vida.
Quero ouvir críticas, opiniões e sugestões, ok?
Capitulo № 1
“Eu sei, mas quero ouvir”...
“E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela. Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais. E ouviram a voz do SENHOR Deus, que passeava no jardim pela viração do dia; e esconderam-se Adão e sua mulher da presença do SENHOR Deus, entre as árvores do jardim.
E chamou o SENHOR Deus a Adão, e disse-lhe:
Onde estás? E ele disse: Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me.
E Deus disse: Quem te mostrou que estavas nu? Comeste tu da árvore de que te ordenei que não comesses?
Então disse Adão: A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi.
E disse o SENHOR Deus à mulher: Por que fizeste isto?
E disse a mulher: A serpente me enganou, e eu comi” Gênesis 3 - 6-13
Lembro que o que era mais doloroso de se começar esse livro era a primeira parte. Há sete anos atrás eu nunca conseguia terminar sequer o primeiro capitulo, mas com esforço, eu consegui. Demorei um ano só para terminar o primeiro capitulo (se para entender o que aconteceu, eu demorei um ano e meio, imagina para falar sobre o que aconteceu). Já tínhamos terminado, mas na minha cabeça, era apenas um tempo que eu estava dando a Viviane para pensar. Até hoje sinto essa noite. Mas ainda bem não é tão mais forte como antes. O primeiro capitulo, até para eu lê-lo hoje em dia é meio pesado, imagina há sete anos atrás, quando eu a amava loucamente.
O desenrolar do nosso término foi meio que sem pé nem cabeça mesmo, pra ser mais sincero o dia do “acabou” foi bem louco e o ponto culminante é narrado abaixo.
No inicio eu só lembrava do estampido surdo em meus ouvidos. Era como se uma gigantesca pedra se chocasse contra um prato de aço estridente. Um prato de bateria. Não ouvia mais carros, ruas ou sirenes que tentavam distrair a resposta que eu queria, enquanto havia chuva:
- Não.
- Por quê?
- Acabou. Não existe isso que você está fazendo agora...
- Isso o quê?
- Se ajoelhar no chão, no meio da rua... Todo mundo passando... Aqui não é São Gonçalo.
- Me ajoelharia até mesmo no inferno que dirá em botafogo...
- Levanta vai
- Não volta
(Segurando agora os meus braços)
- Levanta... Ta todo mundo olhando...
- Foda-se todo mundo! Foda-se! Fui um babaca egoísta até agora, mas percebi que o que me fazia assim era todo o conforto que se segurança que eu tinha e que você me dava... Meu amor, Viviane, eu não sei viver sem você...
- Sabe sim, claro que sabe – me puxava abruptamente os braços - Viveu até agora, como é que agora você não sabe? Anda – ainda me puxava... Como doeu no peito a puxada que ela me dava no braço – Levanta!
(De repente ela larga o meu braço e sai andando normalmente com o guarda chuva na mão)
- Não... Volta... Fica.
- Volta?
Ta chovendo, você não ta vendo.
- Volta amor
- Merda... Ou fode ou sai de cima caralho... Eu tenho que ir embora merda...
- Volta me perdoa...
(E ela foi a passos rápidos sem sequer olhar para trás. Lembro disso até hoje. Nunca me senti tão sozinho como naqueles segundos)
Cai a pedra. Soa o estampido de prato e cada gota era lenta e morosa caindo do céu. Via lentamente atravessando a rua, sem se importar com nada... Indiferente a mim na tempestade, era apenas agora eu na rua. Pra mim, não havia mais carros, pessoas, sinais, buzinas ou qualquer tipo de trânsito que me tirasse a atenção de um lugar em comum que eu nunca tinha entrado. O desespero, a impotência de não poder alterar ou mudar uma coisa que acabou de se destituir. Perdi o meu castelo e minha princesa naquele dia chuvoso que não me deu nenhuma espécie de trégua – “no final de noite eu era lama, embriagues e pânico” – Viviane era a minha motivação a fazer tudo naquele momento da minha vida. Ingressáramos juntos na faculdade, éramos quase da mesma sala “sabe aquele casal de faculdade, era a gente” e a gente sempre estava junto no intervalo. Mas eu não estava mas no intervalo da faculdade e sabia que não queria mais estar lá “coisa que me arrependeria muito mais pra frente”. Mas acho que brevemente naquela noite, eu não saberia nem mesmo como voltar para casa, mas ainda bem voltei.
Via a impassividade dela quando esperava fechar o sinal fechar como se quisesse se livrar de algum ‘desconforto sócio-econômico’, como um mendigo comendo merda ou como uma criança com fome na rua. Infelizmente era apenas eu, ajoelhado no chão feito um babaca, chorando copiosamente em uma movimentada Rua de Botafogo. Esperou o tempo de o sinal abrir, e quando abriu, ela nem sequer me olhou e voltou os olhos. Abriu o sinal, gritei volta, mas ela não olhou. Bati com muita força a estrutura metálica de uma banca de jornal com tanta força, que me abriu o pulso e cortou os meus dedos. Acho que por uma atitude de auto-precaução ela apenas olhou pra trás “afinal de contas, ela tinha e até tem certo vínculo de amizade com a minha mãe, mesmo que afastadas” , mas não refez o seu caminho e nem se preocupou, continuou com um passo ligeiro e uma atitude completamente fria e altiva.
Me passaram vários pensamentos naquele instante...Será que era essa a mulher que eu convivi durante esse tempo? Será que de alguma forma alguém está influenciando ela? Deve ser aquela amiga dela que me detesta... Tinha acabado de acordar do estampido da pedra “literalmente, o choque foi como se algo tivesse me ensurdecido”. Pensei em suicídio, sumir, ir pra algum lugar, mas alguma coisa “ainda bem” me falava para seguir em frente, descontinuado pela incessante chuva que agora caminhava se arrastando por entre os bueiros sujos de Botafogo.
Era como um movimento em preto e branco de cores que eu tive a noção que só via quando eu estava com ela. Tinha perdido minhas ligações de sempre a noite, a minha companheira de vida... Perdi uma grande parte de mim e achava que tinha me perdido também.
Tudo era estranho, sombrio e apático. Era o resumo da noite e do que estava acontecendo e eu não pensava em nada, era desespero, choro, culpa, solidão, convulsão nervosa e remorso naquela noite “Ninguém está deserto a ponto de não ser alvo desta sensação e nem sequer isento de sentir tudo isso. Me lembrei apenas desse fato quando fui Pai. O que senti quando vi a minha filha pela primeira vez foi exatamente isso, uma gama de sentimentos acontecendo ao mesmo tempo, mas graças a Deus foram apenas coisas boas, acho que o que me fez esquecer essa sensação foi o que eu senti quando vi a minha filha pela primeira vez”
Naquela noite eu queria apenas algo para esquecer. Um remédio para não lembrar, ou alguém pra realmente convence-la a voltar de qualquer forma, e me pedir perdão ou pelo menos fazer com que ela realmente ouvisse o meu pedido de perdão, me humilhar e tentar fazê-la a mulher mais feliz do mundo “O que hoje em dia vejo que é impossível. Quando se está determinado (a) a mudar e somos o efeito direto de várias mudanças que vão nos transformando durante a nossa caminhada, esse tipo de “conselho” se torna ineficaz. Não conseguiremos, vejo hoje, fazer ninguém feliz se não estivermos felizes, e se não estamos felizes justamente com as pessoas que nós deveríamos fazê-las felizes, que são aquelas que elegemos para andar junto, é porque há algo de novo mudando dentro de nós. E cabe a cada um, julgar se essa mudança terá um autobenefício, mas no início de nossas principais mudanças, qual não é dolorosa? Mudar machuca, fere e cauteriza várias coisas em nossas vidas, mas são os calos e as cicatrizes que nos fazem mais fortes e sempre é preciso mudar. Um relacionamento sempre deve passar por mudanças pra se adaptar em várias situações”
Mas não havia nada naquela noite a ser feita. Nenhuma saída lógica. O telefone de Viviane estava dando ocupado “provavelmente tirou do gancho” e a chuva apertava cada vez mais. Não havia nenhuma saída lógica exceto para em uma birosca e tentar respirar e ir pra casa, o que talvez fosse o maior obstáculo possível.
Sempre fui muito matuto com relação ao resto de todo o Rio. Nunca tinha pegado até então uma rota interestadual! Meus sonhos nunca conseguiam, às vezes, atravessar uma esquina, ir além de uma boca de fumo ou de uma farmácia. Eram incertos, acho, assim como as minhas pretensões sociais; Nunca quis ser alguém a ser lembrados pelo que conquistou, por grandes méritos ou feitos fabricados em alguma causa fatalista proposital. Queria criar uma comunidade de pessoas que se relacionam em comum pelo que sentem. Pessoas que em comum, percebem que o mundo é esse e que algum sádico de colocou no lugar errado e na hora errada. “Percepção de realidade na maioria é mera intuição e quase sempre é instinto”. Diria-me mais tarde. “Às vezes não somos o que realmente somos e nos trancamos em cadeias de sentimentos e é ai que Deus, vida, mãe, pai e tudo entram em um mesmo saco que tem nas bordas escrito o nome dos seus vícios”. Nunca quis ter todos os amigos do mundo, apenas o que eu realmente pudesse ter. Sempre procurei uma extensão segura do que seria o meu mundo. O meu velho e restrito mundo “freak”. Mundo de cara gordo, negativamente estereotipado pelo resto da escola, desde sempre entregue às zombarias e mazelas que eram feitas a caras que não eram iguais.
E assim, um dia me confessou Viviane que assim sempre era com ela. Talvez fosse porque o Pai era um autônomo e dependia do tempo de da disposição dos outros a comprarem os seus perfumes. Ele era vendedor de perfumes. Batia de porta em porta na procura de alguém que lhe comprassem as suas essências. Era um espanhol que veio ao Brasil a procura de liberdade e sucesso financeiro, mas sempre encontrou luta, peleja, suor e trabalho, mas muito trabalho. Mas nunca desistiu da nada. Nunca turvou sua cabeça e sempre lutou pagando a escola dos filhos com o suor de sua labuta diária de porta em porta vendendo odores e fragrâncias. O trabalho mascate era labutoso, mas sempre acreditava que um dia conseguiria todo o seu intento. Era um europeu de coração grande cheio de esperanças com o nosso pais.
Não era sempre, então, que seu pai conseguia “acompanhar a moda as bonecas e brinquedos” daquela gente. E ela às vezes se via em um mercado de consumo na qual ela não fazia parte. Que várias vezes ela não fazia realmente parte. E ela era muito zombada por isso. Afinal de contas ela era filha don “Espanhol que vendia perfumes de porta em porta”. Ela não era uma linda garotinha confusa, como sempre foi. Ela era assim como eu subjugada e oprimida por um bando de idiotas escrotos que queriam sempre esfola-la com humilhação e vergonha, assim como eu; Então eu pensava: “Ela veio de um mesmo mundo que eu, ela não faz parte dessa esfera estética de pessoas que procuravam um padrão e queriam ser iguais as outras. Ela não é como as outras” Me iludia – Ninguém é eternamente do mesmo jeito que conhecemos. Todos nós passamos por enormes mudanças ao longo de anos, dias, semanas e até mesmo segundos. Podemos mudar uma conjectura com um olhar, com um gesto e até mesmo com uma força interior que pede mudança.
Tinha certeza que assim Deus a tinha colocado em minha vida. Finalmente o pé feio tinha encontrado seu chinelo velho, pensava. Havia então encontrado a minha metade? Mas como ela corria na chuva agora?
Levanto então a minha cabeça repentinamente e me atento a estar dentro de uma birosca. A birosca era suja e decorada com um azulejo português azulado, bastante típico em vários bares do rio. Ovo rosa, Carne Assada de Ontem, Jaleco sujo de gordura, balcão de vidro e um travesti do outro lado que me olhava atentamente. Sentia um cheiro forte de gordura impregnando minha roupa e cabelos. O local era inóspito de pessoas comuns, ou seja a qualquer um que não suportasse aquele cheiro, gosto e sabor de subversão. Via na noite que estava dentro daquele bar as pessoas doentes, homens procurando por violência, trabalhadores alcoólatras, mendigos enganando o sono tentando se distrair para passar a noite e até perdidos como eu, perdidos em um circo sem picadeiro, preso a armadilhas da vida se tornando peças de um quebra cabeças de loucura que são encontradas nesse submundo, mas duvido que algum prêmio seja dado a alguém que realmente monte esse quebra cabeças, talvez seja dado loucura, morte ou esquecimento, se tornando eternamente preso a esse universo, tal como o mendigo, o alcoólatra e o travesti que agora saia do seu lugar de frente ao meu e sentava agora do meu lado. – Mas acho que depois eu aprendi que eu era todas aquelas pessoas naquela noite...
- Oi – Saudava a voz enlatada.
- Quié?
- Calma... Tá nervoso nem? Ta com soninho? Vamo pra minha casa tirar um soninho gostoso, vamo?
Vai toma no cu, seu viado filha da puta. Levantei berrando e trocando as pernas. Um sotaque português me pergunta se eu não ia pagar a cachaça. Jogo uma nota de dez reais, o que suficientemente pagaria duas contas daquela ou até mais.
“Cachaça”. Pensava depois nessa palavra maldição que endemonizava meu pai todas as minhas noites durantes os meus primeiros dez anos. Meu pai a sorvia com interesse e como poucos no bar do Jair, bar que ficava exatamente embaixo do nosso apartamento. Meu pai ficava por horas lá embaixo se deliciando e falando coisas a qual sabia que não havia pessoas instruídas o suficiente que poderiam até então entender. Falava de política e um pouco de filosofia barata e depois alguns bebuns se cutucavam e comentavam “nossa, como o Rogério é inteligente”. Mas meu pai sempre de orelha em pé percebia que eles idiotamente, avaliavam uma cultura inútil que era sempre vomitada por ele, entre uma cachacinha e outra. Depois de tanto alimentar o seu ego com os “matutos”, subia as escadas como se fosse um sacrifício. Cada degrau era um desafio incomensurável para ele. Ele lambia os corrimões com a cara em quase uma queda. Usava um palito marrom claro quadriculado comprado em brechó, seguindo uma tendência que ninguém usava, mas como não tinha dinheiro, assim perdurava em usá-lo. Lembro-me depois que eu tinha medo desse palito marro claro. Tinha até mesmo medo de usá-lo.
Esmurrava a porta pra entrar - ou quando o famoso cachaceiro escora tocava a campainha com ele no ombro. Eu sabia que quando tocavam a campainha em altas horas da noite sabia que era ele, mas que ele não estava sozinho o que era preferível pela minha mãe, pois assim ele batia na cama, em vez dela. Minha mãe abria calada porque eu estava no berço. E assim permanecia para não fomentar mais a fermentação do meu pai. Ele sempre xingava algo desagradável sobre a família da minha mãe. Sempre falava sobre a má sorte de algum tio meu e chamava carinhosamente minha mãe de piranha. Ligava um K-7 de um cantor latino que hoje eu simplesmente não quero realmente recordar. Nunca tomava banho. Tirava os sapatos na sala os jogando com força contra a parede. Gritava em altos pulmões um merda ou um caralho e ia pro quarto. Em seguida se abria a cortina de Awshivtiz em cima das costas da minha mãe. Ele vinha xingando-a como um demente e pulava em cima da cama. Tentava ter relações com a minha mãe e o que sempre se repetia e o que sempre conseguia, pois era homem e forte, mas mesmo que se conseguisse ou não, ele sempre batia nela depois. Esse ritual macabro noturno sempre se repetiu por várias noites. Era um absurdo inconveniente admitido por mim, pois desde os cinco anos fingia dormir para que minha mãe não ficasse preocupada comigo. Não adiantaria a minha intervenção porque ele já fez coisas piores e com a minha ciência. Só ficava pior para a minha mãe que parecia desfalecer quando me via presenciando essas coisas, daí em diante, eu passei a fingir que dormia para não perturbar a minha mãe com sua preocupação comigo. E um dia, como em Blackbird dos Beatles, ela como um melro negro criou azas e voou.
Meu pai era um grande homem. Aliás, a maioria dos grandes homens dessa sociedade escrota é assim. Prepotente, Gananciosos, Estúpidos e Homofóbicos. E por ser esse grande homem ele conseguiu tudo o que queria: Pobreza de espírito, Miséria de alma e uma ex-mulher gorda e varizenta para se encostar e morar no Espírito Santo.
Questiono o que é justiça até hoje pela forma a qual meu pai conduziu a sua vida e pela forma a qual ela foi recompensada e da forma que ela se predestinou. Hoje em dia é um velho encostado em uma aposentada da receita federal com uma pensão gorda, ganhando muito a ponto de mimá-lo com todos e qualquer utensílio de pescaria (que antes era comprado pela minha mãe, que mais para frente seria acusada por ele de tê-lo jogado na sarjeta. “Tenho que agradecer a Deus por Ela ter aparecido na minha vida porque ela me tirou da merda que a sua mãe tinha me colocado”, dizia). Vive hoje à sombra e água fresca a troco de nada como um velho gigolô. Hoje é um velho submisso a uma outra velha por causa do seu óbvio destino: Envelhecer e morrer, mas agora com cautela. Não existiria mais “sarjeta” para Rogério. Tinha uma pensão agora e teria que zelar pela seu relacionamento pois sabia que não teria uma próxima oportunidade daquelas batendo a porta.
Acho que se alguém soubesse dos anos de estupro que meu pai submeteu a minha mãe, por questões de um alcoolismo sem uma aparente explicação, e acho que também nestes casos, não existe nenhum tipo de questão aparente que vá justificar esse tipo de situação e do tanto que apanhou, o fato de ser deixado com todos as mobílias de nosso antigo apartamento e, aliás, como o nosso antigo apartamento, seria muito para um porco como ele. O fato dele ir para a sarjeta foi apenas um rumo natural de todo parasita que sai do sei hospedeiro: Padecer e Morrer. O que acontece é que ele apenas padeceu enquanto o hospedeiro que era a minha mãe, ficou com toda a responsabilidade da casa e da minha vida. Minha mãe assim viveu. Meu pai me impediu de reconhecer o que era justo e o que era injusto na vida, mas sozinho, aprendi a fazer a barba e a ser um homem. Talvez eu não entenda muito como funcionava a questão do que é certo ou errado, assim como outros da minha idade, mas sempre me esforcei a isso, sempre tive uma preocupação em andar correto e meu dilema era “nunca parecer com meu pai”.
Cachaça. Era a palavra condenação que povoava a minha cabeça. Tinha me turvado e me entregado ao sangue que pulsava e pedia para que eu fosse como ele. Meu pai era o monstro que me envolvia quando bebia ou pensava em beber. Pensava sempre em abusos e me envolvia agora em profundidade com um universo novo, assim como Adão supostamente, assim como o falso preceito da serpente dizia, “se tornou como Deus” quando comum e curioso comeu o fruto proibido e assim me tornei como meu Pai. “Todos nós provamos de algo supostamente proibido”. Pensei eu. Mas naquele momento era maior do que isso, eu tinha me tornado como meu pai.
Eu nunca tinha bebido antes. Bebericado uma cerveja uma vez ou outra ainda vai, mas nunca tinha precipitado um copo seque por completo goela a baixa, como os santos da sarjeta fazem. Nunca havia tido o senso do que era algo similar a me embriagar em nada. Fiquei com medo de mim, dos meus pensamentos. Fiquei com medo do aterro do Flamengo e do lapso de razão que me levou a caminhar de Botafogo até aqui, Vi uma guarita de ponto de ônibus e sem pestanejar esperei um pouco até balançar a mão pra qualquer coisa que se movesse até passar por uma roleta.
Vales transportes eram bons isolantes sociais. Eles vinham a conta da passagem e era apenas deixar na banqueta do trocador e sentar em qualquer banco a frente. Sem satisfação ou intimidade, apesar de toda a indiscrição que há em pegar e estar em um ônibus. Minha cabeça era música, sons, luzes no céu... Néon, mercúrio, solidão... Músicas românticas me levavam a chorar de mim mesmo. Ouvi sons parecidos com tambores, freios de carro como cuícas e de repente era hora de descer no recém inaugurado mergulhão e pegar a barca de volta pra minha casa. Casa. Se eu tivesse asa já tinha estado lá desde cedo antes dessa loucura toda... Balbuciava e sorria para o motorista como um demente procurando apoio. Andei apenas. Não ouvi o gracejo do babaca da janela. Me preparava agora para um desafio.
Bêbados tem desafios motores que devem ser deveramente respeitados. Havia na minha frente, naquele momento, uma enorme escadaria, molhada e escoando água como uma cachoeira... Sabia que deveria concentrar toda a minha atenção a simplesmente coordenar as minhas pernas a subir degrau pro degrau, em uma indispensável contemplação de concentração de corrimão. As pernas coordenadamente deveriam estar equilibradas com o meu ponto de apoio, que era meu braço extremamente cansado em um corrimão liso como um cabo de colher lambuzado de manteiga. Pé depois do outro buscando seguro alicerce em cada degrau, e assim ir, degrau por degrau em uma difícil e espaçada labuta pra controlar as pernas e o corpo, não esquecendo de impulsioná-lo sempre para frente puxando com a mão o corrimão, pé depois de outro, buscando segurança e alicerce em cada degrau, puxando em seguida o liso corrimão, Almejando chegar a um lugar mais elevado, buscando a conclusão do objetivo maior. Chegar em casa – Os normais, digo, sóbrios, fazemos esse tipo de coordenação motora sem sequer uma observação ou concentração para ser realizada. Ela acontece instintivamente como que automático a sua ordem e coordenação – Mas para alguém, que não era acostumado a beber e ainda tem a ousadia de dar uma talagada de uma vez só um copo de cachaça, tendo depois uma escadaria daquelas para subir, é no mínimo pedir por morte.
“Acabou. Não vou mais voltar.”
Tudo começou a ficar pior, até uns dias atrás, foi quando eu escutei uma voz grave no celular dela, nós já tínhamos terminado, mas sempre tive a sensação de que Viviane estava guardada no bolso, e que a qualquer momento eu poderia sacá-la e assim aplacar a minha solidão.
- Alô?
- Alô? 9856-5766
- É
- Quem ta falando então?
- Com quem você quer falar?
- Com a dona do celular ora...
- Ela ta ocupada...
- Ocupada? Ocupada com o quê?
- Meu irmão... Você ta enchendo o saco já...
- Enchendo o saco? Vai a merda... Quero falar com a Viviane...
- Porra... Caralho... Ela ta subindo no ônibus agora?
- Quem é você?
- O namorado dela e quem é você?
(Pensei na hora: “O namorado dela há uns dois meses atrás”. Mas achei uma frase escrota a se dizer naquela hora e que a delimitava como se fosse um objeto, com num sentido de posse de coisa.)
- Alô?
- Ta namorando de novo?
(Silêncio)
- A gente sempre se falava a noite, nos mesmo horários mesmo depois que a gente terminou. Sempre nos falávamos na faculdade e sempre você me dizia que sempre você me dizia que sempre pensava em mim...
- Eu sempre “pensava” sim, mas acho que você ainda não entendeu muita coisa...
- Não. Achei que a gente só tava dando um tempo.
- Tempo? Até quando?
- Sempre deixei claro que estaria disposto a voltara hora que você decidisse...
- Você é que não entendeu... Eu não pedi tempo, você me implorou por um, em apenas disse que ia pensar, mas minha decisão eu já tinha tomado...
- Decisão? Que decisão?
- Acabou.
- Mas como acabou Viviane?
- Acabou. Há dois meses e você não sabe disso...
- Mas a gente não parou de se falar...
- Foi amigável lembra? A gente combinou... Tenho que desligar agora.
- Desligar... Porque desligar agora?
- Porque ele está com ciúmes...
- Ele quem?
- Meu namorado.
- Mentira, eu não acredito Viviane... Ta de sacanagem...
O barulho de desligado do celular de Viviane fez meu coração disparar. Ficou um bom tempo descompassado. Tinha vontade de socar o peito, arrancar os cabelos, mal acreditava que antes ela era minha e que agora ela tinha escapado por mim, por entre os meus dedos de uma forma que eu não consigo explicar. Não acreditava em absolutamente nada do que estava acontecendo. “Pode ser algum amigo do curso que ela colocou pra falar no celular para me dar uma incerta... Pra me provocar.”
Mas acho que depois a ficha caiu. Tentei ligar várias vezes para o celular dela. Ou estava ocupado ou desligado. Quanto mais eu quebrava a cara por não conseguir falar com ela, mais eu me colocava em pânico e a falta de comunicação constante que havia agora entre eu e ela me deixava louco, me fazendo correr de um lado para o outro. E eu corria atrás dela. Sondava pistas, rodava escritos, sondava amigos... Mas eram sempre pistas e nada me fazia me trazer para a minha antiga Viviane, que agora era distante e alheia a qualquer coisa que acontecesse comigo. Viviane não era mais Viviane. Viviane era uma pessoa que me driblava, corria de abraços, aproximações de qualquer tipo me dando desculpas, as mais esfarrapadas possíveis. O que eu dizia era lata, papel e ferro para Viviane... Porque tinha ficado tudo opaco e sem valor? Será que nada disso tinha acontecido?
A minha insistência foi patológica e inquieta a todos que me cercavam e quebrava a regra do que realmente era “socialmente aceitável” em uma situação como essas. Chorava várias vezes em público. Perguntava a todos por ela e ninguém se fazia de rogado para me ver me comentar algo como “derrotado” perto de mim. Meu olhavam como eu se estivesse sido vencido e humilhado por alguém. Creio que humilhado sim, mas vencido, nunca. Achava que tudo tinha acabado para mim e que nada ia dar mais certo. Era o que os outros me diziam com os olhos, e era também o que eu aceitava com a minha mente e coração em uma outra profunda falta de auto-conhecimento. Mais uma vez eu era um mero boneco do que os outros achavam de mim: Eu era um derrotado porque os outros já tinham jogado a toalha no chão para mim.Nossos amigos em comum não eram mais os nossos amigos em comum. Eu ligava para eles chorando. Omitiam informações, descasavam dados e pistas de onde ele pudesse estar e até mesmo acha-la. Me humilhava pedindo que eles falassem com ela a meu respeito, pedia para que eles persuadissem ela para voltar para mim. Mas eles eram apenas “amigos” dela, não os meus amigos. Quando ela se foi, era como se um brilho tivesse saído de dentro de mim. Mas eu não sabia que esse brilho nunca tinha realmente desabrochado antes de mim.
Eu já não disfarçava mais o meu pranto e o meu estado confuso de espírito de ter perdido a pessoa que eu mais amava. Eu não me importava com o que eu vestia e da forma como eu me portava perante as outras pessoas. Era uma pessoa amargurada e desesperada procurando por respostas. Chorando pelos cantos e principalmente, aceitando a gongada que em um breve momento, tinha levado. Me perguntavam o que estava acontecendo , mas sempre com a voz embargada dizia que estávamos bem, mas todos sabiam que tudo tinha acabado. Menos eu.
Tentei assim que desci do ônibus ligar para a prima dela. Era a minha possível ultima tentativa de mudar ou tentar mudar o que iminentemente iria acontecer, mas desisti, pois sentia reciprocamente que era total e completa a falta de sintonia que eu tinha com a prima dela. Tudo era um turbilhão pra mim, nevoado e sombrio. Meu mundo era pequeno e eu o guardava em uma caixa pequena pra que ninguém o tomasse, mas de solavanco, alguém o tirou de mim, não sei quem foi, mas se foi. Tudo isso já tinha se desenrolado em uma semana, entre a voz estranha atendendo o seu celular até hoje, o dia do estampido.
Caí da escadaria batendo os braços e a cabeça em algum lugar naqueles degraus de facas afiadas e quinas pontiagudas. Acho que desacordei por alguns instantes.
- Se você casar, você me chama?
- Claro, você vai estar lá na frente comigo...
- Não bobo, não...
- Não estou entendendo...
- É... Se você não se casar comigo...
- Como assim? Se eu for me casar vai ser com você
- Será? (Sorriso Meia Boca)
- A não ser quê?
- O quê?
- Que você?
- Que você queira terminar comigo
- Claro que não amor, eu te amo...
- Será que você vai lembrar dessas nossas juras? Mesmo que as nossas vidas mudem você ainda sim, mesmo que lá no fundo...
- Lá no fundo?
- Você sabe minha vida...
- Eu sei, mas quero ouvir...
- Você sabe que eu te amo. Você foi o meu primeiro homem e sabe que eu vou te amar para sempre. Sempre vai ter um espaço pra você meu amor. Sempre.
Talvez eu nunca mais a tivesse ao meu lado me falando tudo que eu queria e que precisava ouvir naquela situação, mas o que apenas aconteceu foram mudanças.
Em um relacionamento será que nada dura para sempre, ou o sempre não existe? Em uma vida alguma coisa dura para sempre? Sendo assim, o sempre não existe? Acho que em todas as situações há o meio termo entre todas as coisas e fatos que desassociamos por uma simples questão de falta de calma e racionalização – que a maioria das vezes pra mim, consistia em parar, ir até o fundo do posso de meus sentimentos e voltar com as minhas razões à flor da pele. Até hoje eu me pergunto se eu posso adquirir isso com a experiência, com conselhos ou realmente com a sabedoria de ter passado por isso tudo, e de fato eu vejo que em nenhuma dessas três sentenças eu encontraria realmente algum tipo de resposta. Mudança foi a palavra que imperou.
Não há uma experiência equivalente em nenhuma hipótese de todas as situações possíveis. Toda e qualquer experiência diverge em si de vários pontos, observações e vivências, portanto sempre que alguém supostamente tentasse me aconselhar eu me encalacraria dentro de um mero simulacro e diria a mim mesmo o quanto eu não sofri ou realmente deixei de sofrer, e o quanto eu falhei, e me culparia eternamente ou me diria o quanto fui sortudo por não ter tomado esta ou aquela atitude. Aprendi com isso que é inútil me martirizar por atitudes de dificilmente eu não tomaria da forma que eu tomei, pois me conhecendo, não faria diferente se não fosse da forma que reagi e reagiria, portanto sempre foi eu, descontrolado ou não. Pegar pontos de experiência como referência, como desde cedo eu cria, nunca me levaria nada. Aprendi com a vida. Aprendi com a falta de um pai a recorrer a um caminho de meio termo a tudo por falta de uma suposta “consciência macho-imperativa”, a voz grossa, a tradicional cultura do fazer a barba que me diria o que fazer ou não, até que em partes, com isso, me tornei um pouco mais autoconfiante, e acho que aprendi um pouco a lutar por caminhos de raciocínio lógico a tudo.
Quem não confia em pontos de experiência, não acredita, portanto em conselhos, criticas e opiniões, e, por não acreditar em conselhos, descartava qualquer tipo de noção que supostamente me parecesse fruto de alguma explanação sábia. Humanamente falando, não há para mim explanações ou algum tipo de coisa que se chame de sabedoria se não houver uma introspecção sobre o foco de observação em si. Ou seja, se alguém me falar de qualquer tipo de experiência, sendo de causa própria, eu descarto certamente. Ninguém nunca me convenceu em falar que drogas eram ruins porque eram, quando na verdade não é assim. Drogas são boas e legais, mas usá-las é uma coisa que não existe. Não existe um usuário de drogas que seja realmente são. Não existe um usuário coerente de drogas. Elas são maravilhosas, mas com relação a elas, o assunto é puramente simples: Ou você as usa ou não. Ou você consegue realmente lidar com a vida sem elas ou nem tente, e acredite, quando você para, é porque você nem começou. O que existe é uma eterna condição de determinados dias que o verdadeiro usuário tem que passar sem elas, se realmente parou, e se o fez é porque nem começou. Tenho pontos extremos que convergem em lados diferentes correlação as drogas, uma é um ponto que realmente é polêmico: Acredito que ninguém que realmente tenha começado com elas, consegue realmente larga-las; pra mim se largou é porque nem tinha começado realmente dentro de seus limites, e a outra é simples: Não existe nada que seja totalmente viciante a alguém o que existem é uma cultura equivocada sobre as drogas, criando assim os verdadeiros paraísos artificiais. Darwinismo isso diria – Discursava isso tranquilamente em biroscas. Chamava a todos e a mim mesmo de fraco correlação a tudo na vida. Não e Sim. Não aceitava que todos somos: Fortes, fracos, indefesos... Todos são um leque de si mesmos. Eu sou uma miríade de coisas infinitas que posso fazer a esse instante e segundo, mas só agora eu me adapto a isso e aceito que posso realmente fazer o que quiser a qualquer momento, mas sempre, sempre eu teria que tomar as escolhas mais certas, aprendi que na rua essas oportunidades sempre rondam a qualquer um. Na rua, diariamente, por tomar escolhas corretas, você escapa de mortes, doenças, viroses e acidentes, e graças as minhas escolhas, eu estou aqui. E também muitas das minhas dores e pesares são graças as minhas erradas escolhas.
Por tanto, hoje pra mim, ser forte ou ser fraco, depende de pontos de vista quando se aprende que tudo na vida é um grande referencial. Acho que ser forte pra mim hoje é conhecer os “meus” referenciais, meus defeitos e qualidades, meus verdadeiros ícones, meus verdadeiros limites e luta-los por eles a cada instante e fiapo de dia que possa se seguir a um porre, uma trip, ou uma viagem de qualquer coisa, pra algum lugar qualquer. Um mendigo pode ser o ser humano mais fantástico pra mim e um burguês o mais medíocre (deixei os referenciais de posse de lado, por exemplo). E não acredito que obrigatoriamente, temos que passar por tudo para saber discernir o que foi de bom ou ruim. O raciocínio lógico pode se encarregar disso, mas quando é que existe algum ponto de lógica, se realmente ninguém se conhece? O homem é um ponto de observação apenas de si mesmo, isto é, de sua condição genuinamente humana, mas se não a reconhecermos? A única condição genuinamente humana que existe e que faz lógica pra mim é que vivemos em silenciosas, e não compartilháveis revoluções. Aceitar as mudanças é começar a ver a vida com um raciocínio lógico. Aceitar as mudanças é ter noção das escolhas diárias e instantâneas no segundo em que elas acontecem, percebendo assim, realmente o que é bom e mau.
Estamos em constante mudança. Não somos puramente matéria. A idéia é uma mudança e um ponto de convergência, a cada idéia que temos ocorre uma mudança, e a cada mudança mudamos nossos pontos de vista – logo referenciais – E se mudamos um referencial, mudamos tudo! Logo a definição é ser indefinido. Por natureza, todos os homens são escalas de valores indefinidos: “Estranhos que se agrupam aos seus comuns.” Minhas piores crises existenciais eram quando eu tentava me agrupar a alguma ordem, experiência ou coisa que já tivesse existido – Como se buscasse alguma lógica justificativa para minhas idéias, meu jeito de ser, pensar ou agir. Aceitar a vida, portanto é se aceitar e aceitar as suas mudanças.
Decisões, indecisões, opiniões, ingressos, regressos... São mudanças que tomamos em milésimos de segundos e mesmo que hajam a rotações invisíveis de serem notadas e de não se registrarem grandes angulações de qualquer aspecto de alteração de compasso, elas existem. Já que o direito de escolha sempre nos foi dado, concluo que não existem grandes mudanças, existem as pequenas com as suas grandes repercussões. Descobri que a razão era um caminho certo que morava entre o sim e o não e nunca fazia lógica aos seus dois vizinhos. E era sempre o meio termo a se tomar.
“Sendo assim, nada dura pra sempre, as coisas sempre estão mudando realmente” – Como um suspiro aliviado me sugere paz esse pensamento que parece ser tão óbvio. Paz e conforto. Certeza de que a dificuldade que eu tive foi de me adaptar as mudanças ou de rejeitá-las e apenas continuar seguindo um outro fluxo, que seria agora ditado, e sempre por mim. “Sou eu o senhor das minhas escolhas, e sei que são as raízes dos meus atos, não posso, portanto ir de contra a mim em nenhuma delas”. E como as coisas que são óbvias outrora para nós, hoje são tão profundas? Acho que isso explica um pouco do que possa ser maturidade, talvez.
A dor do tombo me impedia essas conjecturas que mais tarde, mas muito bem mais tarde, tomei, mas a queda da escadaria, naquele instante, me lembrou de que tenho um corpo e uma missão instantânea naquela hora, ligar para Viviane para conversar com ela. Uma máquina voltou a funcionar, com ela voltou a noção de tempo e espaço. Sabia que tinha caído de uma escadaria e que eram duas e meia da manhã. Não vagava mais por horas em minha mente – Mesmo que o tempo real tenha levado cinco minutos - levantei reto do tombo sendo escorado por dois motoristas de ônibus que estavam no inicio da escadaria. A vergonha embaçou os meus olhos. Minha cabeça e costas doíam. Tudo doía. Era uma dor moída. Dor de perder a razão, o amor e a decência, era desequilibro sombra, ilusão e medo enquanto eu ouvia, bem lá atrás da rua ou no fundo de mim, risos e zombarias, enquanto os dois rapazes engoliam os seus risos e me ajudavam.
- Ta bem?
- To (enxugo a água que quase cai dos meus olhos)
- Vê se você não machucou a cabeça
(Passo rapidamente a mão na minha cabeça e tento me levantar. Levanto seguindo em frente sem agradecer indo para a escadaria).
- Rapaz, tem certeza de que você está bem?
- Tenho. Tudo bem. Obrigado.
Não. Não estava nada bem ali. Meu hálito era álcool, meu coração era dor. Tinha deixado escapar por entre os dedos o que eu considerava eterno. Achava que tudo estava acabado e que nada aconteceria de bom para mim.
Um chuveiro. Era o que contemplava após me recobrar do tombo e tomar de volta a minha cruz escada. O céu do rio tinha se transformado em uma camada pesada de um azulado muito escuro, contrastando até mesmo com a noite, exibindo brilho em formas de raios e lágrimas em forma de chuva. Calçadas, bancos, lojas e até mesmo os elevados transbordavam com uma água marrom e pegajosa, que levava consigo lixo de rua, parecendo lavar o Rio de uma sujeira secular. Raios cortavam a baia e fazia piscar a barca, que tentava vencer o tempo e chegar a Niterói em uma falsa noção de segurança. O Rio era um rio ardiloso e muito perigoso naquele momento.
Queira correr para me guardar da chuva, mas o tombo não deixava e não me dava escolha a não ser ficar a mercê do tempo pelas escadarias do mergulhão da praça quinze. Tentava vencer as escadas me apegando a força como se uma forte rajada de vento viesse em minha direção. O vento tentava me tomar à força do corrimão e me derrubar de novo. Não sabia se realmente era a minha perna esquerda ou o efeito do álcool que me fazia pender pra trás como uma força não aplicável aqui a condições normais. Era como se alguém da sarjeta me chamasse para ficar ali, fazer parte de um conjunto com a cidade e realmente desistisse de tudo. Mas nada me deteu pelo impulso de saber a verdade que já sabia, aliás, sempre soube lá no fundo que tudo havia acabado. “Eu sei, mas quero ouvir” Pensei recordando dos seus olhos junto aos meus pedindo um eu te amo sussurrado no ouvido. Assim ia, vencendo com espaçados segundos eternos ordenando cada impulso de cada tendão da perna e braço, de cabeça baixa, com meu casaco encharcado, meus cabelos longos tentando ostentar a égide santa de uma entidade indiana, como se um grande sacrifício a se vencer até a reluzente estação das barcas, um pano de fundo para o cenário de caos que estava o Rio.
Parecia que a cidade tinha medo dos céus. E dos céus vinha uma chuva que parecia mandada como um castigo a cidade por conta de um enorme pecado praticado e me penava assim com o tempo, por ter descuidado daquele namoro bordado, que eu tinha um enorme prazer em tecer durante os anos que se perdurou.
Mas ao final daquele prodigioso obstáculo, que era voltar para casa, eu ainda tinha esperanças de que no meu celular aparecesse algum sinal de vida de Viviane, e por um milagre nele registravam quatro ligações não atendidas de Viviane.
Quando nós falamos de nós mesmos, ou até mesmo quando pensamos em um mundo que corresponde apenas ao seu eu, tempo e espaço se desfocam. E com se realmente, por poucos segundos alguém pudesse observar uma casca vazia recém abandonada por uma borboleta. Por fora, eu era sempre vazio e insignificante enquanto eu sempre interiorizava mais uma borboleta que estava querendo surgir da dor da perda. A dor da transformação. E os fatos, que realmente marcam as nossas vidas é que fazem parte de nossas vidas. Parece uma redundância óbvia, mas passamos a caminhar conforme as nossas cicatrizes assim vão ditando, e o conjunto tempo, rio, sentimento e solidão é o que fez tudo isso marcar como que uma pedra ferindo a minha memória. Será que foi apenas um simples término de relacionamento. Depois que a poeira baixou eu vi que não.
A partir daquele ponto eu começava a tomar as rédeas da minha vida. A partir daquele momento, eu vivenciava sentimento e situações na qual ninguém antes poderia se antecipar ou sofre-las por mim. Minha mãe, até certa idade minha, conseguia me resguardar de passar alguns de vários inconvenientes que poderiam me prejudicar, e esse era o único, e é alguns dos únicos que ninguém pode tomar pra si... Eu tinha que realmente perder algum dia, mas eu realmente perdi tarde. Jogos eram apenas jogos e não mais simulavam nada em minha vida. Amores não. Amores são palpáveis e nem um pouco estagnados, perder um grande amor é perder uma grande parte de si que é dada espontaneamente, dada a necessidade do próximo e não a sua... Ninguém se nega a se doar quando ama. Minha mãe nada podia fazer, e por passar por essa incapacidade de não sofrer, eu decidi que era hora suficiente de tomar definitivamente as rédeas da minha vida.
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