domingo, 19 de agosto de 2007

Meios no meio do Caminho


- Criss?
- Fala amor
- Não abusa...
- Fala
- É hoje...
- Eu sei boa sorte... Ligou pra que eu vá te esperar na porta de novo?
- É... Não to agüentando...
- Calma, vai dar tudo certo. Confio em você...

Na chuva, porém dentro de um carro, espero atrás de uma cortina de fumaça, de um letreiro, de um gato esperto e também de uma timidez enorme. Aliás, eu sou fumaça, o letreiro, o gato esperto e também a timidez enorme. Sem esquecer de taxista. Espero no meu táxi atrás de um banco no mesmo ponto do ginásio que sempre marca comigo. Será que me bateria por eu ter definido um artigo? Acho que sim. Diria que sou sexista... Afirmaria todas as coisas que dissesse, acho que menos sexista... Qualquer pessoa não olharia com ternura e com doçura a sua verdadeira e forte natureza. Era sempre vista – a sua natureza - com outros olhos. Com olhos estranhos, confusos e aturdidos... Mas ainda sim, não me cabe dentro de qualquer definição... Era o nome do letreiro, Era estrela, constelação desafiante e regra a ser quebrada em um ginásio fudido castigado por uma chuva incoerente. Desafiou toda uma norma e regra essa noite. Mexeu na toca de velhos leões com os seus enormes culhões. Os mesmos que sempre ditaram que era norma ter culhões e estava se saindo bem – como me diria mais tarde - com a sua ousadia e virilidade... O cartaz com o seu nome anunciava o seu desafio. Embora algum idiota tenha rasgado um pedaço do cartaz e apenas dava para ver o nome do adversário: Mauro Vitorino, um ótimo e rápido e rápido pugilista. Tinha a máquina de marketing a seu favor e um pelo upper de direita que já derrubou muitos e muitos desafiantes, acho que, menos o desta noite.

“O embate do século” – Estigmatizava a chamada.

Tínhamos gostos em comum. Gostávamos de esquinas e mistérios, indefinições, solidão, retidão e de drogas e perversões também. Muito fui beber depois de sua labuta em biroscas cheias de perigo... Mas por incrível que pareça quem se sentia bem no final da história era eu, como uma criança dormindo em segurança no berço, embora olhares brutos e cheios de malícia entrecruzassem os nossos caminhos no meio da noite. Me seduzia sempre o seu perfume bem característico a de tigres ou de animais selvagens que sempre emanava, quando era silêncio, mãos cansadas, recolhimento, pálpebras em sangue pisado e dentes moles. Mas ainda sim espero terminar o seu trabalho e como sempre vou até onde me deixa ir. Se me chamasse para o inferno, iria, mas seria melhor se tivesse ousadia e chamasse para ir a um motel qualquer, mas acho que nunca teria essa coragem e sempre fazia isso pra me deixar com um gosto de ir além... É esse além que eu sempre espero toda vez que fico na porta do ginásio, dentro do meu táxi, esperando, até que sai como uma entidade, correndo abruptamente batendo forte a porta do carro. A entidade acabava de entrar no carro e acompanhava a sua entrada apenas pelo retrovisor. Era diferente das outras vezes. A entrada era cabisbaixa, introspectiva e fedia sangue e suor... Vestia um roupão aberto longo, preto e sagurava um rolo de papel nas mãos e uma tesoura na outra – Afinal de contas, pra quê aquela tesoura?

- Toca Criss
- Pra onde?
- Não sei toca, toca caralho, anda logo com essa merda...

Estava com um olho completamente deformado e com o roupão aberto me deixando a delirar com a sua quase nudez descarada. Não me atenho a isso, pois sei que posso ser sofrer com essa desmascaração. Atento agora os meus olhos ao volante enquanto eu vou deslizando suavemente o carro no asfalto. Tento acalmar a fera com Jimi Hendrix e incenso de absinto – também adorava rock e aquele aroma de incenso.

- Acabaram com o seu olho hein?
- É... O velho Mauro teve a sua chance... Mas eu vi o medo nos olhos dele, ele viu que eu estou crescendo e criando asas...
- E ai, como é que foi?
Me olha com uma cara de desdém.
- Você nunca ouviu falar de rádio ou de televisão?
- Claro, mas você sabe, não consigo acompanhar as suas lutas...
- Já sei... O coração né?
- É. Ainda bem que sabe...
- Bom Criss – Acende um cigarro com uma boca torta cheia de sangue e feridas – Eu perdi no terceiro assalto... Perdi não. Aliás, me roubaram! Tomei um gancho que me acertou o supercílio, não foi um daqueles de ver espaço, deuses e galáxias, mas por causa da antiga culpa...
- Já sei em quem você vai botar a culpa da culpa...
- Se você está colocando palavras na minha boca, então eu acho melhor você falar...
- Desculpe, eu não queria te interromper...
- Bom, não era um soco que ia me colocar a perder aquilo tudo... Ainda não tinha beijado a lona e o infeliz disse a mesa que eu não tinha condições de continuar a luta...
- Que infeliz? O Mauro?
- Não ele não. Esse quase caiu como uma jaca por duas vezes... É o infeliz do juiz Criss que estou falando. O meu treinador nem ousaria a fazer uma coisa dessas. Se ele jogasse a toalha pra mim ele sabe que sairia de lá morto se o fizesse...
- Deve ser por causa desse sangue que está escorrendo do seu supercílio... Acho melhor te levar em um hospital...
- Apenas ande com o carro, por favor, Criss...

Vejo poças de água em seus olhos, que ainda não eram lágrimas, e de repente como um grito no escuro se sobressaem suas feições frágeis que não mostra facilmente durante toda a dinâmica da noite que era tentar desvendar as suas características. Era diferente das vezes que entrava no carro rindo ou gargalhando. Não tinha o semblante da vitória, não tinha o cinto dos que ganham... Tinha uma péssima mania de não ouvir ou não ficar para nenhum tipo de festa depois de lutar... Não saia nem mesmo pela porta da frente, saia pelos fundos em uma sombra incógnita, mas agora estava diferente... Tremia muito as mãos, segurava o choro que parecia querer sair como uma cachoeira. Tentava com a boca arrancar a fita das luvas e tampar os soluços, mas arranhava e cortava cada vez mais as gengivas, que manchavam muito as luvas de sangue.

- Porque você não usa a tesoura?
- Porque eu estou com raiva de mim e eu pensei que a sua função aqui nessa história era dirigir e me levar pra casa, e não ficar tomando conta do que eu faço...
- É essa a minha função? Mas nunca recebo pela lavagem do estofado ou pelo serviço que é te acompanhar...
- Eu sempre pago a conta do bar, então tudo fica por conta.
- Mas você sabe quanto custa a lavagem de um estofa...
- Cale a boca e dirija...

Sabia que me dominava e que poderia falar o que quisesse que eu simplesmente não me importava. Me importava com o que estava sentindo agora depois de uma derrota e depois de - muitos anos, diga-se de passagem – ir à lona por causa de um orgulho idiota e de um ato corrupto de um juiz que nunca tinha lutado.
O banco de trás do meu carro assumia um aspecto carmesim que nuca havia estado cor que nunca aparecia de todas as vezes que sentava no banco de trás, aliás, sendo a primeira com uma derrota... Um telefonema para o seu celular no bolso do seu roupão interrompe a mutilação de sua gengiva...

- “Alô? Oi amor, estou bem” – Era a filha no telefone.
- “Tô bem.. To indo pra casa, desculpa não trazer a vitória e o cinto pra você meu amor, mas da próxima vez, eu trago” – Passava a não conter a cachoeira que desaguava agora de seus olhos no celular depois que ouve a voz da filha...
Apenas miava no telefone. Um miado sentido como o de uma fera felina e era completamente compreensível acontecer naquele momento, mesmo gostando sempre de posar de forte. Escutava as instruções de uma criança de dez anos como se fosse a do seu técnico e apenas dizia que sim, Talvez tentasse tranqüilizar, mas acho que até mesmo uma garotinha de dez anos sabia que nessa hora, não era hora que “seria como uma rocha”. Era a hora de apenas ajudar, não importa o quanto, uma pessoa que carregava o titulo de uma vida inteira apenas lhe dizendo o que deve ou não fazer, mas que agora precisava ouvir instruções. Sua beleza passava o mal que era o seu choro o seu pranto. Era como uma escultura de mármore, que por ângulos e projeções frágeis que mostrava ainda sim era mármore. Era sempre e sempre será para mim como um mármore.
Ouvia com carinho e cautela e como que um balsamo, aquelas palavras iam fazendo diferença e aliviando com o tempo, até que se recobra da vida e volta a falar...

- “Está tudo bem meu amor... Deixa eu desligar... Eu tenho que tirar as luvas...”.
- “Um Beijo... Eu também te amo”.

Desliga a doçura, o carinho e também o telefone.

- Ele não devia ter parado a luta Criss. Eu ainda estava bem cara... Eu podia fazer aquilo, mas o merda encerrou a luta...
- Ele quem?
- Quem mais poderia ser o juiz é claro.
- Haverão próximas oportunidades...
- Merda, que oportunidade?! Eu acabei com toda uma reputação em uma noite! Tinha e tenho certeza que posso colocar aquele merda pra beijar a lona... Ele é um idiota perfeito, ele não tem nenhuma condição de continuar mais do que quatro rounds comigo...
- Mas ele apanhou muito?
- Ele beijou o chão duas vezes... Levei o maldito pro chão duas vezes sem que ele se desse conta até mesmo do seu caminho de casa... Era um merda e eu estava por cima no ring... Ele nem sabia cruzar os braços pra me dar um Jab... – Leva a mão a cabeça mexendo nos cabelos como quem se gaba.
- Uau! Sério?
- Uhum... – Traga fundo o cigarro com um chiado, meio que um assovio de sangue no final da tragada.
- E ainda abriram contagem pra ele...
- Nossa. Todo mundo devia estar aos seus pés naquele momento.
- É... Via o mundo embaixo dos meus cadarços...
- E quem os tirou?
- Quem? Ora Cris, o juiz maldito Cris...
- Como ele saiu do ring? O Mauro Vitorino?
- Escorado... O Senhor Vitorino teve que ir pra casa com alguém o escorando. – Dá um leve sorriso meia boca com o cigarro entre os lábios. Tiveram que levantar os braços dele para poder colocar o meu cinturão na pança dele...
- Nossa, então você com certeza, esteve melhor do que ele...
- Claro, ele foi vaiado quando eu sai do ring... Não acharam justa a decisão do juiz... O cara me deu um soco e eu apenas escorreguei ao tentar me esquivar no ring... Escorreguei no sangue dele... O juiz achou que fui a nocaute e abriu contagem comigo de pé, apenas por causa de um escorregão. O cara apanhou praticamente a noite inteira e eu perdi por causa de um soco que ele me deu...
- É, mas não importa. Você perdeu...

A cabeça pendeu pra baixo em um tom completo de desânimo... Mas não chorou. Conteve com os olhos e fez cara de raiva e decepção. Era assim que perdia, não importava o que acontecia...

- Ah... Foda-se Criss. Afinal de contas, o que você entende de boxe?
- Graças a Deus nada...
- Deus... Se Deus fosse justo...

(Criss freia o carro no solavanco)

- Nossa, olha só o que vemos aqui agora... Se Deus fosse justo... Acredite, ele é justo sim... Mas acho que algumas coisas que você vem tentando me fazer entender goela abaixo é que eu não entendo...
“Não se pode ir de encontra uma montanha em sua estatura. Não se vence uma montanha e sim a si mesmo. Existem forças na qual nós nunca poderemos lutar enquanto nós não compreendermos quem somos e da forma a qual a gente pode agir pra poder mudar. Uma montanha não pode ser mudada ou vencida e sim a mente de quem a escala.
Você tem certeza de que é Mauro Vitorino que está desafiando, a você mesma ou é alguma coisa na SUA natureza, hein dona Jasmin Du Crave? Como pode vencer não conhecendo até onde se pode chegar pra ir até a vitória?”

Ela me olha com muita raiva. Queria me socar a distância dentro daquele carro como se eu fosse um rato ou alguma coisa nojenta a sua frente. Eu a lembrei de sua natureza, que era completamente contrária a sua mente. Ela não queria ser Jasmin Du Crave dentro do Ring. Queria ser Mauro Vitorino, O espermatozóide vencedor da noite. Aquele que poderia ser livre e comer quantas putas quisesse. O cara que podia amar e vulgarizar a quem quisesse. O cara que com certeza não poderia ser espancado pelo pai, o cara que não poderia ouvir a própria mãe ser estuprada pelo pai ou pela sociedade por causa de uma luta ou por causa de um filho de um relacionamento extraconjugal. Ele poderia ser o vencedor, mas por mais que ela o levasse a nocaute e o fizesse enfiar no seu próprio rabo todas aquelas desavenças que ele falou:

– Mulher não sabe e não foi feita pra bater. Desde que o mundo é mundo mulher nasceu é pra apanhar – esbravejava - Mulher só serve pra bater roupa em tanque. Se algum dia eu beijar a lona por causa de uma mulher, eu dou a bunda pro primeiro idiota que eu ver... – disse Mauro sem nenhum tipo de pudor na frente dos microfones.

- “Prepara a vaselina então seu merda – Esbravejou voando no seu pescoço em meio a uma coletiva de imprensa – Você vai dar o cu pra mim no Ring”

Daí veio a turma do separa. Mais palavrões e gestos indecentes. Grupos ativistas a favor dos direitos de alguém gritando, usando palavras de ordem... A partir daí era o caos e simplesmente – por causa do coração - Saí e a esperei lá fora dentro do táxi como sempre faço.
Era como o sabor de uma ultima bala. Era lindo ver Jasmin levantando contra o inexorável e o impossível. É uma força da natureza lutando contra coisas “que pareciam impossíveis” Ela é maior que toda qualquer mulher quando age assim, mas deixa de ser uma quando acha que o sinônimo para o tanto é: “ser como”. Pensando assim era ser como o Homem-Aranha contra o Homem-Inseticida. Mas nada era impossível para ela. Tinha quase certeza que ganharia, mas acho que a sua derrota era iminente. Talvez fosse assim que encarasse tudo aquilo, talvez achasse que não tinha nenhuma chance, mas eu creio que não. Ela não o desafiara porque queria quebrá-lo, e sim, um tabu, uma coisa que gritava por atenção desde que se entendia por gente. Mas se realmente quisesse derrotá-lo não agiria da forma que agiu, creio. Quando se quer ganhar de uma adversidade, não devemos nos tornar como ela, e sim um ponto de desequilíbrio dentro de sua característica.
Jasmin não perdeu por ser mulher e Mauro o macho alfa. Jasmin perdeu porque lutava contra a sua própria natureza desde o inicio. Ela não respeitou o seu corpo e as condições de que os outros também o viam. Ela tinha que ter sido realmente impecável. Não poderia deixar entrar nenhum gancho, mas se fosse esguia e rápida como uma gata, sorrateira e perspicaz, aí sim, talvez tivesse ganhado... Deveria cuidado com o ring, suado e cheio de sangue pra não cair e dar chance ao juiz de acusa - lá de alguma falha, porque esqueceu que não lutava só com Mauro, lutava contra uma vida inteira de pessoas dizendo que não ia conseguir, lutava contra um povo que vivia morrendo e nascia morrendo... Ela teria que ter sido impecável em qualquer aspecto de sua apresentação, mas não foi.
Ela sempre quis negar o óbvio à dor nula de não se entender e tentar se domesticar com a vida que sempre a proporiam as coisas fúteis que não gostava e nunca gostou. Não queria terminar lavando roupas de dondocas como fazia a sua mãe do inicio ao resto de sua vida – pois isso pra ela, ser uma estatística, é o cúmulo da futilidade. Amava quem queria, e tinha apreço até mesmo por uma pessoa perversa, mas nunca deixava turvar suas idéias, seja por homens, filhos, circunstâncias da vida. Não era o boxe a sua principal profissão. Como uma guerreira nata, conciliava como professora de educação física e uns bicos como personal trainer de uma elite que gostava de viver separada sem contatos com ninguém. Jasmim era um sono leve em um dia tranqüilo com trovões sem som. Era uma mentira fabricada para o mundo não bater, mas quem a vise veria que era impossível esconder a sinceridade dos seus olhos um segundo sequer, e quem dirá, esquece-los sem ser tomado pela força da sua presença. Sua sombra me aturdia e só de saber que estava a conduzindo de um lugar a outro, era como se eu andasse com deuses dentro de mim. Mulher? A maior de todas. Mulher que é como uma estrela, potente em seu brilho, altiva e complexa em seus elementos e acima de tudo, melancólica e solitária, que só se fazia valer quando era uma bandeira vermelha em ressaca, porque sabia que quando o mar estava mais revolto, era esse o momento em que ele se sentia mais solitário. Já tinha amado homens, mulheres, objetos, desejos, mitos e heróis... Mas sempre por querer mostrar de alguma forma, que não me atreveria a dizer que era ela e sim a força de suas convicções, era quando ela mais se distanciava dela. Era ai que ela era realmente uma coisa que todos esperavam – menos a garotinha pedindo colo e carinho sempre, que no fundo é isso que era. Mas nunca me disse uma palavra sequer de sua vida. A conhecia pelo tato de querer conhecê-la, mesmo sem me dizer uma palavra dos lapsos que a fizeram ser Jasmin.
Jasmin deveria e deve ser desde o inicio essa força que nunca compreendeu que é: Ela sabe te amar e te matar com um mesmo vocábulo, língua, palavra e até mesmo andar. Há muito tempo negara a sensualidade e leveza que a fazia uma bailarina no ringue. Esqueceu que a sua força era e é o equilíbrio, aliás, o equilíbrio traz e faz brotar a raiz da força em tudo. O que foge do prumo e se desfaz a sua essência é a derrota. A derrota não tem raiz, identidade, vontade, personificação... A vontade não tem nada disso... Jasmin era uma vontade de ser, mas não era. Sempre ficou como uma aspiração a devir. Jasmin era uma perfeita mistura, mas não queria sê-la ou até mesmo se misturar. Por forçar a sua natureza ou por não saber realmente sê-la? Era um mistério doce que muitos tentavam desvendar e saber... Mas todos pararam no meio do caminho. Metades que pararam em silêncio e simplesmente foi um meio para parar no meio, mas meio eu, meio ela... Achei um meio e consegui segui-la meio termo, mais ainda sim, a seguindo.
O cigarro agora queimava por entre os seus dedos por entre minutos escoados em fumaça e nulidade. Quer me dizer alguma coisa, mas apenas morde os lábios inferiores com força que do espelho vejo uma pequena linha roxa. Dos olhos e da face não se pendiam mais as preciosas gotas que a declarava e a afirmavam sempre como uma linda mulher que era, porque como o híbrido que era, as segurava em nome, talvez, de sua reputação ou convicção.

- Não vai me dizer nada – Cutuquei.
- Você merece nada... Você não é nada... O que sabe é ficar rodando em círculos com essa merda de carro pra lá e pra cá... Não sabe o que é lutar pelos seus ideais, se conformou com essa vida medíocre e nada...
- O que você sabe sobre mim? O que você sabe sobre o que eu sei de você?
- Nada... Você não sabe nada de mim Criss. É uma pessoa que sempre chamo quando tudo dá errado e...
- E?
- Nada caralho, nada... Nada merda...
- Sabe por que o carro está parado?
- Ahn?
- Porque chegamos há algum tempo na porta da sua casa... E sabe porque a porta de trás está trancada?
- Ahn? Vai querer me tomar a força? Vamos... Nem cerro os punhos pra você. Te espero – me disse com cara de deboche ascendendo um outro cigarro...
- Você sabia que eu não fumo?
- Uhn-Uhn...
- Isso quer dizer...
- Isso quer dizer não – Fixa os seus olhos nos meus como uma fera.
- Sabe por que você não sabe? Porque eu sempre te servi, eu sempre fui um pouso para que você se deslanchasse como o tudo que eu sempre esperei. Esperei um abraço teu nos nossos dias juntos de porre... Esperei um feliz natal enquanto a minha casa comia a ceia e eu me embriagava pensando se vocês estavam bem, sozinha com a sua filha... Talvez em algum canto de um quarto chorando porque o pai dela não ligou e você estava sozinha sem ter nem um pote de açúcar na geladeira...
- Quando eu lhe dei essa liberdade pra falar assim da minha vida?
- A sua força me deu... Eu a tomei...
- Tomou? Você sabe que ninguém tomou nada de mim... Ninguém nunca tomou nada de mim, eu nunca deixei que isso acontecesse, nunca deixei que ninguém viesse e me tirasse um grão de nada...
- Mentira, várias pessoas tomaram coisas de você... Várias... Eu sei...
- Eu nunca lhe contei nada sobre a minha vida... Nada... Agora você me vem com esse papo que me conhece por que...
- Porque talvez lá no fundo...
- Lá no fundo o que?
- Lá no fundo o que?
- Lá no fundo... Eu seja você também...

Vejo brotar um deboche bombástico do seu rosto como uma ameaça de morte em sua face... Ele veio com uma leve elevação dos lábios superiores.

- Você nunca vai ser como eu Criss, ninguém é igual a ninguém...
- Vai tomar no cu Criss... Abre essa merda agora...

Segundos me separavam do abismo e da loucura que iria fazer. Ela poderia dizer tudo bem, virar as costas e nunca mais a veria – ou no dia seguinte ela me chamasse pra tomar um café pingado em uma birosca. Ela poderia quebrar o vidro do meu carro. Ela poderia me quebrar ou me arrebentar mesmo com as mãos sangrando me estocando a tesoura com força, mas saberia que não faria isso. Sabia que isso ia se passar em sua cabeça, mas ela não faria isso porque ela era boa. Mas respeitava a sua variante de possibilidades. Respeitava que um dia ela poderia acordar e daí nunca eu mais a veria de novo por tentar fazer o que eu ia fazer. Mas me arrisquei fazendo isso:

- Não! Fica ai merda, agora você vai me ouvir...

Para o meu espanto. Ela desiste e me olha com uma cara de surpresa.

“Você é um dia de chuva, um peito apertado e espremido de saudade pra mim. É um fogo que eu tento apagar mais não consigo do meu peito... Estendi-lhe tapetes. Tentei me cortar em minha mente por correr e não te achar. Me anulei em tentar me engraçar pra você porque sabia que não daria certo nada que eu fizesse tentando fazer alguma coisa, em uma atitude tola, te tendo em uma gaiola de ouro, mas em nome de alguns anos levando e trazendo você para vir pra cá e mostrar ao mundo. O mundo que eu vejo quando brota nos meus olhos a graça que sai de você, soa como escondida de um deus. Deus que não é homem nem mulher é uma força que me força a ser quem eu quero assim como você”.

Seriam lindas se realmente saíssem da minha boca, mas como que em um passe de mágica, o vento sobrou, uma nuvem bateu calma e refletida em minha timidez e apenas ela me olhou e eu a olhei, profundamente, como uma criança observando uma piscina... Como uma criança cheia de desejo para nadar dentro de você Jasmin, mas tenho um enorme medo de me afogar porque sua maré muda até com dias calmos. Jasmin era assim... Reparei em todos os cortes do seu rosto enquanto nos olhávamos... Era mágico ver isso na sua face como que um mistério me esperando... Ela me deixou olha-la... Ela me dizia com os olhos: “Vamos me olhe, eu sei o que você vai me dizer, eu sei o que você realmente sente e sei que você pensa que eu posso bancar a mulherzinha sempre e ir chorando sem motivo. Vamos me olhe, mas nunca vai me ter”... Ah, Jasmin... Como eu queria que sempre fosse assim, queria você só pra mim. Em um bolso guardado sem sair do seu Estado, como em um skate park particular feito pra você andar em círculos dentro do meu peito, como meu sangue. Mas senti derrota, falta e sempre me perco quando eu estou longe de você. Se você ficasse, ai parada, pelo menos por mais uns quinze minutos, talvez, eu te diria, eu te amo. Um eu te amo tão forte que faria parar todos os gongos, ringues e lutas para que você possa me ver através dele. Mas se passaram mais de quinze minutos e eu perdi a minha oportunidade... Ela simplesmente abriu a porta do carro e se foi... Não foi tanto assim, ela ainda me pagou, pelo vidro da frente e pegou um cartão meu – Pra quê? Não sei se foi e não sei.

“Pra você não se esquecer de mim. Eu ainda não desisti do Boxe.
A revanche será semana que vem.
P.S: Acho que agora estou pronta para escalar montanhas...
“Beijos nos olhos”.

Jasmin Du Crave

Correio. Veio um enorme e volumoso chumaço de cabelos com esse bilhete que recebi semanas depois dela sair como um mistério de dentro do meu táxi. “Agora entendi pra quê da tesoura”. Pensei

- Criss?
- Fala amor, que saudades... Quero ver como ficou seu cabelo!
- Não abusa...
- Fala Meu Cravo...
- É hoje...
- Eu sei boa sorte... Ligou pra que eu vá te esperar na porta de novo?
- É... Não to agüentando...
- Calma, vai dar tudo certo. Confio em você...

E tudo deu certo. Não como queria, mas tudo deu certo.

Desta vez, entra desejo. Um perfeito andrógeno me esperando sair, com cabelos curtos, sorriso nos lábios vermelhos de batom, um bom tempo no céu e uma feminina voz me estendendo a boca, me tocando os ouvidos e com ela dizendo-me baixinho e safada como uma gatinha no cio:

- Vamos Amor. É por minha conta...
- Pra onde vamos?
- Pro Inferno... Vamos pro inferno meu bem...


Rodrigo Serra
Terça-feira, 31 de julho de 2007.

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